O poder do “bom o bastante”
Nem sempre o resultado ideal compensa o tempo e a energia gastos para alcançá-lo

Não sei você, mas acho que já estou cansado de tentar otimizar absolutamente tudo.
Há alguns dias, vi uma publicação no LinkedIn prometendo "8 maneiras simples de começar um negócio". Soltei um suspiro. Menos de um minuto depois, apareceu outra: "6 passos simples para melhorar sua vida".
Achei que minha vida estivesse indo bem, mas aparentemente eu havia ignorado os passos 3 e 5. Preciso me esforçar mais.
Foi nesse momento que percebi que provavelmente já tinha atingido meu limite diário de otimização. Eram 8h50 da manhã.
A pressão que colocamos sobre nós mesmos para monitorar o sono, a alimentação, os exercícios, o consumo de água, o nível de estresse, acompanhar a última tendência – e muito mais – simplesmente passou dos limites. Corremos o risco de perder parte da essência de apenas aproveitar a vida.
Essa pressão constante para otimizar tudo não apenas é exaustiva na vida pessoal, como também pode atrapalhar nossa capacidade de criar algo realmente especial no trabalho, enquanto seguimos perseguindo resultados ideais e finais perfeitos.
Talvez precisemos lembrar que o "bom o suficiente" pode ser tão bom quanto (ou até melhor do que) um produto ou resultado final totalmente otimizado.
ÀS VEZES, MENOS É MAIS
Existe um sólido conjunto de pesquisas mostrando por que uma versão inacabada ou menos otimizada pode superar uma refinada demais.
Um dos pioneiros nessa discussão foi o economista Herbert A. Simon, vencedor do Prêmio Nobel. Ainda em 1947, ele estudava como as pessoas tomam decisões e, em 1956, apresentou o conceito de satisficing, um termo criado por ele a partir da combinação das palavras satisfy (satisfazer) e suffice (ser suficiente).
Simon defendia que buscar o resultado absolutamente ideal na vida ou nos negócios é uma tarefa impossível, porque nenhum de nós dispõe de tempo ou capacidade mental ilimitados.

Em 2002, psicólogos liderados por Barry Schwartz, professor de teoria social e ação social, ampliaram essa teoria em um estudo publicado no "Journal of Personality and Social Psychology". Eles distinguiram dois perfis: os maximizadores (maximizers) e os satisficientes (satisficers).
A pesquisa mostrou que, embora os maximizadores busquem sempre o melhor resultado possível, eles também experimentam níveis mais elevados de estresse, arrependimento e insatisfação do que os satisficientes, que aceitam aquilo que consideram "bom o suficiente".
Os maximizadores são aquelas pessoas que monitoram tudo e passam três horas lendo avaliações de produtos para encontrar a camisa perfeita (confesso que me reconheço nesse comportamento).
No ambiente de trabalho, eles são extremamente úteis em áreas como conformidade regulatória e gestão de riscos, porque conseguem identificar todos os detalhes e entregar trabalhos muito bem acabados.
perseguir o resultado ideal costuma custar mais do que o benefício que proporciona.
Mas, quando velocidade é essencial, os satisficientes agem de forma diferente. Eles escolhem a primeira opção que atende aos critérios mínimos estabelecidos. Assim que a encontram, apertam "enviar" e seguem para a próxima tarefa.
Os pesquisadores observaram que os maximizadores gastam uma quantidade enorme de tempo, energia e esforço mental tentando extrair aquele último detalhe que tornaria o resultado perfeito.
O paradoxo é que acabam apresentando níveis mais altos de estresse, depressão e arrependimento. É como se espremessem toda a diversão para fora do trabalho.
Menos obcecados por otimização, os satisficientes tomam decisões com rapidez, mantêm o ritmo e tendem a ser mais felizes, mesmo sem alcançar sempre o melhor resultado possível.
COMO DEIXAR DE LADO O EXCESSO DE OTIMIZAÇÃO
Não estou dizendo que devemos baixar nossos padrões. A proposta é aceitar um pouco mais de imperfeição, reconhecendo onde o perfeccionismo fez desaparecer a alegria, o prazer e até a qualidade daquilo que fazemos por excesso de otimização.
Será que esse projeto realmente precisa de mais uma etapa de aprovação? Existe alguma parte do processo que poderia ser simplificada para que a entrega chegue mais rápido aos diretores, clientes ou consumidores?
Aquele e-mail em que você já gastou uma hora provavelmente pode ser enviado agora mesmo. Tenho quase certeza de que tudo ficará bem. Aliás, erros de digitação talvez estejam até na moda. Hoje eles funcionam como um pequeno sinal de autenticidade, mostrando que o texto foi escrito por uma pessoa, e não por uma IA.
Se eliminar uma etapa inteira de aprovação parecer radical demais, comece aos poucos. Antes de iniciar uma tarefa, defina um limite claro para encerrá-la: duas revisões do documento, uma rodada de ajustes na apresentação e pronto, ela vai embora.
A principal mensagem de Herbert Simon era justamente esta: perseguir o resultado ideal costuma custar mais do que o benefício que proporciona. Definir antes um ponto de parada é o que faz o "bom o suficiente" realmente funcionar, em vez de se transformar em mais um motivo de culpa.
Se o relógio que monitora seu sono para ajudá-lo a dormir está, na prática, fazendo você dormir pior, talvez seja hora de tirá-lo do pulso.
Leia mais: Perfeccionismo gera resultados ou apenas burnout?
Da próxima vez que você estiver prestes a incluir uma quarta revisão em um trabalho que já estava suficientemente bom depois da segunda revisão, ou reescrever pela sexta vez uma frase que funcionava desde a primeira versão, pergunte a si mesmo se você está realmente melhorando o resultado ou apenas evitando o desconforto de aceitar que ele já está pronto, ainda que de uma forma um pouco menos otimizada.