Corantes naturais ganham mercado, mas podem custar até 10 vezes mais

Nos EUA, vendas de produtos com cores naturais cresceram 24,4% em um ano, enquanto falta de oferta e reformulação complexa desafiam a indústria

Alimentos coloridos representam a substituição de corantes artificiais por alternativas naturais.
Produtos que destacam cores naturais nas embalagens registraram alta de 24,4% nas vendas nos Estados Unidos.

Hunter Schwarz 3 minutos de leitura
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Os consumidores norte-americanos estão comprando cada vez mais alimentos produzidos com corantes derivados de fontes naturais.

Desde 2025, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, vem adotando medidas para eliminar gradualmente os corantes sintéticos derivados de petróleo.

Agora, um novo levantamento indica que os consumidores seguem na mesma direção. Na hora de escolher, mais pessoas estão buscando produtos que utilizem ingredientes como beterraba, uva, páprica e cúrcuma para produzir suas cores, em vez de corantes artificiais.

Um relatório da National Confectioners Association e da organização de pesquisa RTI International mostra que as vendas de alimentos e bebidas com a expressão “cores naturais” nas embalagens cresceram 24,4% entre 2024 e 2025.

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No mesmo período, as vendas dos produtos que destacavam “cores artificiais” avançaram apenas 0,1%. Alguns itens que utilizam corantes como Vermelho nº 40, Amarelo nº 5 e Amarelo nº 6 registraram queda.

O CONSUMIDOR ESTÁ MUDANDO A PRATELEIRA

O crescimento foi mais expressivo entre os pratos prontos, cujas vendas avançaram 52,5%. Em seguida aparecem os produtos de dieta e nutrição, com alta de 40,6%, e os itens de panificação, temperos e coberturas, com 27,1%.

O movimento também alcançou categorias tradicionalmente associadas a cores vibrantes. As vendas de doces com corantes naturais cresceram 19,1%, enquanto as de bebidas subiram 12,1%.

“A demanda dos consumidores por ingredientes naturais, rótulos mais simples e maior transparência sobre os ingredientes cresceu de forma constante nos últimos anos”, escreveram os autores do relatório.

A mudança já aparece nas estratégias das grandes redes varejistas e fabricantes. A Target retirou de suas lojas e de seu comércio eletrônico, em maio, os cereais com corantes sintéticos. O Walmart pretende remover esses ingredientes dos alimentos de suas marcas próprias até janeiro de 2027.

Kraft Heinz e General Mills também anunciaram, em junho de 2025, que eliminariam corantes artificiais de seus produtos nos Estados Unidos até 2027. A FDA mantém uma lista dos compromissos assumidos por fabricantes e varejistas.

A TRANSIÇÃO PODE CUSTAR 10 VEZES MAIS

Para fabricantes de alimentos, bebidas e corantes, porém, a mudança não é rápida, barata ou simples.

A Welch’s Fruit Snacks, por exemplo, levou uma década para concluir a transição para corantes naturais. O processo de reformulação pode ser difícil porque essas alternativas costumam apresentar menor estabilidade e mais variações de cor. Além disso, podem custar até 10 vezes mais que os corantes sintéticos.

Há também um problema de escala: a oferta disponível atualmente não seria suficiente para atender a toda a indústria de alimentos dos Estados Unidos.

Um fornecedor de ingredientes consultado para o relatório estima que uma substituição completa provocaria um aumento de 400% a 500% na demanda por corantes naturais, pressionando os preços e a cadeia de abastecimento.

“Sem coordenação, a indústria poderá enfrentar custos mais altos, instabilidade no fornecimento e uma implementação desigual”, alertam os autores.

Por isso, o estudo recomenda que os cronogramas de substituição considerem o tempo necessário para realizar testes, adaptar produtos e ampliar a produção das matérias-primas.

A COR TAMBÉM ALTERA A PERCEPÇÃO DO SABOR

O desafio não está apenas na cadeia de produção. Corantes derivados de fontes naturais podem produzir tons mais opacos ou discretos. Já as alternativas sintéticas costumam gerar cores mais brilhantes, o que pode influenciar até a forma como o consumidor percebe o sabor.

Uma tonalidade mais intensa pode levar o cérebro a esperar um alimento mais doce, por exemplo.

A General Mills sentiu esse efeito na prática. Em 2016, a companhia tentou retirar os corantes artificiais do cereal Trix. Os consumidores rejeitaram a mudança, e a fabricante retomou a fórmula anterior no ano seguinte.

Dez anos depois, a transição poderá encontrar um público diferente. Além da pressão exercida pelo programa federal Make America Healthy Again, até janeiro oito estados norte-americanos, entre eles Califórnia e Texas, já haviam aprovado leis relacionadas ao uso de corantes artificiais. Quase duas dezenas analisavam propostas semelhantes.

O fator decisivo, no entanto, pode ser menos político do que econômico. Se um número crescente de consumidores continuar procurando alimentos produzidos com corantes naturais, a principal motivação para os fabricantes estará nas próprias vendas.


SOBRE O AUTOR

Hunter Schwarz é colaborador da Fast Company e acompanha de perto os pontos de contato entre design e publicidade, branding, negócios,... saiba mais