
Quando se fala em liderança, o limite quase sempre aparece como uma barreira a ser vencida. A websérie “Limites para o Amanhã” parte da direção contrária: reconhecer até onde é possível ir também pode ser um exercício de responsabilidade.
Apresentada pela Fast Company Brasil, criada e roteirizada por Felipe Urbano e produzida pela Umbrella Filmtech, a série reúne dez episódios sobre os limites do corpo, da mente, da responsabilidade, da perfeição, do risco, da resiliência, do poder, da mudança, do otimismo e da tolerância.
Em cada capítulo, uma atriz interpreta um dos textos do manifesto que deu origem ao projeto. A proposta é questionar a cultura do “a todo custo” e mostrar que pausa, recuo e equilíbrio não são necessariamente sinais de fraqueza — também podem fazer parte da liderança.
EP 00 – INTRODUÇÃO
Reconhecer limites é essencial para uma liderança mais humana e sustentável. Respeitar o corpo, a mente e a própria capacidade não significa falta de coragem ou esforço, mas uma forma de preservar a saúde mental.
O episódio apresenta os limites como sabedoria, equilíbrio e a capacidade de compreender quando avançar, recuar ou dizer: até aqui basta.
EP 01 – LIMITES DA RESPONSABILIDADE
Se der errado, a culpa é minha.
Um medo inerente à vida. Fracasso de se tenebroso de outros por sua responsabilidade. É melhor não pensar. Uma liderança empreendedora experimenta o risco com a angústia de ver o seu projeto afundar em tempos maus. Cada rosto e família representada no negócio é acompanhada da reflexão eminente que cada decisão pode tirar algum espaço de ação. E quem abraça esse fardo escolhe o dramático paradoxo entre o que é seu e o que é do outro.
Um diálogo perturbador e sem fim às muitas vozes imaginárias dizendo cenários perturbadores, enrijecendo os músculos, pressionando os dentes, a noite acelerando o coração com palpitações e o sentimento que somente você a quem pode propor soluções. O exercício simples de separar. Isso é meu. Isso não é meu. Como porta para sair do fardo à exaustão. Culpa. Sufocamento, pressão, estresse, autocobrança e tudo mais de quem quer abraçar e já não pode se responsabilizar mais.
A liderança responsável constrói ambiente, organiza espaços, oferece condições. Mas até onde se pode responsabilizar pelo futuro e suas reações? Separe joios e trigos.
EP 02 – LIMITES DA PERFEIÇÃO
A minha régua é mais alta.
Todo mundo já teve aquele professor que sabia tudo da matéria. Ninguém tirava notas altas e carregava um certo prazer na exigência. Acabamos descobrindo cedo que conviver com perfeccionistas pode tirar a vontade de aprender tão longe, tão alto, logo, tão improvável. Uma liderança que só aceita a perfeição exerce o mesmo efeito sobre o grupo. O que começa com uma vontade de capricho passa a ser um objetivo em si.
Quando o capricho serve para se retroalimentar, aparece a violência de não fazer do jeito certo. A excelência não medida por parâmetros objetivos, mas por um gosto pessoal. E é nesse ponto que a busca pela perfeição se transforma em violência. O próprio perfeccionista se chama assim por uma licença poética. A perfeição absoluta não existe. Não resiste ao microscópio de suas ações, Mas ele raramente faz essa autorreflexão.
Ele não reconhece os próprios erros, mas magnifica os erros de outros. Esse eu e eles é uma máscara na busca constante de excelência que pode se tornar uma forma de violência. Sucumbir ao ato agressivo de não reconhecer os próprios limites. E se ficarmos 1% abaixo do combinado? Estresse E se ficarmos a 1% da parte alta da meta? Estresse feito?
Não. Perfeito também e bem feito. Quem te deu a sua régua?
EP 03 – LIMITES DO RISCO
Mais vontade de ganhar. Que medo de perder.
Sem adrenalina não há jogo para os jogadores. Eles propagam que os acomodados viverão a mediocridade da vida sem pulso. Quem não arrisca não alcançará o direito de experimentar o que há de melhor da vida. A dose extra de endorfina para seguir, segue se a acusação velada de que é medroso. Quem não arrisca tem que viver o momento. A vida não espera.
A dopamina é para hoje. Os caçadores de risco sabem onde encontrar a adrenalina. Pode ser no jogo de palitinho, pode ser numa casa de apostas. Pode também ser nas finanças da empresa, apostando no câmbio. Pode ser no projeto com retorno duvidoso, contra todas as probabilidades. Risco e adrenalina. Combinação tão poderosa quanto destrutiva. Há também muita ingenuidade nisso. Ninguém ganha tudo o tempo todo.
Nesse ponto, dá para enxergar outra perspectiva. O sábio é aquele que não coloca a adrenalina no centro da existência. A serotonina da apreciação e a ocitocina da paz. Acompanhando a jornada, a vida traz seus próprios riscos. É mesmo necessário adicionar outros?
Autopreservação serotonina e ocitocina.
EP 04 – LIMITES DA RESILIÊNCIA
Aguenta firme. Não desista.
Tente lembrar quantas pessoas você conhece que progrediram na vida com muito esforço. Tente lembrar de pessoas que a vida passou a perna e que admiravelmente bateram o pó, se levantaram e seguiram o seu caminho com fortes e inspiradoras são suas capacidades de persistir. Por outro lado, tente se lembrar de alguém que chegou a um precipício que definitivamente a jornada não poderia seguir e tornou se necessária a pausa.
Onde está a sabedoria? Inda e passos para sobreviver? Ou ir em frente e despencar no desfiladeiro? A voz popular diz Nunca desista de mais um passo adiante, sempre para trás, nem para pegar impulso. Mas o que acontece quando você percebe que está no caminho errado? A ambição da tradicional e cansativa imagem da liderança sisuda, austera, que não desiste, mesmo contra todas as evidências em contrário, vai fragilizando os ossos.
Saber sacudir o pó é uma arte louvável, mas à beira do precipício. Melhor dar um passo para trás, sobreviver e tentar outro caminho. Resiliência? Sim, Teimosia só às vezes a momento de resistir. Mas quem pode assumir a hora de partir? Pare de teimar.
EP 05 – LIMITES DA MENTE
Eu não vou tratar desse assunto hoje, esse ano ou na vida, porque eu não vou dar conta.
Você é uma pessoa atarefada? Diga quantas vezes você teve liberdade de falar essa frase?
Queremos nos inteirar de tudo para nos mantermos atualizados, mas quem consegue? Já nome de doença, o tal do FOMO fear missing out. Medo de ficar de fora. Há um limite para processar muitos assuntos ao mesmo tempo. Quando não conseguimos, temos a sensação de atraso, de estar ficando para trás. Uma liderança ensinada na falta, ensinada a superar nossos limites e alcançar um ponto impossível e imaginário onde o máximo nunca é suficiente.
Construindo uma resposta dispersa. A vida, o entorno, o essencial. Sem rituais, atropelando o foco da energia e tudo mais. O limite da mente nos lembra daquilo que esquecemos. Somos seres humanos, não máquinas. A mente precisa de pausa, descanso e momentos de divagação. Aos poucos, a mente vai voltando para os eixos, recuperando a imaginação, a disposição no turbilhão. Quando você consegue o ócio pelo ócio sem nada precisar criar, bastando a mente sossegar.
Proteja o seu cérebro.
EP 06 – LIMITES DO PODER
Manda quem pode, obedece quem tem emprego. A obediência pura e burra.
Obedece quem tem juízo não é uma preocupação com o modo de fazer as coisas. Apenas uma preocupação em não ser demitido. Aquela certeza compartilhada de que algo está errado não vai dar certo. Mas alguém mandou. Fica fora. Todo o treinamento recebido sai de cena. Toda a experiência dos funcionários seniores também desaparece. A ética, a autonomia e o espaço compartilhado.
As margens do rio se estreitam na palavra curta, sem volta, Desaparece a capacidade de pensar a realidade do trabalho e o relacionamento entre as pessoas. Surgem os interesseiros, que fingem obediência sem limites, multiplicando que há de pior na organização? A nitroglicerina projetada para implodir a instituição por dentro. Quanto maior o poder de quem manda, mais curta é a sua palavra, mais abrangente e nitroglicerina armada.
O poder limita a visão. E o que pode fazer um burro sem observar o impacto de pisar no chão? Pode mais. Quem manda menos?
EP 07 – LIMITES DA MUDANÇA
Estamos aqui para transformar.
O barco. Quis mudar de direção, ajeitou a vela, velame e pronto, iria para novas águas. O navio quis mudar de direção. Não é bem assim. O leme virou, mas o navio não entendeu. Preso ao seu tamanho, só obedeceria devagar para não adernar. Barco e navio navegam o mesmo mar. O barco vai até a borda do alto mar. O navio, o trafego, o alto mar.
O barco muda de direção quando quiser. O navio precisa se programar. O barco alcança só um pouco depois. Arrebentação, navio. Esse vai até onde estiver. Mar Há o sonho dourado da agilidade do barco com a força bruta do navio. Não funciona assim. Uma pena. Há uma identidade, uma forma de funcionar. Uma liderança negligente não percebe, assim como capitão pobre será se não entender de essência.
Embora compartilhem o mesmo mar, barco e navio têm regras diferentes. São incompatíveis no seu propósito. A liderança que não entender isso está fadada ao amargor e a decepção de motivar uma tripulação na direção do impossível, improvável, infértil, futuro. Uma liderança se justifica na capacidade de mudar rumos na sua navegação. Mas até onde ela pode lutar com a essência da embarcação?
Faça as pazes com o mar.
EP 08 – LIMITES DO OTIMISMO
Vai dar certo, de um jeito ou de outro.
O otimismo é um superlativo. Está sempre no lugar mais alto que qualquer outra proposta. Carrega a contradição de abrir um mundo de possibilidades e colocar ponto final para quem quiser desafiá lo. Quem falaria contra o otimista? Aquele que não enxerga limitações e pensa que com esforço tudo dá, tudo funciona, tudo frutifica? Quem ousaria tirar o lugar alto das boas intenções, acompanhada da certeza do sucesso?
O otimista opera no extremo da certeza. Na voz contrária, sugere um oponente a ser batido. Pessimista no mundo que sempre é possível a quem esteja nesse exato momento sofrendo sob uma liderança, com propostas descoladas da realidade, agindo e ouvindo de outros que certos movimentos são impossíveis de fazer, mas se aferra ao seu otimismo. É o que sugere um ato de fé.
Reflete a alienação de alguém apaixonado descansando na sombra da própria convicção. Quão preciosa é uma liderança que inspira a cabeça nas nuvens com rara é a que sustenta os pés no chão. Quem pode dizer não vai dar. É assim um futuro possível Criar pé no chão.
EP 09 – LIMITES DA TOLERÂNCIA
Com o tempo você se acostuma. Está na cultura. É assim mesmo.
O comportamento é recorrente. Vale para hoje, para amanhã e para depois. Todo mundo sabe que não é bom. A rotina naturaliza a cultura, habitua o estranhamento normalizado dia após dia. A recompensa sugere que compensa. A tolerância dá lugar a complacência. Uma desculpa aqui, um deslize ali. Um excesso, Uma aberração. O olhar, A fala abaixa. Escuta o ego. Todas as placas apontando para a mesma direção.
Uma liderança acomodada, que não demite para se poupar do incômodo. E a reputação. A tolerância criando raízes na apatia diante de extremos, na prática do assédio moral sexual. Explicitando uma organização doente dirigida por gente doente, imoral. Um campo fértil para ir aos poucos estreitando os horizontes, minguando o campo de visão, sufocando a vida em uma maratona já perdida.
Quem pode decidir por que não decidiu? Quem pode sair? Por que não saiu? Não aceite.
EP 10 – LIMITES DO CORPO
O que você faz da meia noite até às seis.
Quem trabalhou de dia estudou de noite, com sacrifício. Conhece bem a frase, os sentimentos que acompanham a pergunta, a passiva agressiva, que vai se infiltrando em cada camada da vida, nos ensinando que só avança quem subjuga o corpo e suas necessidades mais primitivas do sono e alimentação. A vida caminha e o fruto da jornada aparece em uma narrativa única.
Eu estou 24h por 7 dias da semana para vocês. Espero também que sejam para mim. E as ambições legítimas acabam mesmo em burnout. O corpo é o limite da exaustão. Olhando para os lados, na expectativa de idêntica repetição do sucesso sofrido de quem não conheceu o outro e reproduz intensamente desde então transpirado, trabalhado, merecido, às custas de um corpo, o sagrado corpo que a tudo diz e sinaliza aos desavisados, ora com sutilezas, ora com exigentes movimentos de um grandessíssimo basta.
Trabalhar sobrecarregado custa caro demais. Custa sua saúde, seu equilíbrio emocional e o que mais? O corpo é sagrado.