Currículos perfeitos demais: como a IA está mudando a busca por emprego

Segundo pesquisa do site de empregos Indeed, 83% dos brasileiros já utilizaram IA em pelo menos uma etapa da busca por emprego

como a IA está mudando a busca por emprego
Créditos: Getty Images/ Unsplash

Isabella Lura 4 minutos de leitura
Favoritar no Google

A inteligência artificial criou uma tensão no ambiente de trabalho. De um lado, oito em cada 10 brasileiros já usaram a tecnologia para melhorar o currículo. Do outro, quase 70% dos gestores afirmam que a IA deixa o currículo falso ou “exagerado”.

Segundo uma pesquisa realizada pelo site de empregos Indeed, 83% dos brasileiros já utilizaram inteligência artificial em pelo menos uma etapa da busca por emprego.

Já um estudo da empresa de recrutamento Robert Half revela que 66% dos gestores de contratação percebem um aumento de currículos com informações exageradas ou falsas desde a popularização da IA generativa.

O contraste evidencia um novo desafio para empresas e candidatos: encontrar um equilíbrio entre eficiência tecnológica e credibilidade.

Vale ressaltar que as duas pesquisas adotaram metodologias diferentes. O estudo do Indeed ouviu 1.014 trabalhadores brasileiros por meio de um questionário online, enquanto a Robert Half reuniu dados de três pesquisas, incluindo um levantamento realizado com 500 gestores de contratação de empresas de diferentes portes e setores em todo o Brasil. 

IA ACOMPANHA A JORNADA DO CANDIDATO

Os dados mostram que a IA é utilizada em diferentes momentos da busca por vagas. Entre os entrevistados, 49% afirmam recorrer à tecnologia para aprimorar seus currículos, enquanto 40% a utilizam para encontrar oportunidades alinhadas ao seu perfil. 

Além de apoiar os candidatos, a pesquisa indica uma aceitação crescente do uso da inteligência artificial também por parte das empresas. Para 57% dos participantes, a IA pode ser útil no agendamento de entrevistas.

O que certas vagas pedem (e o que realmente querem dizer)
Créditos: hanibaram e dem10/ Getty Images

Mais da metade (55%) consideram positiva a utilização da tecnologia para recomendar vagas compatíveis com suas habilidades e experiências, enquanto 48% aprovam seu uso para esclarecer dúvidas durante o processo seletivo.

Na avaliação de Elisa Jardim, gerente da Robert Half, a tecnologia realmente pode tornar o processo mais eficiente quando utilizada como apoio.

Ela destaca que a IA é especialmente útil na preparação para entrevistas, permitindo que candidatos pesquisem informações sobre a empresa, entendam sua cultura organizacional, revisem conceitos e cheguem mais preparados às conversas com os recrutadores.

IA TAMBÉM TRANSFORMA O TRABALHO DE RECRUTADORES

O avanço da inteligência artificial não mudou apenas a forma como os candidatos procuram emprego. Para recrutadores, a tecnologia também alterou a dinâmica dos processos seletivos.

Segundo Elisa Jardim, ferramentas automatizadas já eram utilizadas pelo setor antes da popularização da IA generativa para organizar currículos e localizar perfis compatíveis com determinadas vagas.

Agora, com candidatos utilizando as mesmas tecnologias para produzir currículos altamente personalizados, o fator humano ganhou ainda mais importância.

Utilizar a IA para estruturar ideias, revisar textos ou organizar informações é diferente de delegar o raciocínio à ferramenta.

"Qualquer pessoa consegue montar um currículo perfeito com inteligência artificial. O desafio do recrutador é descobrir quem realmente possui aquelas competências" explica a gerente da empresa de recrutamento. 

Os dados da Robert Half mostram ainda que 44% dos gestores consideram o conhecimento em inteligência artificial uma vantagem no processo de contratação, enquanto 25% já priorizam candidatos com essas competências para a maioria das vagas. 

A especialista explica que o currículo deixou de ser suficiente para comprovar a experiência profissional. Hoje, entrevistas e avaliações comportamentais passaram a ter um peso ainda maior para verificar se as informações apresentadas refletem a realidade.

Apesar das discussões sobre o uso da tecnologia, Elisa Jardim lembra que problemas básicos continuam eliminando candidatos. Em processos com grande procura, documentos confusos, incompletos ou sem informações de contato podem ser descartados rapidamente.

O currículo é a porta de entrada. Se a trajetória do candidato for confusa, o recrutador passa para o próximo.

AUTENTICIDADE CONTINUA SENDO O DIFERENCIAL

Recrutadores experientes conseguem identificar sinais do uso excessivo de IA quando o candidato não consegue sustentar, durante a entrevista, as experiências e competências apresentadas no currículo. 

"É muito difícil traduzir perfeitamente toda uma carreira em uma ou duas páginas exatamente como a empresa espera. Quando tudo parece perfeito demais, isso naturalmente chama atenção", aponta Elisa.

Para ela, apesar dos avanços tecnológicos, nenhuma ferramenta consegue substituir completamente a avaliação humana.

Na hora da seleção, as empresas têm dado cada vez mais peso às competências comportamentais, como capacidade de adaptação, colaboração, iniciativa e visão de negócio "A gente contrata pelo técnico e desliga pelo comportamental." afirma.

Ferramentas de IA ajudam a organizar informações, revisar textos, identificar palavras-chave e preparar candidatos para entrevistas. Mas há o risco de se criar uma dependência excessiva da tecnologia. Utilizar a IA para estruturar ideias, revisar textos ou organizar informações é diferente de delegar completamente o raciocínio à ferramenta. 

Leia mais: Este erro no currículo pode fazer o recrutador parar de ler

Para a especialista, candidatos que deixam a IA pensar por eles podem acabar comprometendo habilidades importantes, como comunicação, pensamento crítico e capacidade de argumentação. A ideia é que a tecnologia potencialize as capacidades dos profissionais, não substituir sua experiência ou identidade. 


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais