CEO da Fender comparou bandas cover à IA – e agora voltou atrás

Após repercussão nas redes, executivo diz que a música continuará sendo uma experiência essencialmente humana

CEO da Fender comparou bandas cover à IA, mas voltou atrás
Créditos: Mick Haupt/ Pexels/ Igor Omilaev/ Rod Long/ Unsplash

Eve Upton-Clark 4 minutos de leitura
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O CEO da Fender, maior fabricante de guitarras do mundo, provocou a irritação de músicos depois de comparar bandas cover a chatbots, dando a entender que ambos seriam formas de criatividade essencialmente limitadas. Agora, ele tenta esclarecer o que quis dizer.

Em entrevista ao site T3 no início deste ano, Edward "Bud" Cole afirmou que tocar versões de músicas conhecidas funciona como uma espécie de "IA analógica", permitindo que iniciantes aprendam a tocar antes de começarem a compor.

Ele também comparou o papel dos integrantes de uma banda ao de um grande modelo de linguagem (LLM), argumentando que ambos ajudam um compositor a transformar ideias parciais em músicas completas. Na ocasião, defendeu ainda que a própria inteligência artificial pode ajudar artistas a criar obras originais.

"Acho que estamos à beira de libertar as pessoas para ir além das mesmas versões de sempre e realmente trabalhar da mesma forma que fazem com suas bandas", afirmou.

CEO DIZ QUE NÃO CONSEGUIU TRANSMITIR SUA VISÃO

Meses depois, Cole afirma que suas declarações não refletiram corretamente seu pensamento.

"Há alguns meses, conversei sobre IA na música. Minha intenção era falar sobre como a tecnologia pode ajudar artistas e músicos a aprender e evoluir, mas reconheço que não consegui transmitir totalmente essa perspectiva. Agradeço a oportunidade de explicar meu pensamento com mais profundidade", disse o executivo à Fast Company.

A entrevista ao T3 passou praticamente despercebida no início. Mas, à medida que veículos especializados, discussões no Reddit e influentes criadores de conteúdo no YouTube passaram a destacar trechos da conversa publicada durante as comemorações dos 75 anos da Fender, a repercussão negativa cresceu.

Muitos músicos consideraram ofensiva a ideia de que seu processo criativo pudesse ser reduzido ao funcionamento de um sistema de treinamento de IA.

"Você imaginaria que o CEO de uma empresa que depende da venda de guitarras apoiaria músicas que realmente exigem guitarras para existir", escreveu um usuário no Reddit.

Outro comentou: "esses executivos corporativos continuam esquecendo que o resto de nós tem alma e vê a música como algo muito maior do que um produto para fazer subir as linhas de um gráfico."

Fender reclama de cópias do modelo de guitarra Stratocaster

A reação acontece poucos meses após outra polêmica envolvendo a Fender. No início do ano, a empresa foi alvo de um movimento de boicote depois de, supostamente, enviar notificações extrajudiciais a fabricantes independentes de guitarras pelo uso do icônico formato do corpo da Stratocaster.

Criadores de conteúdo especializados em guitarras romperam publicamente com a marca, e um deles classificou o episódio como "um dia muito triste para o mundo das guitarras". Desde então, a Fender tenta reconstruir sua relação com seu público mais fiel.

IA DIVIDE OPINIÕES NA INDÚSTRIA MUSICAL

"Música é uma experiência inerentemente humana. Grandes canções nascem das vivências das pessoas, de sua energia criativa e das incontáveis horas dedicadas ao aprendizado de seus instrumentos, algo que nenhuma máquina jamais poderá reproduzir", afirmou Cole à Fast Company.

As declarações surgem em um momento de transformação na indústria musical. Assim como o vinil deu lugar às fitas cassete, depois aos CDs e, mais tarde, ao streaming, a inteligência artificial começa a remodelar tanto a criação quanto o consumo de música.

A opinião do público está dividida. Dados recentes da Luminate mostram que 44% dos ouvintes de música nos Estados Unidos se dizem desconfortáveis com canções criadas por IA.

Ainda assim, músicas geradas com inteligência artificial, como "Walk My Walk" e "Livin' on Borrowed Time", estrearam nas paradas da "Billboard" ao longo do último ano, indicando que existe audiência para esse tipo de conteúdo, intencionalmente ou não.

"A MÚSICA COMEÇA E TERMINA NAS PESSOAS"

Para músicos preocupados com violações de direitos autorais, raspagem de dados e deepfakes de voz, a reação às declarações de Cole evidencia o cuidado necessário ao discutir inteligência artificial em um setor tão sensível.

"Muitas das preocupações das pessoas em relação à IA são legítimas", escreveu o executivo. "Precisamos discutir como fazer a inteligência artificial avançar ao mesmo tempo em que protegemos os artistas e preservamos o respeito por seu trabalho."

Leia mais: Spotify cria ferramenta para impedir músicas falsas em perfis de artistas

Na visão de Cole, a IA deve continuar como uma ferramenta de apoio, ajudando iniciantes a aprender e oferecendo a artistas experientes "novas maneiras de explorar, refinar e experimentar suas próprias ideias criativas".

Mas ele faz questão de reforçar um ponto: "a música começa e termina nas pessoas. E isso sempre será assim."


SOBRE A AUTORA

Eve Upton-Clark é jornalista especializada em cultura digital e sociedade. saiba mais