O homem que desenhava dinheiro
Arquitetura, cultura e história inspiram o trabalho do designer jordaniano Hussein Alazaat

Viajei à Jordânia para mapear talentos criativos no Oriente Médio.
Entre todas as recomendações que recebi, uma voltava sempre à conversa. "Você precisa conhecer Hussein Alazaat", insistia meu colega Deaa Bataineh, vice-diretor do Centro de Excelência e Projetos Inovadores da Universidade de Ciência e Tecnologia da Jordânia.
Ao longo daquela semana, Deaa havia me apresentado pesquisadores, empreendedores, estudantes, startups e coletivos criativos que contribuem para ampliar a inteligência criativa do país. Sobre Hussein, porém, dizia apenas “você precisa conhecê-lo”.
Quando Hussein abriu a porta de casa, nem tivemos tempo para uma apresentação formal: ele apontou para minha camisa estampada com uma rosa vermelha. "Cool shirt" (camisa legal)

Disparei elogiando sua calça camuflada."Nice pants!” (calça bacana). Rimos.
Enquanto entrávamos, Hussein voltou a apontar para a minha camisa. Explicou que aquela flor lembrava a Rosa Damascena, um dos símbolos culturais mais importantes do Oriente Médio.
A visita ainda nem havia começado e uma simples estampa já nos levava a falar sobre cultura, memória e linguagem. Foi meu primeiro indício de que Hussein observava o mundo de maneira diferente.
Enquanto preparava um café Moka Express, perguntei o que ele mais gostava de fazer. Sorriu. "I like to do meaningful things" (gosto de fazer coisas com significado).
Achei que tivesse entendido. Passei as horas seguintes descobrindo que não.
Percebendo meu olhar confuso, me convidou: "Come on, let's take a walk around the neighborhood. It's easier to show you than explain it" (vamos dar uma volta pela vizinhança, é mais fácil mostrar do que explicar).

Durante a caminhada, fui entendendo que Hussein olhava para a cidade de uma forma muito diferente da minha. Enquanto eu via ruas, ele via linguagem.
Parava diante de um portal de pedra e chamava atenção para a maneira como os blocos eram encaixados. Logo adiante, apontava a repetição de determinados ângulos nas fachadas, o ritmo das janelas, a espessura das paredes e a geometria das sombras projetadas pelo sol do fim da tarde.
Nada parecia ser apenas construção. Tudo carregava informação.
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Em poucos minutos, comecei a perceber que Hussein não observava a arquitetura apenas como tal. Ele a lia como um vocabulário visual construído ao longo de séculos.
Foi então que Hussein abriu, no celular, seus estudos sobre a caligrafia criada para o uniforme da seleção jordaniana que disputaria, pela primeira vez, uma Copa do Mundo em 2026.

De repente, aquelas formas deixaram de parecer apenas tipografia. Os ângulos lembravam os portais que havíamos acabado de atravessar. As linhas evocavam as construções de pedra que marcavam a paisagem.
Os encaixes entre os caracteres reproduziam a mesma lógica estrutural que sustentava a arquitetura ao nosso redor.
Compreendi que Hussein nunca começava um projeto a partir de uma folha em branco. Começava diante de uma cultura. O desenho vinha depois.
De volta à casa, Hussein mostrou os estudos tipográficos criados para a modernização das cédulas jordanianas. Foi então que entendi a dimensão do seu trabalho: ele circula diariamente nas mãos de milhões de jordanianos.

Antes de nos despedirmos, Hussein pegou um pequeno caderno de notas e escreveu meu nome em árabe na capa. Estendeu o caderno com a reverência e disse: "Now you’ll take a piece of Jordan with you" (agora você vai levar um pedaço da Jordânia consigo).

A execução daquele gesto era simples. Uma folha em branco, uma caneta, alguns segundos. Seu valor, porém, não estava na execução. Estava em tudo que a antecedia. A hospitalidade. A conversa. A caminhada. A cidade. A língua. A história. A pessoa que havia desenhado aquelas letras.
Naquele instante fizemos uma última fotografia.
Hoje gosto dela porque registra o momento em que compreendi que Hussein não desenhava apenas dinheiro. Desenhava aquilo sociedade reconhece como valor.