Diversidade, intuição e agilidade: os equilíbrios por trás de EQVLIBRIWM II
Para transformar uma fase íntima de Anitta em um filme de 35 minutos, a Ginga Pictures precisou equilibrar diferentes visões artísticas, pouco tempo e mais de 200 pessoas — sem perder a sensibilidade no caminho.

Antes das críticas, dos comentários nas redes ou dos números de audiência, Felipe Britto recebeu a avaliação que mais o marcou sobre os visuais de EQUILIBRIVM II. Larissa ligou.
“Ela ligou agradecendo, super emocionada pelo trabalho, por a gente ter conseguido transcrever tudo o que ela queria passar e tudo o que ela sentia”, conta o sócio-fundador da Ginga Pictures, produtora responsável pelo audiovisual do novo trabalho de Anitta.
Larissa, não Anitta.
A escolha do nome aparece algumas vezes enquanto Britto e Melanie Chapaval, também da Ginga, contam como os 35 minutos de EQUILIBRIVM II saíram da cabeça da cantora e da diretora criativa Nídia Aranha até chegar à tela.
Não parece casual. O álbum nasceu de um processo pessoal de autoconhecimento iniciado alguns anos antes e transformou em música temas como fé, espiritualidade, cura e a tentativa de encontrar algum equilíbrio entre corpo e mente.
A Ginga acompanha Anitta há cerca de uma década e, nesse tempo, precisou traduzir diferentes versões da artista em imagens. A produtora esteve, por exemplo, em Funk Rave, que levou o prêmio de Best Latin no VMA de 2023.
Desta vez, porém, havia algo diferente para traduzir.
“Tem um lado muito autoral dela, de pessoa também, que traz essas questões da pessoa física, da Larissa”, diz Britto.
E transformar algo tão pessoal em uma obra feita por centenas de pessoas cria um problema interessante: como fazer uma ideia atravessar tantas cabeças sem se perder no caminho?
EQUILIBRIVM II muda de linguagem o tempo todo. Há dança e atuação. Há sequências que funcionam como videoclipes, outras que se aproximam de um curta-metragem. Há animação, cultura popular, referências às religiões de matriz africana e aos povos originários.
Sensibilidade também pode ser coletiva.
O álbum já parte dessa mistura. Nídia o descreve como uma “gira”, em que cada faixa ativa uma energia diferente. Nos visuais, a proposta era trabalhar a cultura, o folclore e a mitologia brasileiros não como elementos decorativos, mas como signos carregados de significado e memória.
Fazer tudo parecer parte da mesma obra exigiu encontrar vários equilíbrios antes que EQUILIBRIVM II chegasse ao público. E rápido.
“Normalmente temos trabalhos que demoram cinco meses de desenvolvimento, criação e pré-produção”, diz Britto. “Fizemos esse trabalho todo em 20 dias.”
ANTES DA AGILIDADE, VEM O REPERTÓRIO
Velocidade, nesse caso, não começou no set. Chapaval acredita que o projeto só conseguiu avançar dessa forma porque boa parte da tradução já havia sido construída nos anos anteriores.
“Se fosse alguém que não tivesse esse afinamento, esse alinhamento com ela de antes, teria demorado muito mais para conseguir traduzir o que ela estava pensando e tirar do papel”, afirma.
Conhecer uma artista também significa aprender como ela toma decisões.
Britto diz que, ao longo de uma década, a equipe aprendeu a confiar em algo particularmente difícil de colocar em cronogramas ou planilhas: intuição.
“Respeitamos muito o conhecimento dela com o público e, antes de tudo, a intuição dela do que vai funcionar e não vai funcionar. Às vezes eu nem concordo, mas, se tem a intuição dela de que vai dar certo, vamos nessa.”

Isso não significa apenas obedecer a um briefing. Em alguns trabalhos, ele conta, Anitta chega a detalhar cenas e cortes. Em outros momentos, a ideia vem em muitos áudios, referências e conversas que precisam ser transformados em decisões concretas.
Em EQUILIBRIVM II, havia ainda uma segunda visão artística com bastante força.
QUANDO DUAS VISÕES PRECISAM VIRAR UMA
Nídia Aranha não chegou ao projeto apenas para organizar visualmente ideias de Anitta. Artista visual, diretora de arte e pesquisadora em antropologia visual, ela desenvolve trabalhos que atravessam corpo e tecnologia e o design crítico e especulativo. Sua própria produção artística investiga futuros possíveis a partir de questões de gênero, transformação corporal e ciência.
É um repertório curioso para um álbum profundamente interessado em ancestralidade.
Em EQUILIBRIVM II, passado e futuro não aparecem necessariamente como opostos. Há tecnologias contemporâneas de produção convivendo com memória, fé e símbolos anteriores a elas. Há uma artista de projeção global olhando para referências profundamente brasileiras.
E há, no centro do processo, duas criadoras com visões fortes.
Britto diz que Anitta e Nídia são parecidas na intensidade criativa, mas chegam ao trabalho trazendo repertórios diferentes.
“Obviamente que a Nídia tem suas referências, tem seus caminhos, que são muito valiosos. E a Anitta também tem o lado dela de conhecimento do público, do que o público espera”, afirma.
Para ele, a junção das duas elevou a ambição do projeto.
“Só enriqueceu, só deu mais força para tudo isso. Se a gente tinha a Anitta que já estava num nível aqui com as criações dela, a gente triplicou esse nível com a entrada da Nídia.”
Ter mais de uma boa ideia, porém, não torna necessariamente uma produção mais fácil.
“Obviamente que, para a gente, é mais complicado ter que lidar com dois artistas do que com um artista”, brinca Britto. “Mas é nossa função também saber lidar com isso e conseguir executar tudo.”
A produção aparece, então, menos como uma linha de montagem que recebe uma ideia pronta e mais como um ponto de conexão.
Não era necessário fazer Anitta e Nídia pensarem igual. Era preciso entender onde uma visão ampliava a outra e, depois, descobrir como transformar aquilo em cenário, luz, figurino, coreografia, atuação e imagem.

HÁ COISAS QUE UMA PESQUISA NÃO ENSINA
Essa mediação se torna ainda mais delicada quando as referências têm significado religioso e cultural.
Uma imagem pode parecer esteticamente correta e ainda estar errada.
“Se é sobre religiões de matriz africana, se é sobre povos originários, indígenas, a gente tinha pessoas envolvidas no processo que fazem parte disso, que vivem isso no dia a dia”, diz Britto.
Para ele, a diversidade da equipe foi fundamental para conseguir abordar tantos assuntos em pouco tempo sem levar as imagens para estereótipos ou representações estigmatizadas.
Há uma diferença entre pesquisar uma referência e reconhecê-la.
Quem vive determinada religião, cultura ou experiência pode enxergar em uma imagem algo que não aparece numa busca visual. Pode perceber que um elemento está fora de lugar, questionar uma escolha ou trazer uma referência que talvez nem tivesse entrado naquela pesquisa.
Nesse sentido, diversidade deixa de funcionar apenas como representação dentro de uma equipe. Ela vira repertório.
E, em uma produção realizada em tão pouco tempo, repertório também vira agilidade. Não é preciso começar toda discussão do zero quando existem pessoas capazes de acrescentar conhecimento, experiência e sensibilidade àquilo que está sendo construído.
Talvez uma das coisas que EQUILIBRIVM II deixe mais evidente seja justamente que sensibilidade também pode ser coletiva.
O TRABALHO INVISÍVEL DE FAZER TODO MUNDO ENXERGAR A MESMA COISA
Mais de 200 pessoas chegaram a trabalhar por dia no projeto. Na pós-produção, quatro montadores atuaram em paralelo, assim como diferentes profissionais de finalização. O problema não era apenas entregar cada pedaço. Era impedir que tantos pedaços parecessem pertencer a filmes diferentes.
Chapaval chama essa função de “trabalho invisível” da produção. “As pessoas falam muito sobre o trabalho do diretor, sobre o trabalho do diretor criativo. Mas o trabalho invisível, que é o que faz o vilarejo levantar mesmo e faz as coisas acontecerem, é esse trabalho de produção.”

É também um trabalho de comunicação.
“Quando você está com todo o time trabalhando junto, são pessoas que às vezes nunca trabalharam juntas antes”, explica. “Como você coloca todo mundo na mesma página, trabalhando junto para o mesmo objetivo?”
A pergunta se torna ainda mais importante quando a ideia original não cabe na realidade da produção.
“No mundo de produção, a gente brinca que ou você me dá tempo ou você me dá dinheiro. Sem os dois fica muito difícil”, diz Chapaval. “Nesse caso, a gente teve que equilibrar muito os dois.”
A primeira concepção não cabia no orçamento disponível. “A planilha aceita tudo”, brinca.
Foi preciso voltar à criação e encontrar outra forma de realizá-la. No primeiro EQUILIBRIVM, as locações tinham grande protagonismo. No segundo, a produção seguiu por um caminho praticamente oposto, levando boa parte do projeto para o estúdio e aumentando a responsabilidade da direção de arte.
O cuidado, diz Chapaval, era para que o resultado não tivesse aparência de uma “solução barata” adotada apenas porque a primeira ideia não podia ser realizada.
A restrição acabou produzindo outra linguagem. “Foi um trabalho muito mais dependente de intervenção do departamento de arte e de coisas criativas para conseguir entregar uma estética com personalidade”, afirma.
E o curioso é que, enquanto algumas possibilidades precisavam diminuir para caber na produção, o filme em si crescia.
A estimativa inicial era terminar com algo entre 22 e 25 minutos. Algumas sequências foram ganhando importância, a narrativa se expandiu e o corte final chegou aos 35.
E A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL?
Antes de o filme completo chegar ao público, trechos divulgados de EQUILIBRIVM II provocaram discussões sobre um possível uso de inteligência artificial em sua estética. A tecnologia foi usada.
Mas a fronteira escolhida pela equipe talvez diga mais sobre o processo do que a simples decisão entre usar ou não IA.
Ferramentas com inteligência artificial ajudaram a acelerar animações, composição de imagens, efeitos e pequenas correções que anteriormente poderiam consumir mais tempo de pós-produção.
Não foram, segundo Britto, usadas para criar as imagens centrais da obra. “Nada do que era importante, nada que tinha grande relevância, foi usado em inteligência artificial”, afirma. “A parte criativa, da parte visual que está entregue lá, zero.”
Existe uma razão que vai além de uma posição a favor ou contra a tecnologia.
“As ferramentas de criação de imagens através de inteligência artificial algumas vezes, até pelas referências, pelos bancos de dados, puxam para elementos que nem fazem parte da cultura brasileira”, explica Britto. “É difícil ter certeza de que a gente está referenciando algo certo.”
Em um trabalho no qual reconhecer uma referência podia ser tão importante quanto encontrá-la, esse limite fazia diferença. A IA poderia economizar tempo ao animar um elemento, completar uma composição ou resolver uma pequena questão técnica. Não poderia decidir se determinado signo fazia sentido naquela imagem.
Para isso, ainda era necessário alguém olhando.
“Obviamente precisa do olhar do artista, do profissional que está em cima, até para avaliação e o senso crítico em relação à imagem”, diz Britto.
É uma divisão menos simples do que “artesanal versus tecnológico”.
A questão passa a ser outra: o que pode ser acelerado sem que se acelere também aquilo que precisa de cuidado?
UM FILME DE 35 MINUTOS EM TEMPOS DE SCROLL INFINITO
Houve outro momento em que intuição pesou mais do que uma resposta aparentemente óbvia.
Quando o projeto chegou aos 35 minutos, a equipe discutiu se fazia sentido lançar todo o material de uma vez.
Fazia sentido perguntar. O mesmo público que acompanha Anitta no streaming e no YouTube também está acostumado aos estímulos rápidos do celular, aos vídeos verticais e ao scroll infinito.
Anitta, no entanto, queria que aquele universo fosse apresentado primeiro como uma obra inteira.
“Ela fez muita questão de ser um conteúdo inteiro, que contasse essa história de uma forma completa”, conta Britto.
Chapaval considera que houve coragem nessa decisão.
“Ela é uma das poucas artistas que bancaria isso por feeling.”
Depois, vieram os recortes, os clipes separados e os outros formatos capazes de circular nas plataformas. Mas o primeiro contato com aquele universo precisava respeitar a duração que a história havia encontrado — uma escolha que recupera a força narrativa dos videoclipes em um mercado dominado por conteúdos fragmentados.
Segundo Britto, os dados de audiência aos quais a produtora teve acesso mostraram uma taxa de abandono muito baixa entre quem começava a assistir ao filme.
No fim, talvez esse seja apenas mais um dos equilíbrios que fizeram o projeto existir.
Entre a Larissa e a Anitta. Entre a intuição de uma artista e o repertório de outra. Entre ancestralidade e a vontade de imaginar futuros. Entre a ambição criativa e aquilo que uma produção consegue colocar de pé. Entre ferramentas capazes de acelerar processos e pessoas capazes de entender o significado de uma imagem.
Produzir arte em escala não é apenas receber uma boa ideia e executá-la.
É fazer uma ideia passar por muitas cabeças, permitindo que cada uma acrescente algo a ela sem que deixe de ser reconhecível por quem a imaginou primeiro.
Talvez por isso a ligação de Larissa tenha sido tão importante para Britto.
Depois de atravessar Nídia, a Ginga e centenas de outras pessoas, aquilo que ela queria dizer ainda estava lá.
Só que maior.