Por que premiar projetos que especulam futuros desejáveis?

Porque faz todo sentido reconhecer e estimular aqueles que ampliam as possibilidades de criá-los

o design sempre foi uma disciplina voltada para o futuro
Créditos: issaronow/ Adobe Stock/ Adrien Olichon/ Giang Vu/ Pexels

Gisela Schulzinger 4 minutos de leitura
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Existe uma pergunta que é intrínseca ao design: como transformar uma situação existente em uma situação preferível, desejável e viável?

Projetar sempre significou transformar. Todo projeto nasce da intenção de alterar uma realidade para construir outra, considerada melhor, mais desejável. Nesse sentido, o design sempre foi uma disciplina voltada para o futuro.

Então, por que falar, agora, em design de futuros?

A resposta não está em uma mudança da essência do design. Está na mudança do mundo.

Vivemos um tempo em que as consequências das nossas decisões extrapolam os limites do próprio projeto. 

Um algoritmo influencia relações sociais. Um sistema de mobilidade redefine o acesso à cidade. Uma embalagem impacta cadeias produtivas inteiras. Uma plataforma digital altera comportamentos coletivos. Um serviço baseado em inteligência artificial pode ampliar oportunidades ou aprofundar desigualdades.

Os projetos deixaram de ser apenas soluções para problemas específicos e passaram a moldar sistemas, experiências, comportamentos e formas de viver. 

Nesse contexto, o design amplia seu papel: além de solucionar problemas, passa a tornar visíveis possibilidades futuras, orientar decisões no presente e contribuir para a construção de transformações no futuro.

Isso trouxe uma nova camada de responsabilidade. 

Por muito tempo, aprendemos a reconhecer um bom projeto por sua funcionalidade, estética, inovação, usabilidade, viabilidade econômica ou capacidade de gerar valor para organizações e pessoas. Esses critérios continuam fundamentais, mas já não são suficientes.

O contexto contemporâneo nos obriga a fazer novas perguntas: que comportamentos este projeto incentiva? Que sistemas ele fortalece? Que impactos produzirá agora e daqui a 10 ou 20 anos? Que possibilidades amplia? Quais restringe? Que futuros ajuda a tornar mais prováveis?

Por muito tempo tratamos o futuro como um destino, mas os estudos de futuros propõem uma mudança importante de perspectiva.

O futuro não é um lugar para onde caminhamos passiva e linearmente. Não existe um único futuro esperando para ser descoberto. Existe um conjunto de possibilidades que se amplia ou se reduz a partir das decisões que tomamos hoje.

É justamente nesse ponto que o design encontra uma afinidade natural com o pensamento de futuros.

A tecnologia amplia nossa capacidade de fazer, mas decidir para onde queremos ir continua sendo uma escolha humana.

Sempre projetamos transformações. A diferença é que, agora, somos chamados a imaginar e refletir, de forma consciente e deliberada, sobre as consequências sistêmicas dessas transformações. Até porque não existe neutralidade quando projetamos sistemas que influenciam a vida das pessoas e a existência do nosso planeta.

Essa é a missão do design de futuros: não prever o amanhã, mas ampliar a qualidade das escolhas que fazemos hoje.

Ao incorporar abordagens que aproximam design, pensamento sistêmico e estudos de futuros, passamos a entender melhor os sistemas, reconhecer sinais emergentes, explorar cenários alternativos, testar hipóteses, imaginar possibilidades ainda não evidentes e fortalecer a capacidade de organizações, governos e comunidades anteciparem mudanças e tomarem decisões em contextos de alta incerteza.

Esse papel é ainda mais relevante em um momento no qual a inteligência artificial acelera exponencialmente nossa capacidade de produzir. 

Se produzir respostas ficou mais fácil, o diferencial humano passa a estar cada vez menos na execução e cada vez mais na capacidade de formular perguntas, interpretar contextos complexos, conectar conhecimentos e construir visões compartilhadas de futuro.

Prêmio Brasileiro de Design 2026

A tecnologia amplia nossa capacidade de fazer, mas decidir para onde queremos ir continua sendo uma escolha humana.

Foi a partir dessa compreensão que a Associação Brasileira das Empresas de Design (Abedesign) criou a categoria Design de Futuros no Prêmio Brasileiro de Design (BDA).

A categoria representa o reconhecimento de que a excelência do design brasileiro acompanha a evolução dos desafios contemporâneos e que imaginar, antecipar e especular futuros desejáveis faz parte do papel do design no século 21. 

Mais do que celebrar resultados, propõe reconhecer aqueles que utilizam o design não apenas para responder aos desafios do presente, mas para tornar visíveis possibilidades, acelerar transições, provocar novas perguntas, especular novas oportunidades e inspirar novos caminhos para organizações, comunidades e para a sociedade.

Por isso que lançar essa categoria durante o Brasil Futures Fórum faz tanto sentido: reafirma a convicção de que o Brasil, pela diversidade cultural, criatividade, capacidade de inovação, tradição em design e representatividade em temas como sustentabilidade, regeneração e impacto positivo, tem condições singulares para exercer protagonismo na construção de futuros desejáveis. 

Afinal, o futuro não é um lugar que iremos encontrar, mas algo que começamos a projetar e construir com uma escolha de cada vez e em cada novo projeto.


SOBRE A AUTORA

Gisela Schulzinger é presidente da Associação Brasileira de Empresas de Design (Abedesign). saiba mais