5 perguntas com João Bortone, diretor geral da Intel para a América Latina

Executivo fala sobre a próxima fase da inteligência artificial, o avanço dos AI PCs, o desafio energético dos data centers e as oportunidades para a América Latina

João Bortone, diretor geral da Intel para a América Latina, diante de elementos gráficos azuis.
Foto: Divulgação/ Intel

Camila de Lira 5 minutos de leitura
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A inteligência artificial já passou da fase em que empresas precisavam ser convencidas de que a tecnologia poderia transformar seus negócios. Agora, o desafio é outro: descobrir onde ela realmente gera valor — e construir a infraestrutura necessária para colocá-la em escala.

Para João Bortone, diretor geral da Intel para a América Latina, isso significa também repensar onde o processamento acontece. Em vez de depender exclusivamente da nuvem, a próxima etapa da IA deve ser mais distribuída, funcionando também em computadores pessoais, dispositivos de borda e data centers.

Bortone assumiu o comando da operação latino-americana da Intel em maio deste ano, retornando à empresa onde havia trabalhado a partir de 2005. O executivo tem mais de 25 anos de experiência no setor de tecnologia e, antes de voltar à companhia, liderava o Grupo de Soluções de Infraestrutura da Lenovo na América Latina.

Nesta edição do 5 Perguntas, ele fala sobre como transformar IA em produtividade, o impacto dos AI PCs, o aumento da demanda energética provocado pela tecnologia e os desafios específicos da América Latina.

FC Brasil - Como líder de uma empresa que está no centro da revolução da inteligência artificial, qual é a principal oportunidade que você enxerga para o Brasil e para a América Latina nos próximos anos?

João Bortone - A maior oportunidade para o Brasil e para a América Latina é transformar inteligência artificial em crescimento real. A tecnologia já saiu do campo da experimentação. O próximo passo é aplicá-la a problemas concretos de negócio, com impacto mensurável em produtividade, eficiência e competitividade.

O Brasil tem escala, talento e setores com alto potencial de adoção, como finanças, varejo, indústria, agronegócio, educação e saúde. Para capturar esse valor, a IA precisa estar onde o dado nasce: no PC, na borda, no data center ou na nuvem.

A IA só terá escala quando estiver perto dos dados, dos usuários e dos desafios reais da economia.

FC Brasil - Você defende que a inteligência artificial precisa sair da nuvem e operar também diretamente nos dispositivos. Como essa mudança pode transformar a forma como pessoas e empresas utilizam a tecnologia no dia a dia?

João Bortone - A próxima fase da IA não será apenas na nuvem. Ela será híbrida, distribuída e cada vez mais presente nos dispositivos que usamos todos os dias. Isso muda a experiência do usuário e abre novas possibilidades para as empresas.

A IA só terá escala quando estiver perto dos dados, dos usuários e dos desafios reais da economia.

Quando a IA roda localmente, ela pode ser mais rápida, mais privada e menos dependente de conectividade. Os AI PCs tornam essa mudança tangível: levam automação, colaboração e tomada de decisão inteligente para o fluxo de trabalho diário, não apenas para grandes projetos centralizados.

Democratizar a IA significa colocá-la nas mãos das pessoas, nos processos das empresas e nas decisões do dia a dia. É aí que a tecnologia deixa de ser promessa e passa a gerar valor.

FC Brasil - O processamento de IA em larga escala exige uma quantidade enorme de energia. Como aumentar a capacidade computacional sem fazer explodir os custos operacionais — e as metas de sustentabilidade?

João Bortone - Na era da IA, vencerá quem conseguir escalar computação com eficiência. A demanda por processamento vai crescer, mas as empresas não podem responder apenas adicionando mais infraestrutura. Elas precisam equilibrar desempenho, custo e sustentabilidade.

A Intel trabalha essa equação do dispositivo ao data center. Nos PCs, NPUs ajudam a executar tarefas de IA com menor consumo de energia. Na borda e nos AI PCs, o processamento acontece mais perto dos dados, reduzindo o tráfego para a nuvem e aumentando o controle sobre informações sensíveis.

Nos data centers, processadores Intel Xeon de nova geração ajudam a modernizar ambientes com mais desempenho por watt. O futuro da IA não será definido apenas por quem tem mais capacidade computacional, mas por quem consegue usá-la com mais inteligência econômica e responsabilidade ambiental.

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FC Brasil - A América Latina reúne países com níveis muito diferentes de maturidade digital e infraestrutura. Como evitar que essas diferenças desacelerem a adoção de novas tecnologias?

João Bortone - A diversidade da América Latina não deve ser vista como obstáculo, mas como ponto de partida para inovação. Cada país e cada setor têm ritmos diferentes de maturidade digital. Justamente por isso, a região precisa de soluções flexíveis, escaláveis e conectadas à sua realidade.

O futuro da IA não será definido apenas por quem tem mais capacidade computacional, mas por quem consegue usá-la com mais inteligência econômica e responsabilidade ambiental.

Em alguns mercados, a prioridade será modernizar PCs e servidores. Em outros, será aplicar IA diretamente a processos críticos. A computação distribuída, combinando nuvem, data center, edge e dispositivos, permite avançar respeitando desafios locais de escala, custo, infraestrutura e talento.

O papel da Intel é conectar escala global às necessidades locais, junto com fabricantes, canais, integradores, desenvolvedores e clientes. Na América Latina, a oportunidade está em transformar limitações estruturais em modelos de inovação mais ágeis, distribuídos e orientados a impacto.

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FC Brasil - Você já liderou negócios em diferentes empresas e mercados. O que continua igual na maneira de liderar, mesmo quando a tecnologia e o cenário econômico mudam?

João Bortone - O princípio que permanece constante é simples: começar pelo cliente e pelo problema de negócio. Tecnologias mudam, ciclos econômicos mudam, mercados mudam. Mas liderança exige clareza para escolher prioridades e transformar estratégia em execução.

Também acredito que nenhuma transformação relevante acontece de forma isolada. Ela depende de ecossistemas fortes, parceiros alinhados e equipes capazes de colaborar com foco e velocidade.

Na Intel, essa visão é essencial. A IA só terá impacto se resolver desafios reais de produtividade, infraestrutura, segurança e competitividade. Liderar é criar clareza, alinhar prioridades e garantir que inovação se traduza em valor concreto para clientes, parceiros e para a região.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é é editora chefe da Fast Company, jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata). saiba mais