“O SP2B não pretende ser o SXSW brasileiro”, diz Rafael Lazarini

Com mais de 2 mil palestrantes, 750 painéis e 20 palcos, festival estreia no Ibirapuera com o desafio de transformar escala em conexões que sobrevivam ao evento

Rafael Lazarini, idealizador do festival SP2B, diante de fundo gráfico colorido.
Crédito: SP2B

Camila de Lira 5 minutos de leitura
Favoritar no Google

O SP2B entra nesta segunda-feira (10) em seu segundo dia de programação com uma escala difícil de ignorar: são mais de 2 mil palestrantes, 750 painéis, cerca de mil horas de conteúdo e mais de 20 palcos distribuídos pelo Parque Ibirapuera.

A abertura, no domingo (9), foi exclusiva para portadores da credencial Platinum e contou com uma palestra da psicoterapeuta e autora Esther Perel.

Ao longo de oito dias, a organização espera receber mais de 700 mil visitantes. A projeção inclui o público das atividades fechadas e a circulação pelas atrações abertas e gratuitas realizadas nos diferentes espaços do parque.

Os números ajudam a dimensionar o festival, mas não explicam o que Rafael Lazarini pretende construir. Para o idealizador do SP2B, o principal desafio não é provar que São Paulo consegue receber um evento desse tamanho. É fazer com que toda essa estrutura produza uma experiência própria e não apenas reproduza o modelo de um festival estrangeiro.

“O SP2B não pretende ser o SXSW brasileiro nem a versão local de qualquer festival internacional”, afirma Lazarini. “Aprendemos com os melhores eventos do mundo, mas estamos desenvolvendo uma plataforma com linguagem, propósito e identidade próprios.”

Alice Braga e Esther Perel conversam no palco durante a abertura do SP2B, no Parque Ibirapuera.
Alice Braga e Esther Perel participaram da abertura do SP2B, realizada no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Foto: Divulgação/SP2B

DO SXSW A UM EVENTO PRÓPRIO

A comparação acompanha o projeto desde o início. O SP2B nasceu depois que uma tentativa de trazer uma franquia do South by Southwest para São Paulo não avançou. Como a Fast Company Brasil mostrou durante o anúncio do festival, o grupo decidiu desenvolver um evento conectado às características e contradições da cidade.

“Não dá para fazer ‘copia e cola’ em São Paulo”, diz Lazarini. “A cidade é complexa, diversa, intensa e tem uma dinâmica muito particular.”

Ao lado dele, o grupo de idealizadores reúne Hugh Forrest, Luiz Gustavo Pacete, Tracy Mann, Zé Ricardo e Bernardo Zamijovsky. Forrest esteve por 35 anos ligado ao SXSW e hoje integra a gestão e a curadoria do SP2B. Pacete participa da curadoria das áreas de tecnologia, marketing e inovação. As experiências do grupo ajudaram a construir uma programação que aproxima empresas e universidades, capital financeiro e indústria criativa, grandes corporações e pequenos empreendedores.

Leia também: “Sem confiança entre humanos, a IA refletirá nossos piores instintos”, diz Yuval Harari a líderes em SP

Segundo Lazarini, a curadoria não começou por uma lista de tendências ou setores que precisavam aparecer no festival.

O SP2B não foi criado para ser consumido. Foi criado para ser vivido.

“A curadoria não começou pelos temas, mas pelos grandes desafios que estão redefinindo a vida, o trabalho, as empresas e a sociedade”, afirma.

Por isso, inteligência artificial, saúde mental, cidades, clima, criatividade, longevidade e futuro do trabalho aparecem lado a lado — e, muitas vezes, dentro de uma mesma conversa.

“A inovação acontece justamente quando repertórios e conhecimentos que normalmente estão separados se encontram”, diz.

AMPLA PROGRAMAÇÃO

A escala que permite esses encontros também cria um problema prático: com 750 painéis, ninguém conseguirá acompanhar toda a programação.

Link: O futuro que o mundo busca tem sotaque brasileiro

Em um único dia, o público pode precisar escolher entre debates sobre computação quântica, inteligência artificial, segurança pública, crise climática, economia criativa, saúde e novas formas de trabalho.

A agenda de tecnologia, por exemplo, reúne empresas como Google, Nvidia, Gupy, Itaú, Red Hat e Accenture em conversas que vão da infraestrutura necessária para desenvolver IA no Brasil às profissões transformadas pela automação.

Para Lazarini, tentar cumprir toda a agenda seria a maneira errada de atravessar o festival.

“O SP2B não deve ser vivido como uma lista de tarefas”, afirma. “Cada pessoa precisa construir sua própria jornada de acordo com seus interesses, objetivos e curiosidades.”

A programação foi dividida entre espaços, trilhas e formatos, e o aplicativo permite selecionar atividades e montar uma agenda própria. Ainda assim, Lazarini defende que parte da experiência permaneça aberta ao acaso: a conversa encontrada no caminho, o painel escolhido na última hora ou a pessoa que não estava nos planos encontrar.

“O SP2B não foi criado para ser consumido. Foi criado para ser vivido”, afirma.

O TAMANHO NÃO SERÁ A ÚNICA MEDIDA DE SUCESSO

Público, repercussão e negócios gerados serão os indicadores mais imediatos da estreia. Lazarini afirma, porém, que esses números não serão suficientes para avaliar se o evento deu certo.

Para ele, o resultado também dependerá da capacidade de aproximar grupos que compartilham desafios, mas ainda conversam pouco entre si. Isso passa por conectar universidades e empresas, indústria criativa e setor financeiro, grandes companhias e pequenos empreendedores, projetos de impacto e investidores.

“Queremos que as pessoas saiam do evento com novas ideias, relações e possibilidades concretas”, diz. “Que empresas encontrem parceiros, empreendedores acessem oportunidades, investidores descubram projetos e pessoas de universos diferentes passem a conversar.”

A ocupação do Ibirapuera adiciona outra dimensão a esse desafio. O SP2B combina credenciais pagas com atividades gratuitas, realizadas dentro de um dos espaços públicos mais simbólicos da cidade.

No sábado (15), a programação do emPower será dedicada a microempreendedores, lideranças comunitárias e talentos periféricos. O encerramento, no domingo (16), terá shows e outras atividades culturais abertas ao público.

A primeira edição também servirá como teste. A organização pretende observar como as pessoas circulam pelo parque, quais formatos funcionam e quais comunidades continuam ativas depois do evento. O planejamento de 2027 já começou, mas será influenciado pelo que acontecer ao longo desta semana.

Para Lazarini, essa continuidade será a principal medida do tamanho real do festival.

“O evento não pode terminar quando a última atividade acaba”, afirma. “Ele precisa continuar vivo nas relações e nas iniciativas criadas a partir dele.”

O SP2B segue até 16 de agosto, no Parque Ibirapuera. A programação completa e as modalidades de acesso estão disponíveis no site oficial.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é é editora chefe da Fast Company, jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata). saiba mais