O ego é quem manda na sua agência
Planilha que circula pela internet revela o que a maioria das agências de publicidade nunca deixa aparecer numa pesquisa de clima interno

Se você é publicitário ou trabalha na área, sabe do que estou falando. Uma planilha colaborativa botou no papel, semana passada (assim como no ano passado), o que a maioria das agências nunca deixou aparecer numa pesquisa de clima.
São mais de seis mil relatos de gente que trabalha ou trabalhou em publicidade no Brasil. Aparece chefia despreparada lidando com favoritismo e nepotismo na promoção, cliente empurrando prazo impossível para dentro do time, entre outras situações polêmicas.
Contrato PJ no lugar de CLT achata o salário e os escritórios seguem sem estrutura para receber todo mundo de volta ao presencial.
O documento circulou rápido e emplacou pedido de desculpa de quem foi citado. Dentro de duas semanas, a tendência é esfriar.
Fui publicitário nos anos 80 e 90, quando essas histórias corriam de boca em boca dentro do prédio. Vi chefe gritando em reunião de criação e agência comemorando prêmio de festival na mesma semana em que demitiu metade do time. Para mim, isso é repetição pura, quatro décadas rodando em círculo.
Outros setores fizeram suas próprias viradas nos últimos anos: compliance chegando onde não chegava, gente sendo chamada para prestar conta do próprio comportamento. Quase a totalidade do mercado publicitário escapou desse movimento, honrosas exceções (muito poucas) à parte.
Prêmio que nasce de trabalho bem feito chega sem ninguém correr atrás.
Eu vejo outra coisa nesse material. Seis mil pessoas escreveram ali sem filtro e sem ninguém calibrando o tom para parecer equilibrado. Material bruto revela sempre a mesma coisa: o que alguém produz sem triagem mostra o padrão que opera antes de qualquer decisão consciente.
A planilha fez isso com um setor inteiro de uma vez, documentando em escala coletiva. Ninguém com poder de decisão parece disposto a olhar isso de frente.
Entre os pontos levantados, um pesa mais que os outros para mim: o foco em prêmio e reconhecimento externo citado ao lado do descaso com quem trabalha.
Um Leão em festival alimenta antes de tudo o ego de quem sobe no palco para recebê-lo. A vaidade de ir uma vez por ano a Cannes e posar para foto com o troféu vira o motor real da operação, enquanto o time em casa escreve depois, na planilha, o preço que pagou por uma viagem que não é dele.

Uma agência organizada em torno do festival tem um cliente interno que nenhum briefing menciona. Esse cliente não assina contrato nem aparece no organograma. Ele decide o prazo. Escolhe quem é sacrificado para o case existir. Enquanto ninguém dá nome a esse cliente, ele segue no comando.
Prêmio que nasce de trabalho bem feito chega sem ninguém correr atrás – um reconhecimento depois do fato. Essa ordem se inverte assim que uma agência inteira passa a criar em função do próximo Leão. Numa agência, o prêmio ocupa o lugar que devia ser da pergunta sobre para quem se cria e o que se está tentando dizer.
Praticamente todo item listado na planilha, do nepotismo à chefia abusiva, tem a mesma raiz. Alguém no comando nunca observou o próprio padrão de atenção, o medo específico que dispara quando o prêmio ou o cliente grande está em jogo.
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Essa mesma pessoa cobra do time um rigor que ninguém teve com ela quando ainda era estagiária. Ego sem exame se transforma em estrutura e, mais adiante, vira a frase “nossa cultura” pendurada na parede da recepção.
A planilha sai de cena em duas semanas ou menos, se o próximo escândalo vier antes. Mas o padrão que ela revelou não segue esse calendário. Continua rodando sem crachá, comandando prazo e prêmio enquanto quem devia se perguntar por que aquilo se repete há tanto tempo prefere comemorar o próximo troféu.
Essa conversa cabe dentro do próprio mercado, entre quem dirige agência e quem finge que não viu o nome do colega na planilha. Vem antes de qualquer nota de esclarecimento, preparada às pressas pelo time de RP, tentar encerrar o assunto.
Quem se reconheceu em alguma linha desse documento, tem uma pergunta só para responder: o que sua agência tolera hoje, que o head (haja head…), sorrindo no palco pelo próximo troféu, fingiria não saber.