A marca chamada “Matéria Fecal” que conquistou Zendaya e Lady Gaga
Criada como uma crítica aos excessos da indústria da moda, a Matières Fécales transformou sua estética alienígena em peças disputadas nos principais tapetes vermelhos

O nome da marca por trás de alguns dos momentos mais impactantes da moda recente não é tão delicado quanto seus looks românticos e de outro mundo. Quando perguntaram o que uma etérea Zendaya vestia na estreia de A Odisseia, em Nova York, seu stylist, Law Roach, respondeu: “Fecal Matter”.
O vestido angelical sem alças de Zendaya, com asas de penas brancas, era uma criação da Matières Fécales — sim, a tradução literal da marca é “matéria fecal”. Fundada em Montreal há mais de uma década e hoje sediada em Paris, a grife de luxo parece estar em todos os tapetes vermelhos.
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POR QUE A MATIÈRES FÉCALES TEM ESSE NOME
A dupla de designers por trás da Matières Fécales, Steven Raj Bhaskaran e Hannah Rose Dalton, busca subverter os padrões de beleza com um estilo pessoal de aparência alienígena, que inclui maquiagem branca dramática, cabeça e sobrancelhas raspadas e botas que imitam pele, feitas para parecer pés realistas.
Bhaskaran e Dalton criaram a marca quando eram estudantes do Collège LaSalle Montréal. Começaram vendendo peças na plataforma de artigos de segunda mão Depop e chegaram a apresentar coleções na Paris Fashion Week.
Os designers afirmam que o nome reflete a visão que têm da indústria da moda: uma perspectiva que, de início, resumiam com uma palavra mais vulgar.
“Não há outra palavra para isso, mas como poderíamos dizê-la de um jeito glamouroso? Então pensamos: ‘fecal matter’ é o termo científico”, relembrou Dalton à Vogue no ano passado.
Ela acrescentou que a dupla traduziu a expressão para o francês, língua em que “soa muito mais glamourosa”. Em março, Bhaskaran disse ao podcast Fashion Neurosis que o nome também pretendia “questionar o lado perdulário da moda”.
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Um representante da Matières Fécales informou que os designers não estavam disponíveis para comentar. Apesar do nome visceral, formadores de opinião que vão de Lady Gaga a Kylie Jenner aderiram às criações da marca.
“Há uma bela tensão no trabalho deles entre o refinamento e a deterioração, entre a força e a suavidade”, disse o stylist de celebridades Brad Goreski à Associated Press.
Depois de anos conquistando um público fiel, a dupla passou a contar com o apoio da Dover Street Market em 2024, após conhecer o presidente da empresa, Adrian Joffe, nos bastidores de um show de Madonna.
A rede global de lojas e espaços conceituais oferece apoio ao desenvolvimento de marcas emergentes, da produção e distribuição às vendas. Kristen Bateman, jornalista especializada em moda e cultura que acompanhou os três desfiles dos designers na Paris Fashion Week, afirma que a ascensão da dupla é impulsionada pelo desejo da indústria de ver algo novo.
“Quando olhamos para grifes de alta-costura como Chanel e Dior, tudo começa meio que a se misturar”, disse. “E isso parece pertencer a uma categoria própria. É impossível reproduzir.”
DO STATUS CULT À PARIS FASHION WEEK
Milan Tanedjikov, professor de design do Collège LaSalle Montréal, acompanhou de perto a ascensão de Dalton e Bhaskaran e afirma que eles finalmente encontraram o equilíbrio entre arte e moda.
“Juntos, eles criaram uma espécie de organismo muito interessante”, disse.
No ano passado, os designers foram convidados a integrar o calendário oficial da Paris Fashion Week, onde estrearam “The Other”, coleção que descreveram como uma ode à coragem de expressar a própria identidade.
O trabalho incluiu uma colaboração que combinava o marcante salto curvo criado pela dupla com a icônica sola vermelha de Christian Louboutin.
“Em essência, o que os move é a liberdade absoluta de expressão, e eles querem ampliar os limites do que é humano.”
Em março, durante a Paris Fashion Week, a dupla apresentou “The One Percent”, com modelos desfilando teatralmente com tinta vermelha sobre luvas brancas de ópera e usando máscaras feitas de notas de dólar. A coleção mostrava como “o poder afeta a todos nós”, escreveram os designers no Instagram.
“O que eles conseguiram construir em tão pouco tempo é realmente insano em termos de criação de universo e de desenvolvimento de um mundo próprio”, disse Augustin Maunier, diretor de desenvolvimento de marcas da Dover Street Market. “Existe uma narrativa de verdade por trás disso.”
O tema do desfile contrastava fortemente com os bilionários que ocupavam a primeira fila de outras apresentações da semana de moda. No Met Gala deste ano, que teve Jeff Bezos como presidente honorário, a atriz Sarah Paulson vestiu um volumoso vestido de gala cinza e desgastado da coleção, combinado com a máscara de dinheiro que cobria os olhos.
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Goreski selecionou peças de The One Percent para o guarda-roupa de Demi Moore como integrante do júri do Festival de Cannes. Ele disse à AP que queria algo novo para a atriz.
O volumoso vestido de gala rosa-Barbie de Moore, com acabamento desfiado e um laço de aparência desgastada, fugia dos looks estruturados que ela costuma usar. Goreski, que veste Moore há 20 anos, afirmou que ela quase nunca escolhe um modelo “cupcake”, com saia ampla, mas se encantou com a visão artística e a narrativa dos designers.

“Eles criam roupas para si mesmos”, disse. “Isso é autenticamente deles, mas eles estão levando essa proposta a um público completamente diferente.”
AS ROUPAS DA MARCA ESTÃO EM LADY GAGA — E ATÉ EM UM COMERCIAL DA DUNKIN’
Entre os primeiros apoiadores da marca estavam, muito apropriadamente, artistas conhecidos por romper barreiras, como Madonna e Lady Gaga.
Madonna chegou a convidar a dupla para atuar como DJ em sua turnê de 2023, e os designers criaram looks sob medida para shows de Gaga, incluindo no Coachella.

No Grammy deste ano, Gaga usou um vestido preto de gola alta coberto de penas, criado pelos designers — um anjo sombrio em contraste com o visual celestial de Zendaya.
Agora, porém, as criações ousadas da marca estão indo além dos tapetes vermelhos. Em um comercial de televisão da Dunkin’, Kylie Jenner usou um blazer estruturado de cetim rosa-claro, com ombreiras exageradas — uma escolha que gerou certa diversão nas redes entre aqueles que até então desconheciam o nome da marca.
Os designers também criaram um vestido de estilo vitoriano e aparência desgastada para o casamento da modelo Gabbriette com o músico Matty Healy, o primeiro vestido de noiva da marca.

Com o próximo desfile da dupla na Paris Fashion Week marcado para setembro, os conhecedores de moda aguardam ansiosamente o que virá a seguir.
“Estamos torcendo por eles porque são designers mais jovens que têm algo a dizer”, afirmou o comentarista de moda Hanan Besovic, que publica conteúdo online como @Ideservecouture.