Um novo relatório da Amazon revela que a empresa bloqueou 10 bilhões de tentativas de anúncios falsos em 2020 – foram 6 bilhões no ano anterior – e destruiu 2 milhões de mercadorias falsificadas em seus depósitos.

Pesquisadores estimam que quase US$ 1 trilhão em produtos falsificados inundam a economia global. Eles dizem que a maioria dos produtos falsificados na Amazon não são bolsas de marca, mas sim produtos básicos do dia a dia, como o sabonete da Dove, a fórmula Similac e as garrafas Hydro Flask. Esses produtos parecem idênticos aos fabricados pela marca, mas são feitos de materiais mais baratos e não regulamentados. Os itens falsificados podem fazer mal aos consumidores: um menino de 4 anos teve que remover partes do cólon e dos intestinos ao engolir ímãs de um brinquedo falsificado da Magformers.

Então, quem está perdendo tempo criando versões falsas de produtos relativamente baratos? Robert Handfield, professor da Universidade Estadual da Carolina do Norte que estudou o problema de falsificação na Amazon, diz que existe toda uma economia clandestina dedicada a criar todos os produtos de consumo imagináveis. Isso inclui tudo, do sabão em pó ao tênis de corrida, que eventualmente acabam nos marketplaces, como a Amazon (há também falsificadores que fazem peças de aeronaves e vacinas contra a COVID-19, e colocam esses itens à venda em outros sites clandestinos).

A internet mudou o jogo para a indústria das mercadorias falsificadas. No passado, havia canais para as pessoas comprarem produtos de luxo falsos, como lojas piratas na Canal Street, em Nova York. Mas agora os falsificadores têm acesso aos consumidores norte-americanos na Amazon e aos consumidores chineses no Alibaba. “Em qualquer lugar onde seja possível ganhar US$ 1 vendendo algo em grande volume na internet, você será capaz de encontrar falsificação”, diz Handfield.

Cerca de 80% das falsificações que entram nos Estados Unidos saem da China e de Hong Kong, de acordo com a análise de Handfield de relatórios da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA sobre produtos falsos apreendidos na fronteira. O professor ressalta que isso faz sentido porque a região é um polo fabril, logo, as pessoas têm acesso tanto aos equipamentos quanto ao conhecimento sobre como fazer bens de consumo. “Alguém que trabalha em uma fábrica legítima pode abrir seu próprio negócio fazendo falsificações”, explica. “Eles vão fazer uma cópia, às vezes usando materiais mais baratos, e vendê-la nos mesmos canais.”

POR QUE É TÃO FÁCIL VENDER PRODUTOS FALSOS?

Quando você faz uma busca por produtos na Amazon, a maioria não é vendida por ela, mas por vendedores de terceiros. Historicamente, a empresa não tem policiado cuidadosamente a autenticidade dos produtos vendidos por esses comerciantes. “A Amazon não faz auditorias de distribuidores que afirmam estar vendendo produtos originais”, conta Handfield. “Ela tem confiado em empresas e consumidores para denunciarem produtos falsificados e derrubar o vendedor. Mas isso só vai fazer com que eles apareçam em outro lugar.”

Algumas marcas têm pressionado contra a Amazon por não enfrentar o problema da falsificação de forma mais agressiva. Em 2016, o CEO da Birkenstock deu o passo dramático de retirar produtos da plataforma, alegando que ela não estava disposta a ajudar a marca a identificar e combater aqueles que fazem versões falsas de seus calçados. Em 2019, a Nike disse que também deixaria de vender produtos diretamente na Amazon, em parte por causa da proliferação de falsificações no site. Ambas as marcas se recusaram a comentar se reconsiderariam a parceria com a empresa – agora que ela está reforçando suas medidas anti falsificação.

A Amazon está levando a falsificação mais a sério. Em 2019, anunciou uma iniciativa chamada Project Zero, dedicada ao corte de todas as falsificações da plataforma. Isso envolveu a implantação de uma nova tecnologia de aprendizado de máquina que faz uma detecção automática e remove suspeitas de anúncios falsos; mas a empresa não forneceu muitos detalhes sobre como esses sistemas funcionam. As marcas também poderiam se candidatar para fazer parte de um programa que lhes permitiria sinalizar diretamente e remover anúncios falsos da plataforma por conta própria. No passado, teriam que apresentar um pedido à empresa, o que levaria tempo para avaliar a reivindicação e removê-la.

Em junho do ano passado, a Amazon criou uma Unidade de Crimes de Falsificação composta por ex-promotores federais e analistas de dados para enfrentar o problema. No relatório da semana passada, a empresa disse que gastou um total de mais de US$ 700 milhões e contratou mais de 10 mil pessoas para proteger o site de fraudes.

Quando entramos em contato, um porta-voz explicou que a Amazon está trabalhando para encontrar um equilíbrio entre criar oportunidades de negócios para pessoas físicas, enquanto reduz fraudes. “Vender no marketplace da Amazon abre um mundo de oportunidades para os empreendedores”, disse um porta-voz. “Nós facilitamos as vendas para os empreendedores e dificultamos para os maus agentes.”
O porta-voz também defendeu que o novo conjunto de ferramentas vem dando resultado. “Usamos ferramentas líderes do setor para verificar as identidades dos potenciais vendedores e nossos sistemas analisam centenas de pontos de dados exclusivos para verificar as informações fornecidas por eles”, disse ele. “Em 2020, apenas 6% das tentativas de registro de contas de novos vendedores passaram em nosso robusto processo de verificações e produtos anunciados. Como resultado, menos de 0,01% de todos os produtos vendidos na Amazon receberam uma reclamação de falsificação de clientes.”

COMO SE PROTEGER

Mas pode ser tarde demais, considerando a vastidão do problema, diz Handfield. Muitos consumidores e marcas perderam a confiança na plataforma. “A Amazon vem se esquivando desse problema há anos”, afirma. “É uma porta de entrada para muitos falsificadores e o volume do problema é surpreendente.”

Não está claro exatamente quantas falsificações permanecem no marketplace da Amazon, apesar dessas medidas. Portanto, Handfield diz que é importante permanecer cauteloso ao comprar na plataforma. Existem alguns sinais óbvios de que um produto é falso, incluindo erros de grafia na descrição do produto e fotos borradas. Mas muitos falsificadores criam anúncios e embalagens de produtos com aparência profissional. Para ter certeza de que você não está sendo enganado, é necessário verificar o número de série de um produto e ligar para a marca para ter certeza de que é real.

Para muitos consumidores, ligar para as marcas para verificar se cada lata de leite em pó para bebês ou cada frasco de sabão em pó é autêntico é muito trabalhoso. Nesse caso, pode ser mais fácil comprar produtos em uma mercearia ou um varejista online como o Grove Collaborative ou Thrive Market que não tem um mercado de terceiros. “Acho que você deve ter muito cuidado ao comprar na Amazon”, diz Handfield. “As falsificações são uma parte importante da economia e esses produtos estão bem debaixo de nossos narizes em muitos casos.”

SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, é repórter sênior da Fast Company. Ela vive em Cambridge, Massachusetts.