O produto natural mais traficado no mundo não é marfim ou chifre de rinoceronte, mas o jacarandá, árvore à beira da extinção. A crescente demanda por móveis na China tem provocado devastação nas florestas de lugares como Madagascar. Mas e se um material idêntico pudesse ser impresso em 3D a partir de resíduos de madeira?

Dois anos atrás, os pioneiros na indústria de impressão 3D começaram a explorar novos materiais. “Percebemos muito rapidamente que resíduos de madeira são um material que pode ser transformado para impressão 3D”, diz Virginia San Fratello, presidente do departamento de design da San Jose State University e uma das fundadoras da Forust, startup que está sendo lançada como parte da Desktop Metal, grande empresa de impressão 3D. O novo processo pode imprimir madeira com um grão que imita qualquer tipo de árvore, de freixo a mogno.

A tecnologia utiliza dois subprodutos da indústria madeireira. “Uma árvore é feita de lignina e celulose”, diz Ric Fulop, CEO da Desktop Metal. “Quando você faz coisas com árvores, sejam móveis ou papel, você está essencialmente desmaterializando a árvore. O que estamos tentando fazer é juntar tudo de novo.” O processo espalha finas camadas de serragem e injeta um aglutinante atóxico (que inclui lignina, a parte da madeira natural que ajuda a mantê-la unida) para recriar o grão da madeira camada por camada.

Ao contrário do painel aglomerado ou laminado, aqui o grão atravessa totalmente o material, podendo ser lixado e repintado como madeira. Um produto como uma cadeira ou um pote também pode ser impresso em sua forma final, sem desperdício. Além disso, é possível imprimir formas detalhadas com facilidade. “Podemos fazer geometrias incrivelmente complexas que um artesão provavelmente levaria semanas ou um mês”, conta San Fratello. “Esse tipo de complexidade é grátis com a manufatura aditiva.” Com o tempo, designers podem usar o processo para fazer materiais que vão além das qualidades da madeira natural – uma guitarra ou um alto-falante, por exemplo, podem parecer madeira, mas têm características no grão que ajudam a melhorar o som do produto.

A cada ano, estima-se que 15 bilhões de árvores sejam cortadas (e, ao mesmo tempo, empresas e países gastam bilhões para tentar proteger as florestas). Apenas parte dessa madeira é cortada de forma sustentável. E muitas partes de cada árvore cortada ainda acabam no lixo. Há uma grande quantidade de serragem e lignina necessária para a madeira impressa em 3D. “Eles pagam para você pegar. Isso vai para o aterro. Centenas de milhões de toneladas de resíduos são geradas todos os anos apenas nos Estados Unidos”, comenta Fulop.  O processo também poderia fazer uso de pequenos galhos que não seriam usados na fabricação de madeira, mas que precisam ser removidos de florestas em lugares como a Califórnia para ajudar a prevenir incêndios florestais.

A empresa planeja trabalhar com empresas e designers para fazer móveis, detalhes arquitetônicos e produtos domésticos (mas não, diz Fulop, algo como madeira serrada dois por quatro); e já está trabalhando com o Fuseproject de Yves Behar em sua primeira coleção. O custo do produto final compete com o da madeira e, com designs complexos ou grandes, pode ser mais barato. Ele pode ser produzido rapidamente em grande escala, mas a empresa prevê que um dos benefícios seja o fato de que pode ser impresso localmente sob demanda, para que os produtos não tenham que ser enviados para lugares muito distantes.

Se um produto eventualmente quebrar ou se desgastar, ele provavelmente poderá ser triturado e reimpresso em algo novo. Para empresas que buscam circularidade, como a Ikea, pode ser uma forma de mudar a forma como os móveis são feitos. “Esta é a primeira vez que existe  um processo circular para a fabricação de madeira”, afirma Fulop.

SOBRE A AUTORA

Adele Peters é repórter da Fast Company que cobre soluções para alguns dos maiores problemas do mundo, de mudanças climáticas à falta de moradia. Anteriormente, ela trabalhou com a GOOD, BioLite e o programa de Produtos e Soluções Sustentáveis na UC Berkeley, e contribuiu para a segunda edição do livro best-seller Worldchanging: A User’s Guide for the 21st Century.