POR ROBERTO DE LIRA

O antropólogo Jack Weatherford comenta, em seu best seller “A História do Dinheiro” (1997), que empréstimos e outros tipos de serviços financeiros parecem existir desde que existe o dinheiro. Na época da publicação, o autor já preconizava o início da terceira etapa da história monetária, com a introdução do dinheiro eletrônico e da moeda virtual. Mas não dava naquele momento para prever a velocidade da transformação nas décadas seguintes.

Os últimos cinco anos, por exemplo, trouxeram uma revolução da relação das pessoas com o dinheiro. As fintechs, que surgiram um pouco antes como alternativa aos bancos tradicionais, só fizeram crescer num ambiente de digitalização acelerada das práticas cotidianas e de buscas por maneiras menos burocráticas, mais ágeis e, por consequência, mais baratas de intermediação. 

A plataforma de inovação aberta Distrito mapeou nada menos que 1.016 fintechs nacionais em operação em seu relatório de março de 2021. Desde 2015, quando foram contadas 435 dessas startups, o número de novas empresas passa de uma centena por ano.

Para Gustavo Gierun, fundador da Distrito, o ambiente para as fintechs nacionais tem sido favorecido pelo incentivo à inovação promovido por órgãos reguladores como Banco Central (BC), pelo já citado comportamento do consumidor na direção da digitalização – o mobile banking explodiu após as limitações físicas impostas pela pandemia de Covid-19 – e pelo apetite dos investidores. 

É natural, portanto, a pergunta se o fôlego continuará nos anos à frente e quais tendências podem se fortalecer. As condições não apontam para uma estagnação. Pelo contrário. A consultoria global Juniper Research listou num webinar em fevereiro 10 tendências para 2021 e os anos seguintes

Com a ajuda de especialistas e algumas adaptações, a Fast Company Brasil agrupou as apostas em cinco tendências: open banking, pagamentos instantâneos, integração digital, marketplace financeiro e crédito para pequenas e médias empresas:

Open Banking – O sistema financeiro aberto é uma iniciativa que parte do princípio de que os clientes são proprietários de seus dados e que devem poder escolher compartilhá-los com terceiros. O compartilhamento poderá se dar a partir de diferentes plataformas e não apenas pelo aplicativo ou site do banco. No Brasil, a primeira fase começou em fevereiro e a transição deverá ser concluída em dezembro. Naturalmente, esse ambiente abre possibilidades para as fintechs.

“Vai significar muito para o consumidor final, vai trazer competitividade. O Gorila (plataforma de consolidação de investimentos) já está trabalhando assim.” (Leonardo Teixeira, sócio da Iporanga Ventures)

“Vai trazer uma experiência mais fluida nos pagamentos e transferências.” (Gustavo Gierun, fundador da Distrito)

“Quem circular no ambiente dos grandes bancos, no crossborder, encontrará um espaço gigantesco. E tem um arcabouço de tecnologia no open banking que ainda não foi ocupado.” (Marcelo Sato, sócio da Astella Investimentos)

Pagamentos instantâneos – A pandemia de Covid-19 mostrou a urgência da disseminação desse tipo de pagamento, especialmente por meio do mobile banking, seja usando chaves, mecanismos de aproximação ou QR Codes. Essa modalidade, além de promover a inclusão financeira, alavanca a competitividade e a eficiência do mercado e ajuda a baixar o custo dos meios de pagamento. No Brasil, o BC lançou o Pix no final de 2020 e já somava mais de 181 milhões de chaves ativas no final de fevereiro.

 “Há oportunidade em transferências de recursos P2P, por meio do Pix ou de outros mecanismos.” (Gustavo Gierun, fundador da Distrito)

“Desde que o Pix foi lançado, temos visto os usuários muito mais engajados e enxergado novas oportunidades, como oferecer a possibilidade de pagamentos para comerciantes.” (Anderson Chamon, Fundador e Vice-Presidente de Produtos e Tecnologia do PicPay)

“Muita gente no Brasil nem tem acesso a uma agência bancária. Em cidades pequenas, só existem agências lotéricas. E os TEDs têm custo alto. O Pix reduz isso.” (Daniel Mazini, diretor de Produtos da Neon)

Integração digital – O chamado ‘onboarding’ é um momento crucial do início da relação entre o usuário e o serviço contratado. Quanto mais amigável, rápida e segura se mostrar essa interação, maior a chance de a experiência do consumidor em sua jornada acabar gerando fidelidade. A oportunidade surge tanto para as fintechs com um ou mais serviços financeiros próprios como para as que estiverem focadas no backoffice de outras empresas em áreas que necessitam de agilidade.

“Identificamos o potencial do cadastro de cibersegurança. As fintechs já utilizam bem os meios digitais para evitar fraudes. Usam reconhecimento facial, por exemplo, além de segurança por cruzamento de dados. Isso em microssegundos.” (Gustavo Gierun, fundador da Distrito)

“A autenticação e a assinatura digital é algo que vai auxiliar até no relacionamento. É um dos caminhos para crescer com o Pix.” (Marcelo Sato, sócio da Astella Investimentos)

‘O Brasil tem muitas áreas com problemas que podem ser endereçados pela tecnologia, como a saúde e o agronegócio.” (Leonardo Teixeira, sócio da Iporanga Ventures)

“Hoje vamos muito além dos serviços financeiros, porque temos a tecnologia como espinha dorsal e integramos entre todas essas frentes de negócios, aliadas a um DNA social e de inovação. Queremos ser o app mais relevante no dia a dia dos nossos usuários.” (Anderson Chamon, Fundador e Vice-Presidente de Produtos e Tecnologia do PicPay)

Marketplace financeiro – O conceito do ‘one stop shop’ não é nada novo. Historiadores e escolas de administração identificam que nos anos 1920s, varejistas norte-americanos já propagandeavam as vantagens de se encontrar tudo o que era preciso num mesmo lugar. Natural então que startups tentem se tornar “lojas de conveniência” financeiras ou que varejistas tradicionais incorporem fintechs em seus portfólios.

“Empresas como Uber e Rappi introduziram serviços financeiros e isso foi bom para a cadeia de valor porque a parte financeira tem um profit muito grande. Vejo bem a agregação de cadeia, com novas fintechs que consigam nascer dentro de um site de serviços. Dá para escalar mais fácil com um modelo híbrido.”  (Marcelo Sato, sócio da Astella Investimentos)

“Nosso objetivo, e é o que estamos construindo, é ir além dos serviços financeiros e oferecer tudo o que nossos usuários precisam em um só lugar. Fazemos isso por meio das verticais de negócio: carteira digital, marketplace financeiro, PicPay Store e Social. Em breve, queremos entrar também em advertising.” (Anderson Chamon, Fundador e Vice-Presidente de Produtos e Tecnologia do PicPay)

“Vemos como tendência os serviços financeiros integrados com outras categorias, como empresas de e-commerce, logística, marketing e tecnologia, por exemplo.” (Gustavo Gierun, fundador da Distrito) 

“Buscamos um modelo de relacionamento de longo prazo, como o ‘one stop shop’. Estamos estudando a oferta de seguros prestamistas, para reservas de emergência, seguro de vida e funeral. Com pequenos pagamentos mensais, nosso cliente protegerá seu negócio, por exemplo.” (Daniel Mazini, diretor de Produtos da Neon)

“Temos feito a conexão de clientes com gerentes e especialistas na jornada de contratação online de produtos e assessoria. Essas soluções exemplificam nosso comprometimento com uma experiência omnichannel para sermos o banco que está onde o cliente está.” (comunicado do Itaú)

Crédito para pequenas e médias – O Relatório de Economia Bancária de 2019 do BC mostrou que os cinco maiores bancos brasileiros concentravam na época 83,7% das operações de crédito no país. Embora no ano o saldo da carteira de empréstimos para microempresas tivesse avançado 35,2% ante 2018, o de pequenas tivesse crescido 13,7%, problemas antigos de acesso e custo permanecem. O campo é fértil e amplo para fintechs que atuam nesse segmento. Quase 15% das atuais 1.016 startups financeira estão nessa área, incluindo unicórnios como Creditas, Stone, PagSeguro e Nubank.

“A bancarização desse segmento é um nicho grande. Temos cerca de 10 milhões de MEIs no Brasil, que são estatisticamente mal servidas pelos bancos tradicionais.” (Leonardo Teixeira, sócio da Iporanga Ventures)

“O MEI enfrenta muita burocracia. Chamamos eles aqui dentro de ‘hero entrepreneur” porque muitos deles trabalham no cada a cara e tiveram um baque na pandemia. Estudamos sempre como dar crédito para eles, especialmente os que não tem nem conta em bancos.” (Daniel Mazini, diretor de Produtos da Neon)

“O crédito vem se transformando de maneira brutal. Vemos oportunidades no para pequenas e médias empresas, com market places de crédito e antecipação de recebíveis.” (Gustavo Gierun, fundador da Distrito)

SOBRE O AUTOR

Roberto de Lira é jornalista e colaborador da Fast Company Brasil