A exaustão que vem das notícias trágicas

Não é só você. Acompanhar as notícias é difícil, e as notificações não ajudam

Crédito: Alex Motoc/ Brian McGowan/ Nijwam Swargiary/ Ricardo Gomez Angel/ Unsplash

Rebecca Rozelle-Stone 4 minutos de leitura

Quando Vladimir Putin iniciou a invasão à Ucrânia, no dia 24 de fevereiro de 2022, imagens da guerra foram amplamente transmitidas a espectadores apreensivos em todo o mundo. Muitos de nós tomamos conhecimento do conflito através da cobertura da mídia, com cenas de explosões e de pessoas correndo e se abrigando em bunkers subterrâneos.

Seis meses depois, a violência continua. Mas, para aqueles que não foram diretamente afetados, a guerra e as mortes estão cada vez menos presentes. E esse afastamento faz sentido.

Manter-se informado durante eventos trágicos, como uma guerra, é algo bastante doloroso e difícil. 

Além disso, desde a invasão à Ucrânia, ocorreram muitos outros episódios que dividiram a atenção do mundo, como secas, incêndios florestais e tiroteios em escolas.

Com o tempo, as pessoas tendem a evitar abordar ou procurar saber mais sobre esses temas, já que que causam sobrecarga, angústia ou perdem a relevância diante de outras questões urgentes. Esse fenômeno é chamado de “fadiga da crise”.

Protestos são uma forma de manter viva a lembrança da guerra na Ucrânia (Crédito: Ehimetalor Akhere Unuabona/ Unsplash)

A FONTE DA FADIGA DA CRISE

Personagens controversos e autoritários como Putin estão cientes da exaustão pública e a usam em seu favor. “A fadiga da guerra está começando a atingir as pessoas e a Rússia está contando com isso. Não podemos cair nessa armadilha”, afirmou a primeira-ministra da Estônia, Kaja Kallas.

Em um discurso para profissionais de marketing em Cannes, na França, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, pediu que continuassem a manter o mundo informado e focado na situação do país. “Serei honesto: o fim desta guerra depende da atenção do mundo”, disse ele. “Não permitam que o tema seja esquecido!”

Infelizmente, muitos já perderam o interesse. O trágico tornou-se banal.

Passei a me interessar pelo fenômeno da fadiga quando realizava uma pesquisa acadêmica sobre atenção moral, conceito criado por Simone Weil, filósofa e ativista social francesa do século 20.

Simone Weil em foto de 1936, durante a Guerra Civil Espanhola (Crédito: Apic/ GettyImages)

Atenção moral é a capacidade de nos abrirmos totalmente – intelectual, emocional e até fisicamente – para as realidades que encontramos. Simone a descreveu como um estado de vigilância, uma suspensão de nossas estruturas guiadas pelo ego e desejos pessoais em busca de um esvaziamento mental semelhante ao do budismo. Essa mentali- dade encara a realidade crua e sem filtro: tudo é apresentado de forma direta e sem projeção.

Mas isso pode causar efeitos negativos. Por um lado, a atenção faz com que as pessoas entrem em contato com a realidade dos outros, para que sejam realmente vistos e ouvidos. Por outro, pode sobrecarregá-las com tantos traumas indiretos.

No entanto, a dificuldade de manter-se focado em eventos trágicos, como uma guerra, não se deve apenas à fragilidade inerente da atenção moral. O excesso de notícias é um dos principais elementos que disputam a atenção, bem como os smartphones e outras tecnologias, cujos modelos de comunicação nos mantém perpetuamente distraídos e desorientados.

TRILHANDO UM NOVO CAMINHO

Como podemos resgatar nossa atenção e agir de forma significativa em meio a tantas notícias desconexas e trágicas? Estudiosos sugerem uma variedade de maneiras, geralmente focadas em controlar o uso de dispositivos.

O volume de informações gera um efeito inesperado: as pessoas estão deixando de lado o noticiário (Crédito: @thisisengineering/ Unsplash)

Além disso, leitores e jornalistas podem considerar o seguinte:

1 . Limitar a produção diária de notícias, o que ajuda as pessoas a se concentrar em questões específicas sem se sentirem sobrecarregadas. Segundo o teórico cultural Yves Citton, a mídia atual cria um estado de “alerta permanente” por meio de “discursos de crise, imagens de catástrofes, escândalos políticos e notícias violentas”. Ler artigos e ensaios longos é uma prática que pode contribuir para manter o foco.

2 . Priorizar histórias sobre soluções, demonstrando a possibilidade de mudança. Essa forma de jornalismo também oferece aos leitores caminhos e ações, para que não se sintam paralisados diante da tragédia. A ex-jornalista da revista “Time” Amanda Ripley observa que “histórias que nos dão esperança, maior senso de controle e dignidade são fundamentais agora, porque estamos sobrecarregados com o oposto”.

Simone Weil, que estava comprometida com a responsabilidade da atenção moral, mas não romantizou a tragédia, escreveu: “nada é tão bonito e maravilhoso, tão continuamente revigorante e surpreendente, tão cheio de encanto quanto o bem”.


SOBRE A AUTORA

Rebecca Rozelle-Stone é professora de filosofia na Universidade de Dakota do Norte. saiba mais