Ciência, arte, tecnologia: estaríamos vivendo uma nova Renascença?

Em seu novo livro, o designer gráfico Bruce Mau diz que os problemas atuais podem ser resolvidos por "equipes renascentistas"

Crédito: Massive Change Network

Elissaveta M. Brandon 6 minutos de leitura

Em 1418, a cidade de Florença realizou um concurso para construir uma cúpula sobre sua catedral. A cúpula octogonal de Filippo Brunelleschi fez história como a primeira a ser construída sem uma estrutura de suporte temporária. Ela continua sendo a maior cúpula de tijolo e argamassa do mundo até hoje.

Brunelleschi, no entanto, não era arquiteto ou construtor, mas sim ourives. Ele também escrevia poesia, construía cenários para peças teatrais e criou experimentos ópticos e geométricos inovadores que levaram ao desenvolvimento da perspectiva linear. Aos 39 anos, ele inaugurou sua própria escola, onde ensinava álgebra, geometria e arte.

A Renascença foi um período de intenso cruzamento de áreas do conhecimento no qual artistas como Brunelleschi trabalhavam como engenheiros e vice-versa. Outros, como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Leon Battista Alberti, uniram pintura, arquitetura, música, anatomia, engenharia, astronomia e muito mais, resultando em um fluxo dinâmico de atividades intelectuais, artísticas e literárias.

Agora, um novo livro ressalta que uma mentalidade semelhante pode ser bastante útil hoje. “The Nexus: Augmented Thinking for a Complex World–The New Convergence of Art, Technology, and Science” (O Nexo: Pensamento Ampliado para um Mundo Complexo – A Nova Convergência de Arte, Tecnologia e Ciência) argumenta que os problemas complexos de nossa geração só podem ser resolvidos se a arte, a tecnologia e a ciência convergirem como fizeram durante a Renascença.

Bruce Mau (Crédito: Massive Change Network)

O livro foi escrito por Julio Mario Ottino, pesquisador científico e artista, e Bruce Mau, um célebre designer gráfico cujo vasto portfólio inclui um redesenho da cidade sagrada de Meca, um rebranding da Guatemala e a criação da Massive Change Network, uma consultoria de design que ele fundou em 2010 com sua esposa, Bisi Williams.

Nesta entrevista, Mau fala sobre como nasceu a ideia do The Nexus, como as empresas e organizações modernas podem promover o pensamento interdisciplinar e a importância do design nesse processo.

No título, está faltando a palavra design. Seria porque design é uma interseção de arte, tecnologia e ciência?

Pois é, o projeto, para mim, começou mesmo quando encontrei esta maravilhosa revista [trans | formation], editada por Harry Holtzman na década de 1950.Ele escreve que “a transformação comprova que arte, ciência e tecnologia são componentes do empreendimento humano. Mas hoje são tratadas com muita frequência como se fossem isoladas e mutuamente antagônicas”. Isso deu início às nossas primeiras conversas e percebemos que o design é, na verdade, a prática do dia a dia que reúne esses mundos.

A palavra design, ou o que ela representa, existia durante a Renascença?

Na Renascença, era comum ser multidimensional, em parte porque os próprios domínios eram pouco dimensionados. Hoje, a perspectiva de dominar mais de um campo não é plausível. Mesmo dominar apenas um é incrivelmente desafiador. Durante quase toda a nossa história, não sabíamos que existiam outros planetas no universo, e agora conhecemos milhares deles.

Arte, ciência e tecnologia são componentes do empreendimento humano, mas hoje são tratadas como se fossem isoladas e antagônicas.

Mas, de forma extremamente rápida, sobretudo a partir da Revolução Industrial, esses [domínios] começaram a se distanciar uns dos outros e passaram a adotar uma linguagem cada vez mais específica e exclusiva, resultando em um afastamento daqueles que não estão familiarizados. Você tem que ser qualificado e treinado na linguagem e nos jargões utilizados, além de ter conhecimento específico.

Os problemas que temos não são de tecnologia, tampouco de ciência, são [problemas como] mudanças climáticas. E eles não serão resolvidos por elas. Vamos precisar de arte, de emoção para entender como tocar as pessoas e inspirá-las a mudar. Isso virá com o nexo. Surgirá de pessoas capazes de trabalhar nessa interseção, e essa interseção é o design.

Você escreve sobre Florença ter sido a personificação do nexo na época. O que fez de Florença um lugar tão perfeito para todas essas mentes convergirem?

Em parte, era uma cultura de liderança e competição. Havia uma competição muito intensa entre as cidades. Naquela época, se você fosse um vidraceiro em Murano e tentasse se mudar, cortavam suas mãos. Não queriam que você ensinasse seu ofício a outra pessoa, então, dominar um conhecimento e mudar de cidade era visto como um crime sujeito a penas terríveis.

O mecenato da época foi todo pensado para gerar excelência, competição e, sobretudo, superar as demais cidades. Logo, queriam os melhores cientistas, artistas e engenheiros morando na cidade para competir com as outras. No caso de Florença, havia a família Médici. Eles tinham um compromisso incrível com arte, cultura e ciência.

Isso é o que uma cultura de nexo produz. É como se você decidisse entrar na área de tecnologia, por exemplo, e fosse morar em São Francisco para estar perto do Vale do Silício, onde ficam os melhores especialistas do mundo. Você não encontra isso em qualquer lugar.

Crédito: Massive Change Network

O livro apresenta detalhadamente os benefícios do “nexo”, mas qual é a sua visão de como chegaremos lá?

Acredito que a educação é fundamental. Ajudar as pessoas a entender o que é o nexo é um passo importante. E dar a elas uma visão do que pode surgir a partir disso.

Trabalhei com Julio para ajudar a criar o whole-brain engineering na Universidade Northwestern (traduzido como “engenharia do cérebro por completo”, integra o pensamento do lado esquerdo do cérebro – análise, lógica, síntese e matemática – com o do lado direito, que lida com a intuição, o pensamento metafórico e a resolução criativa de problemas). Quando me mudei para Chicago, ele me ofereceu uma bolsa na Northwestern e eu relutei: “Julio, não entendo nada de engenharia”. Mas ele respondeu: “Você não precisa ser como a gente. Nós é que precisamos ser como você.”

Para ser bem-sucedido em qualquer área, é preciso combinar o lado esquerdo e o direito do cérebro, ou seja, uma mente nexo.

Ele disse: “Se eu pedisse a um engenheiro para construir uma ponte, a pergunta que ele faria seria ‘de que tamanho?’. Eficiência é o foco de qualquer engenheiro. Ao passo que, se eu lhe pedir para fazer uma ponte, você perguntaria ‘por que você quer uma ponte? Talvez um barco seja melhor. Talvez não devêssemos construir uma ponte’”.

Precisamos da pergunta “por que” na nossa área. Precisamos dar um passo atrás e nos perguntar: por que estamos fazendo isso? Uma vez que começa a pensar assim, você chega a um equilíbrio entre análise e criatividade. Para ser bem-sucedido em qualquer área hoje, é preciso ambas, temos que combinar o lado esquerdo e o direito do cérebro, ou seja, uma mente nexo.

Como definiria o estado das coisas hoje? Estamos caminhando para uma Renascença 2.0?

Mais pessoas estão envolvidas no nexo do que nunca. Mais pessoas têm acesso a ele do que em qualquer outro momento da história. Isso nos permite fazer coisas que seriam inimagináveis durante a maior parte da existência humana.

Basta tomar como exemplo o início da pandemia de Covid-19. Em poucas semanas já havia mais de cem equipes de todo o mundo [trabalhando em vacinas]. Cientistas, tecnólogos, designers, comunicadores, marcas, investidores, todos enfrentaram o desafio e tentaram resolvê-lo; e vários conseguiram.

Esse é o mundo de hoje, e acho realmente espantoso que não saibamos sobre [o potencial do nexo] e que não entendamos o quão importante é.

Esta entrevista foi editada para maior clareza e concisão.


SOBRE A AUTORA

Elissaveta Brandon é colaboradora da Fast Company. saiba mais