Com formato sugestivo, estádio da Copa vira brinquedo sexual

A brincadeira, na verdade, é uma forma de denúncia, dos gastos excessivos à corrupção e às mortes na construção do estádio Al Janoub

Crédito: FIFA/ Divulgação

Nate Berg 3 minutos de leitura

Uma homenagem muito peculiar acaba de ser concedida a um dos estádios projetados para a Copa do Mundo de 2022, que está acontecendo agora no Qatar. As formas do Al Janoub, projetado pela arquiteta Zaha Hadid, em Doha, foram reproduzidas em silicone na mais nova versão de um dispositivo chamado Fleshlight, um brinquedo sexual.

Um coletivo de designers ativistas chamado Congress for Urban Malfeasance (Congresso de Malfeitorias Urbanas, em tradução livre) criou essa premiação irônica para fazer “homenagens” nada respeitosas “aos exemplos mais marcantes de promiscuidade financeira do mundo arquitetônico e urbano”.

Juntamente com outros dois estádios esportivos localizados nos Estados Unidos, o de Doha foi ganhador deste prêmio às avessas por causa de seu alto custo, além da corrupção e dos abusos aos direitos humanos durante sua construção.

“Nossos vencedores se saíram tão bem que agora podem levar seu prêmio de inspiração arquitetônica para o banho… e aproveitar seu interior feito com silicone de alta qualidade”, brinca Shan Raoufi, um dos membros do coletivo cujo acrônimo, CUM, é um trocadilho com o verbo “gozar” em inglês.

Com sede em Nova York, a empresa de arquitetura e design de Raoufi, chamada Wolfgang & Hite, lançou esse prêmio irônico em 2019, com um conjunto de vibradores no formato das torres do Hudson Yards de Nova York – projeto imobiliário que recebeu grande financiamento público. “O principal foco de nossa crítica é o uso de verbas públicas para enriquecer pessoas que não precisam desse dinheiro”, ele explica.

A edição de 2022 do prêmio organizada pelo coletivo e seus troféus em formato de brinquedos sexuais nos dão uma visão global da corrupção e falta de ética no financiamento de grandes projetos imobiliários.

Os outros dois estádios premiados são o Buffalo Bills, que recebeu US$ 850 milhões em financiamento público do estado de Nova York, e o SoFi Stadium, em Los Angeles, que recebeu US$ 100 milhões em incentivos fiscais.

De acordo com o coletivo, esses três estádios “se destacam pela corrupção, pelos gastos excessivos, pelos altos custos e pelo número de trabalhadores mortos”.

Crédito: David Ramos/ Getty Images

Raoufi afirma que, dentre todos, o estádio de Doha é o que representa a pior combinação desses problemas. Quando os primeiros esboços do Al Janoub, projetado por Zaha Hadid, foram divulgados, ele se tornou uma piada imediata: era difícil deixar de notar e de comentar que, visto de cima, o estádio parecia uma vagina.

Desde então, essa piada com a semelhança anatômica do estádio foi perdendo a graça devido à realidade da preparação do Qatar para sediar a Copa do Mundo, que exigiu a construção rápida de diversas obras de infraestrutura urbana.

Trabalhadores migrantes compunham grande parte da força de trabalho dessas obras, e muitos trabalhavam em condições que grupos de direitos humanos consideraram análogas à escravidão. Estima-se que 6,5 mil morreram construindo projetos relacionados à Copa do Mundo – um número que muitos acreditam ser subnotificado.

Trabalhadores no canteiro de obras do estádio Al Janoub, em 2018 (Crédito: Karim Jaafar/ AFP/ Getty Images)

Os prêmios do CUM são uma tentativa de manter essas mortes na memória das pessoas que estão assistindo à Copa do Mundo.“Tem havido muitas críticas ao Qatar e às práticas trabalhistas, mas não parece haver nenhuma reação real. Parece que ninguém tem coragem o suficiente para agir diante da própria preocupação”, critica Raoufi.

“O mundo inteiro está horrorizado com essas práticas e, no entanto, continuamos todos assistindo a esse espetáculo esportivo em que somos viciados. Ninguém desistiu. A marca de todos os patrocinadores está estampada em tudo. Onde está nossa consciência? Onde está nossa bússola moral?”


SOBRE O AUTOR

Nate Berg é jornalista e cobre cidades, planejamento urbano e arquitetura. saiba mais