Como seria um computador controlado diretamente pelo cérebro?

Crédito:  PM Images/ GettyImage

Mark Wilson 5 minutos de leitura

Imagine poder controlar seu iPhone com a mente. Como isso funcionaria na prática? Emoções tristes puxariam automaticamente clipes de animais fofos do YouTube? Você conseguiria usar a força do pensamento para mover o cursor ou apertar botões? Será que daria para digitar mensagens de texto apenas pensando nas palavras? Se sim, como faríamos para parar de pensar em palavras impróprias, que não queremos realmente enviar? 

Estas são algumas das perguntas feitas e respondidas em uma nova série de vídeos conceituais que projetam um dia na vida em um futuro no qual existe uma interface cérebro-computador. Estamos à beira de conceber chips capazes de ler pedaços consideráveis ​​do pensamento humano. Empresas como Meta e Snap já financiaram pesquisas nessa indústria, que, estima-se, alcançará US$ 3,3 bilhões até 2026.

Assim como os designers precisaram criar no passado smartphones touchscreen que entendessem o movimento da ponta dos dedos para aumentar ou diminuir o que está sendo exibido (conhecido, em inglês, como pinch-to-zoom), agora precisarão criar novas interfaces para organizar nossos pensamentos confusos.

Os conceitos vistos aqui foram criados pela Card79, empresa de design da região da baía de São Francisco, na Califórnia. A Card79 já havida ajudado a projetar um lóbulo de orelha e um robô cirúrgico para o Neuralink, laboratório de brain-computer interface (BCI, ou interface computador-mente) de Elon Musk.

“Lembro de estar em uma reunião [no Neuralink]. Eles tinham três brocas na sala e perguntaram: ‘com qual tamanho você estaria disposto a perfurar sua cabeça?'”, lembra Afshin Mehin, fundador da Card79. “Quanto mais vemos essas coisas, mais elas tendem a se normalizar. Sendo mais expostos a esse tipo de ideia, acho que estamos nos tornando mais familiarizados com o que ela seria capaz de realizar”, analisa.

Créditos: Card79/ Divulgação

Ou seja, Mehin está animado com o futuro do BCI, mas também razoavelmente ansioso – e essa ambivalência aparece nos filmes que a Card79 criou como seu próprio projeto de especificação. Muitos vídeos com conceitos de futuro apresentam uma utopia, um mundo em que tudo funciona graças a uma nova tecnologia mágica. Mas essa série de vídeos não é nada disso.

Eles imaginam o que aconteceria neste ano de 2022 se um dispositivo de leitura cerebral usado na orelha realmente chegasse ao mercado. A sensação é mais com a de estarmos assistindo a um dos primeiros usuários se virando para usar um novo smartphone do que um filme de ficção científica de Hollywood, no qual todos temos fios saindo de nossos cérebros.

No vídeo principal, incorporado mais acima, o protagonista está se acostumando ao novo dispositivo de leitura cerebral, que age como Siri ou Alexa, só que dentro da sua mente. Às vezes, ele oferece superpoderes. Apenas com o pensamento, o usuário pode pedir ao seu computador para lembrar uma passagem inspiradora que leu na noite passada.

Quando se senta para trabalhar, o dispositivo gera um modelo 3D em segundos, pensando em cada botão e ajuste necessários em uma sequência de edição rápida. 

Mas, em outro momento, o telefone começa a enviar notificações para seu cérebro. Em vez de aparecerem apenas na tela, elas inundam sua mente, como uma onda de anúncios que ele não consegue parar (até que grite mentalmente para que sejam silenciados).

O vídeo deixa claro que, para que as interfaces cerebrais realmente cheguem, precisamos de padrões de consumo muito melhores do que estes com os quais estamos acostumados em nossos telefones.

A maioria das interfaces que aparecem no vídeo é igual a qualquer outra interface falada, só que estão na cabeça do usuário. Essa ideia vem de pesquisas reais que examinam as capacidades dos sistemas BCI. Os pesquisadores estão começando a ler as palavras que as pessoas dizem em suas mentes, mesmo que aquilo que consideramos pensamento seja muito mais rico do que nosso monólogo interior.

E se não quisermos conversar? Outra modalidade rica dentro do BCI poderia ser pensar cinestesicamente e imaginar movimentos físicos que o computador é capaz de ler. Claro, treinar o cérebro para se comunicar através de ações físicas imaginadas é uma ideia fascinante. Por isso, a Card79 pensa em um aplicativo de acompanhamento que faria você imaginar sua mão desenhando letras do alfabeto. Essa ideia também é baseada em pesquisas em andamento. 

Em alguns de seus conceitos mais avançados, os profissionais da Card79 imaginam que a cinestésica pode ser uma via de mão dupla, permitindo que alguém baixe uma nova fonte de caligrafia, ou a sequência de movimentos necessária para embrulhar um presente, e instantaneamente tenha essa nova habilidade transmitida pelo cérebro para as mãos.

A lógica lembra como o personagem Neo aprendeu kung fu em “Matrix”. Mas, sem as roupas de couro preto e os óculos escuros, essa possibilidade nos parece muito mais prática (e mundana).

Em mais um vídeo, a Card79 faz a grande pergunta: como você faria para manter seus pensamentos privados ao enviar mensagens para outra pessoa? Quando solicitado a manter um anúncio de casamento em segredo, nosso protagonista decide salvar essa informação em uma pasta trancada. Assim, quando um amigo curioso pergunta sobre o noivado, uma notificação pop-up aparece na tela avisando-o para manter o segredo, mas também oferecendo a opção de compartilhá-lo, se preferir. 

Claro, tudo ainda isso soa muito assustador. É como se um computador, de repente, estivesse no caminho de cada pensamento e impulso que tenho. Mehin não está fingindo que sua empresa descobriu como o sistema e os comandos por pensamento deveriam funcionar. Apenas acredita que essas provocações iniciarão as conversas necessárias para que, se e quando desenvolvermos uma tecnologia madura de leitura da mente, o design esteja pronto para nos proteger e manter nossa alegria, racionalidade e senso de identidade.

“É sempre perigoso seguir esse caminho, porque a verdadeira oportunidade, por enquanto, é beneficiar pacientes com paralisia corporal completa. Isso vai, potencialmente, mudar todo o estilo de vida deles”, explica Mehin. “Incentivar esse trabalho e promovê-lo para esse grupo de pessoas é super importante, mas é difícil dizer até onde isso pode chegar mais para frente.”


SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos. saiba mais