Designer cria bolsas da moda, mas que são também uma forma de ativismo

Sem medo de se posicionar, a marca Clare V apoia os direitos reprodutivos e o controle de armas

Crédito: Clare V/ Divulgação

Elizabeth Segran 5 minutos de leitura

A maioria das criações de moda costuma ousar no campo estético. Mas a maior ousadia das bolsas Clare Vivier está no campo político.

A designer é a fundadora da marca Clare V. Ela passou os últimos 14 anos transformando sua empresa em um negócio lucrativo, que hoje conta com 12 lojas, uma linha de roupas e seguidores cult. A marca é conhecida por suas pochetes e bolsas de inspiração francesa, mas também se destaca por defender causas progressistas, que vão do controle de armas ao direito de voto e à justiça reprodutiva.

Clare Vivier, designe e ativista

Quando a Suprema Corte norte-americana estava às vésperas de derrubar o direito ao aborto legal no país, Clare lançou uma camiseta estampada com a frase “Égalité pour les femmes” (“igualdade para as mulheres”, em francês). A venda vai arrecadar fundos para o Centro de Direitos Reprodutivos, organização sem fins lucrativos que defende o aborto.

Além disso, enquanto o Congresso tenta aprovar a legislação de controle de armas após o tiroteio em Uvalde, a marca colocou à venda uma camisa que declara: “Ça suffit!” (“Basta!”), em apoio a Everytown for Gun Safety, ONG norte-americana que defende o controle de armas e o combate à violência armada.

ATIVISMO NO FRONT DIGITAL

Cada vez que a marca apoia uma causa nas mídias sociais, também desencadeia reações negativas. Mas, embora alguns clientes tenham optado por parar de comprar os produtos Clare V. por causa da defesa aberta dessas causas, as vendas continuam a aumentar – cerca de 70% em relação ao ano passado.

Clare nunca planejou se tornar designer. Ela estudou inglês na Universidade de San Francisco e virou jornalista, casando-se com o francês Thierry Vivier em 2002. Depois disso, passou um tempo escrevendo na França e nos EUA. Em suas horas livres, entretanto, adorava costurar.

No início dos anos 2000, era difícil encontrar uma capa de notebook atraente e funcional no mercado. Ela então criou uma bolsa envelope grande, de algodão acolchoado, para levar seu computador para o trabalho.

Amigos começaram a perguntar se ela poderia fazer uma para eles também, e Clare começou a considerar seriamente o que seria necessário para abraçar uma nova carreira.

Quando ela e o marido haviam acabado de se tornar pais, o destino interveio. Clare estava andando por Oakland quando tropeçou em quatro notas de US$ 100. “Procurei o dono para devolver o dinheiro, mas não tinha ninguém à vista. Decidi encarar esse achado como um sinal de que eu tinha que comprar uma máquina de costura”, conta.

Ela começou a fazer protótipos de bolsas inspiradas na estética francesa clássica e bem trabalhada que tanto admirava quando morou em Paris. Em 2008, ela lançou o site Clare V. e a marca decolou imediatamente.

“Não era aceitável para mim ter um negócio puramente capitalista.”

Celebridades como Katie Holmes e Rashida Jones começaram a carregar suas bolsas – que começaram custando US$ 150 e hoje saem por cerca de US$ 300. A empresa foi lucrativa desde o início, exceto por um breve período em 2020, quando as vendas caíram devido à pandemia.

Mas mesmo enquanto a marca prosperava, Clare queria fazer a coisa certa, porque seus pais sempre esperaram que os filhos ajudassem a resolver alguns dos problemas do mundo. “Não era aceitável para mim ter um negócio puramente capitalista”, diz ela. “A questão desde o início era como eu usaria isso para contribuir para o entorno.”

UMA REFLEXÃO INEVITÁVEL

Sete anos depois de começar o negócio, Clare decidiu direcionar a marca para o ativismo. Em 2015, fez parceria com a instituição de caridade Every Mother Counts (Toda Mãe Importa), liderada por Christy Turlington, que trabalha para prevenir a mortalidade materna em todo o mundo. A marca lançou uma linha de roupas que revertia 30% do valor do preço para a organização.

Mas, com o tempo, a designer quis se envolver em questões mais controversas. Durante a presidência de Donald Trump, quando ativistas progressistas falavam em construir a resistência, Clare V. lançou uma camiseta e uma bandana com os dizeres “Vive La Resistance”. O lucro foi doado para a Planned Parenthood, ONG de cuidados de saúde reprodutiva nos EUA.

Em 2018, depois do tiroteio em Parkland, a marca defendeu o controle de armas, doando porcentagens das vendas para Everytown For Gun Safety. Até o final de 2022, Clare calcula que a empresa terá arrecadado US$ 500 mil para essas causas.

REAÇÕES NEGATIVAS

Mas, após ter tomado posição em defesa desses movimentos, Clare V. experimentou alguma reação negativa. Nas redes sociais, muitos seguidores aplaudiam o ativismo, enquanto outros declaravam que boicotariam a marca. Isso levou a fundadora a fazer uma pausa. Ela estava preocupada em perder negócios, principalmente porque muitos funcionários agora dependiam de sua empresa para ganhar a vida.

“Queremos ser uma marca para gente que não esteja apenas posando, mas se posicionando e apoiando nossas iniciativas.”

É mais fácil para empresas menores e startups se posicionarem sobre temas controversos. Mas um dos motivos para Clare não se omitir é pessoal: sua marca carrega seu nome, então ela considera que é importante ser fiel aos seus valores e defender o que acredita. Outro motivo é ter percebido que, mesmo que alguns clientes optem por se afastar, outros se tornam ainda mais fiéis.

“Queremos ser uma marca para gente que não esteja apenas posando, mas se posicionando e apoiando nossas iniciativas”, afirma. Surpreendentemente, mesmo algumas pessoas que não compartilham as crenças da marca costumam usá-la. “Somos seres complexos. Podemos amar um vizinho ou familiar conservador, mesmo que não compartilhemos a mesma opinião. Acho que é o mesmo com as marcas.”

Parte da razão pela qual Clare é capaz de fazer isso é porque tem relativa autonomia sobre sua empresa. A marca Clare V. é de propriedade privada não tem nenhum financiamento de risco. “Somos lucrativos e nosso crescimento é lento e orgânico”, diz ela. “Estou confortável com isso porque significa que tenho controle sobre o que a marca representa.”


SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, Ph.D., é colunista na Fast Company. Ela mora em Cambridge, Massachusetts. saiba mais