Essas 7 igrejas são diferentes de tudo que você já viu

Jamie McGregor Smith destaca o papel da arquitetura na missão da igreja católica de atrair as pessoas após a Segunda Guerra Mundial

Crédito: Jamie McGregor Smith/ Hatje Cantz

Elissaveta M. Brandon 3 minutos de leitura

Após a Segunda Guerra Mundial, a religião estava em declínio na Europa, e a igreja católica voltou-se para a arquitetura como uma chance de recomeçar. Nada de insistir no dourado e na simbologia tradicional. Os materiais em alta passaram a ser o concreto e o vidro.

Em seu próximo livro, a proposta do fotógrafo britânico Jamie McGregor Smith é contar a história dessas igrejas modernistas pouco conhecidas, construídas entre as décadas de 1960 e 1970.

Igreja de Páscoa, Oberwart, Áustria. Günther Domenig e Eilfried Huth, 1969

Intitulado “Sacred Modernity” (Modernidade Sagrada), o livro apresenta imagens impressionantes de mais de 50 igrejas católicas na Áustria, Itália, Suíça e Inglaterra. A coleção fotografias é uma ode à arquitetura concreta e modernista, mas também acena para o importante papel que a arquitetura desempenhou na missão de trazer as pessoas de volta à igreja.

Igreja de Santa Maria Immacolata, Longarone, Itália; Giovanni Michelucci, 1963-1982

A arquitetura modernista estava em voga nos anos 60. Defendida por arquitetos influentes, como Oscar Niemeyer e Le Corbusier (cuja capela em Ronchamp, na França, se tornou um ícone da arquitetura), ela se infiltrou em todos os aspectos do design, de móveis e casas a museus. “A igreja católica aderiu a essa moda por necessidade”, diz Smith sobre sua decisão de adotar a tendência modernista depois que muitas igrejas foram destruídas durante a guerra. “Se eles não ficassem muito atentos às tendências, perderiam o interesse do público.”

Igreja Saint-Nicolas, Hérémence, Suíça; Walter Maria Förderer, 1971

Os materiais usados eram tão simples quanto o concreto. Por um lado, porque a Europa Ocidental estava quebrada e o concreto era barato. Mas havia algo mais: a igreja queria transmitir uma imagem mais austera em comparação com o artesanato meticuloso e o douramento associado às suas contrapartes históricas.

“A intenção era passar a seguinte mensagem: ‘nós sabemos como é não ter riquezas’. Essa foi uma decisão consciente e eles precisavam que o material usado nas construções refletisse isso”, explica Smith.

Na pequena cidade suíça de Hérémence, cascatas de blocos de concreto compõem o interior da Igreja de São Nicolau. Já em Trieste, na Itália, o templo de Monte Grisa tem uma impressionante estrutura de concreto tesselado que evoca a letra M, de Maria.

Santuário de Monte Grisa, Trieste, Itália; Ing. Kramreiter, 1958

O concreto estava na moda, mas a busca da igreja por uma nova imagem foi além do material. Em 1959, o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II para abordar as mudanças nas relações entre a igreja católica e o mundo moderno. Smith diz que apenas algumas frases foram dedicadas à aparência dos novos templos, mas foram o bastante para indicar uma revisão radical.

Catedral Metropolitana de Liverpool, Inglaterra; sir Frederick Gibberd, 1967

As plantas tradicionais – na forma de cruz, com um salão longitudinal e fileiras de bancos voltados para o altar no fundo – foram abandonadas em favor de um traçado mais inclusivo. Na Catedral Metropolitana de Liverpool, concluída em 1967, o altar está localizado no coração do edifício, que é circular.

“Quando construíram essas igrejas, eles esperavam fazer as pessoas se interessarem novamente pela necessidade social da religião, ou oferecer a elas um lugar para se reunir”, explica Smith.

Igreja Memorial do Conselho, Viena, Áustria; Josef Lackner, 1968

Algumas igrejas foram mais bem-sucedidas que outras. Em Viena, a igreja de Saint Florian funciona atualmente como uma sala de concertos, com equipamento de luz permanente. No entanto, a maioria das fotos do livro mostra espaços marcantes, mas desprovidos de vida.

Smith diz que isso reflete o período em que as fotos foram tiradas, principalmente durante a pandemia. Mas, segundo o fotógrafo, o vazio também mostra que a frequência à igreja na Europa está diminuindo. “O que podemos fazer, então, com esses espaços?” questiona.

Catedral de Clifton, Bristol, Inglaterra; Ron Weeks, 1973

Em última análise, o livro “Sagrada Modernidade” atesta uma grande mudança do papel da igreja católica: de um lugar de comunhão religiosa para um lugar da comunidade. Smith diz que não é religioso, mas faz uma ressalva: “se não substituirmos a religião por alguma outra coisa que possa unir as comunidades, estaremos perdendo algo importante. Parte de mim acha que ninguém precisa ser religioso para perceber o benefício da arquitetura social – e de certa forma, as igrejas não deixam de ser um tipo de arquitetura social.”


SOBRE A AUTORA

Elissaveta Brandon é colaboradora da Fast Company. saiba mais