Esses tênis high tech avisam quando está na hora de serem reciclados

Philippe Starck colaborou com a Baliston neste calçado que analisa a marcha, conta os passos e pode ser trocado por um novo par quando se desgasta

Créditos: Baliston/ Phiwath Jittamas/ iStock

Adele Peters 3 minutos de leitura

Quando alguém calça os tênis desenhados pelo renomado designer francês Philippe Starck, eles começam a rastrear a forma como a pessoa caminha. Depois de algumas semanas, o dono recebe palmilhas personalizadas pelo correio, para ajudar a melhorar sua marcha.

O calçado também consegue identificar quando está gasto demais e precisa de um substituto. Quando esse dia chega, o cliente pode devolver o primeiro par, para que ele seja totalmente reciclado.

“Me interessei por fazer calçados porque geralmente são produtos que têm uma vida muito curta”, conta Starck, que trabalhou no design estético da startup californiana Baliston, que desenvolveu a tecnologia aplicada no tênis.

Crédito: Baliston

Stark queria trabalhar no projeto tanto por causa do impacto ambiental – a maioria dos tênis acaba em aterros sanitários, às vezes apenas meses depois de serem usados pela primeira vez – quanto pela inovação da tecnologia da Baliston. “Ninguém tinha feito isso antes”, diz ele.

Cada calçado possui um módulo eletrônico embutido sob a palmilha, com sensores que compartilham dados via bluetooth. “Construímos uma tecnologia que funciona de modo específico em cada pé. Além disso, os tênis se comunicam em tempo real e trocam informações”, explica o fundador da Baliston, Karim Oumnia. “Cada pessoa tem uma espécie de ‘DNA ambulante’: todos nós temos um jeito de andar que é diferente dos outros.”

A tecnologia por trás desses tênis já vem sendo usada em consultórios de podólogos na Europa para ajudar a projetar palmilhas personalizadas. O que a Baliston fez foi dar o primeiro passo para aplicá-la diretamente em calçados.

Crédito: Baliston

Quando a pessoa caminha, um aplicativo disponibiliza informações e sugestões. Se a marcha for assimétrica, por exemplo, ele vai sugerir exercícios específicos que o usuário pode fazer – como treinos de panturrilha para a perna mais fraca – para ajudar a prevenir futuras dores nas costas. Ou indicar como melhorar a postura, ou a propulsão, por exemplo.

O aplicativo também rastreia quantos passos o usuário dá por dia, quantos degraus de escadas sobe, a intensidade da atividade e as calorias queimadas.

Essa IA levou oito anos para ser desenvolvida. Tornar o produto reciclável levou mais três anos. “Normalmente, calçados têm de 20 a 40 componentes, o que os torna muito difíceis de reciclar”, explica Oumnia.

O novo modelo de tênis tem apenas cinco componentes, todos de base biológica. Porém, alguns dos materiais tinham limitações. Starck primeiro esboçou o desenho de um modelo na cor cinza-escuro, mas depois descobriu que o algodão orgânico disponível para uma parte do calçado só estava disponível em preto.

Trabalhar com poucos materiais também foi um desafio. Mas ter a reciclabilidade em mente desde o início do processo de design permitiu à equipe criar um sapato realmente "circular".

Philippe Starck (Crédito: Baliston)

Quando um par se desgasta, o cliente separa a sola da parte superior e manda de volta para reciclagem com uma etiqueta de devolução pré-paga. A parte superior pode ser refeita em novas unidades. Já o solado, feito de cana-de-açúcar, pode ser parcialmente reutilizado em um novo solado. O resto do material pode ser vendida para outras empresas, para outros usos.

Os tênis são vendidos por assinatura, o mesmo modelo de vendas que a marca suíça de tênis On usa para seus tênis recicláveis. Em vez de pagar por um par, o cliente paga pelo acesso a um par e, quando ele se desgasta, recebe outro.

A pessoa guarda os componentes eletrônicos para reutilização, porque eles duram mais, e depois os insere em seu novo par. A assinatura é cara: US$ 249 por ano. Mas, dependendo do uso, o cliente pode obter um ou dois pares por ano. 

O design dos tênis mudará com o tempo, diz Starck. “Usar um mesmo modelo a vida inteira pode ser meio chato”, diz ele. “O que você compra são os mesmos tênis, mas eles mudam de aparência.”


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, ... saiba mais