Jato Overture será tão veloz quanto o Concorde. Só que mais ecológico

Após sete anos de desenvolvimento, o avião, capaz de ir de Seattle a Tóquio em menos de cinco horas, está a um passo de se tornar realidade

Crédito: Boom Supersonic/ Divulgação

Rob Pegoraro 4 minutos de leitura

A startup Boom Supersonic deu um passo importante em direção ao seu sonho: trazer de volta aos ares as viagens comerciais em aeronaves supersônicas. A empresa acaba de divulgar o refinado design de seu novo jato, o Mach 1.7 Overture. Mas essa versão atualizada do Overture, um pequeno avião comercial que vem sendo desenvolvido desde 2016, ainda deixa alguns componentes-chave indefinidos.

A maior mudança na configuração que a Boom apresentou no Show Aéreo Internacional de Farnborough, nos arredores de Londres, é um motor adicional. O Overture agora apresenta quatro motores, em vez dos três do design anterior.

O novo design coloca cada motor em uma cápsula separada abaixo da asa em forma de delta da Overture e apresenta uma fuselagem composta de carbono, que se estreita acima da asa para melhor aerodinâmica supersônica (conhecida como design de “regra da área”).

Como resultado, ele se parece menos com os jatos Concorde que cruzaram o Atlântico até 2003 em velocidades acima de 2,4 mil km/h e mais com o bombardeiro supersônico vintage B-58 de 1956, da Força Aérea norte-americana.

Crédito: Boom Supersonic/ Divulgação

“A aeronave agora está sendo projetada considerando sua fabricação e manutenção”, disse o fundador e CEO da Boom, Blake Scholl, à Fast Company. “O motor montado na cauda do design antigo teria sido difícil de fabricar e de manter.”

Ele observa que um projeto bimotor, como o mostrado em uma renderização de 2016 da Boom, exigiria motores de diâmetro maior do que a empresa poderia adotar para voos supersônicos.

Com a mudança de três motores para quatro, o alcance do jato Overture – 7,9 mil quilômetros – e o consumo de combustível não mudarão, diz Scholl: “Tudo o que temos dito nos últimos anos sobre eficiência de combustível nos aviões permanece verdadeiro”.

A Boom continua divulgando a capacidade do Overture de voar com combustível de aviação 100% sustentável, que pode ser feito de fontes como óleo de cozinha reutilizado ou dióxido de carbono retirado do ar com máquinas de captura direta.

Mas a identidade da empresa que construirá esses motores permanece em segredo. A Boom assinou um empreendimento em 2020 com a Rolls-Royce para explorar a adaptação de um dos motores atuais desse fabricante, mas Scholl não confirmou se a Rolls vai construir os motores do Overture.

Crédito: Boom Supersonic/ Divulgação

Segundo a empresa, o Overture vai decolar e voar sem usar pós-combustores barulhentos, algo que o Concorde exigia e que incomodava muita gente em terra.

Em 1977,  um morador da área rural próxima ao Aeroporto Internacional Dulles , em Washington D.C., chegou a declarar ao jornal “The Washington Post”: “os cavalos entram em pânico e correm como loucos pelo campo quando o Concorde passa”.

A Boom, no entanto, não pretende reduzir o estrondo sônico causado pela Overture – esse é um assunto recente nas pesquisas do governo e da indústria. Portanto, limitará os voos em velocidade supersônica aos oceanos, com a velocidade nos trechos continentais ficando limitadas a um pouco menos de 1,3 mil km/h.

O Overture consegue voar com combustível de aviação 100% sustentável.

“O esforço para suavizar o estrondo acarreta uma diminuição na eficiência”, diz Scholl. “Apenas focamos todos os nossos esforços na eficiência do combustível e deixamos o som para os trechos de viagem onde ninguém vai ouvir.”

Boom prevê que um voo de Nova York para Londres levaria três horas e meia (muito abaixo das sete horas atuais), enquanto de Seattle para Tóquio seria possível voar em quatro horas e meia (muito abaixo das 10 atuais).

O anúncio da Boom também sugere uma mudança nas acomodações dos passageiros. As renderizações anteriores mostravam apenas um assento de cada lado do corredor, mas Scholl afirma que será possível mudar para um layout de dois por dois, na parte frontal da cabine e, depois, de dois por um, na fuselagem mais estreita acima da asa.

Espera-se que os jatos tenham capacidade para 65 a 80 assentos. “Com 65 é possível manter um interior muito luxuoso”, diz Scholl. “Com 80 ainda fica bom, mas não seria tão espaçoso.”

Crédito: Boom Supersonic/ Divulgação

O próximo passo da Boom será colocar em funcionamento o protótipo XB-1 em menor escala, um passo que a empresa esperava atingir até o final de 2017. Esse jato saiu de sua instalação Centennial, Colorado, no final do ano passado, para testes em solo. Os voos de teste estão planejados para o final deste ano.

Em seguida, vem a inovação na fábrica em Greensboro, Carolina do Norte, seguida pela construção do primeiro jato Overture, a partir de 2024. Isso deixa uma margem de cinco anos para colocar o avião em testes de voo, certificá-lo por reguladores governamentais e entregá-lo às companhias aérea, para atender à projeção da Boom: dizer “bem-vindos a bordo” aos passageiros até 2029.


SOBRE O AUTOR

Rob Pegoraro é jornalista e escreve sobre computadores, gadgets, mídias sociais, aplicativos e outras coisas que pisquem ou bipem. saiba mais