Kichute e Bamba vão voltar. Como marcas digitais (e com NFT)

Tênis famosos nos anos 80 e 90 vão retornar como marcas digitais em edições limitadas

Crédito: Divulgação/ Fast Company Brasil

Camila de Lira 3 minutos de leitura

Na onda dos sneakers e da nostalgia pelos anos 80, Kichute e Bamba vão voltar ao mercado. Os tênis receberão um retrofit pelas mãos de Adriano Iódice e Stefano Hawilla, que querem modernizar também a forma de comercialização. Em vez de grandes lojas de departamento, os calçados serão vendidos apenas online, em uma estratégia de marca digital.

“A marca nunca morre, ela sempre fica no imaginário. No caso de marcas como Kichute e Bamba, elas poderiam ter tido um tempo de vida maior do que o mercado deu”, diz Stefano Hawilla, cofundador da Justa, companhia que vai trazer de volta as duas marcas nostálgicas. O plano é que os Bambas cheguem no quarto trimestre deste ano e os Kichutes fiquem para o começo de 2023.

Iódice e Hawilla criaram a Justa e fecharam acordo com a Alpargatas para criar utilizando os nomes Kichute e Bamba. A dupla pretende manter o design externo, mas alterar e “modernizar” o revestimento interno. “Se colocar um Bamba dos anos 80 hoje no pé, vai dar bolha. Estamos muito preocupados com a parte da modelagem e da vestibilidade”, comenta Iódice.

Bamba combinava características do Converse e do Kichute (Crédito: Divulgação)
Desenho do Kichute foi inspirado nas chuteiras de futebol (Crédito: Divulgação)

EXCLUSIVIDADE DEMOCRÁTICA

O e-commerce não será o único traço digital dos novos Kichutes e Bambas. Outro ponto será a quantidade de unidades vendidas. Em um movimento já adotado por companhias como Nike e Adidas, a Justa projeta lançar pequenas coleções assinadas e exclusivas. Serão edições limitadas e feitas em colaborações com designers brasileiros.

“A venda online vai diminuir o custo e permite uma qualidade final para o produto”, explica Iódice.

Para Hawilla, o ponto mais benéfico da fórmula D2C (venda direta ao consumidor, na sigla em inglês) com exclusividade será manter a marca sustentável, já que a produção em lotes pequenos vai evitar o desperdício de materiais e de produtos “que ficam parados nos estoques”.

Com apenas um SKU, ou seja, um produto veiculado na loja online, a Justa conseguirá entender o comportamento do consumidor e ainda garantir que os novos Bambas e Kichutes se encaixem em um modelo de “exclusividade democrática”. Ou seja, os produtos serão exclusivos “pela pequena produção, não pelo preço proibitivo”, segundo Hawilla.

Os sócios estudam ainda acrescentar o NFT ao produto, como prova da autenticidade de cada par único das edições limitadas. O token serviria como documentação e não como um “clone digital” no metaverso, a exemplo do que algumas marcas como a Nike estão fazendo.

A volta de músicas como “Running Up that Hill”, de Kate Bush, impulsionada pela série “Stranger Things” (da Netflix) mostra que o ambiente cultural está a favor da nostalgia. A volta dos tênis Air Jordan (da Nike) dos anos 90 é uma inspiração para a Justa. Além de ser um indicativo de que há demanda do público para produtos de 30 ou 40 anos atrás..

O QUE NÃO DEVERIA TER MORRIDO

O Kichute foi lançado pela Alpargatas nos anos 70 com um modelo parecido com chuteiras de futebol. A ideia, na época, era aproveitar a popularidade da Copa do Mundo (e do tricampeonato do Brasil). O calçado chegou a vender mais de nove milhões de pares por ano, ou seja, quase 10% da população comprava pelo menos um par por ano.

A entrada da concorrência internacional nos anos 90 prejudicou a Kichute, que se colocava como uma marca esportiva. Isso acabou levando o modelo de chuteiras a ser descontinuado no começo dos anos 2000.

Já o Bamba, que combinava características do Converse e do Kichute, com design em lona e borracha, saiu de circulação em 1992.

A volta das duas marcas faz parte da iniciativa em conjunto da Justa com o Grupo Alexandria, que criou o projeto “Sociedade das Marcas Imortais”.

“Acreditamos que marcas icônicas têm um papel na sociedade. Queremos colocar nossa expertise e experiência a serviço da manutenção e preservação de ícones da cultura popular”, afirma Solange Ricoy, sócia-fundadora do Grupo Alexandria.

“Não é novo, mas estamos revivendo coisas que achávamos que deveriam estar vivas até hoje”, concorda Hawilla.


SOBRE A AUTORA

Jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para negócios. saiba mais