Lava, a matéria-prima exótica desta arquiteta para construir prédios

Crédito: Arnhildur Pálmadóttir/ Divulgação

Elissaveta M. Brandon 4 minutos de leitura

Quando me encontrei pela primeira vez com a arquiteta islandesa Arnhildur Pálmadóttir, estava um pouco cética. Desde 2018, sua empresa, SAP, pesquisa formas de aproveitar a lava dos inúmeros vulcões do país para construir edifícios.

À primeira vista, o conceito pode parecer meio excêntrico, mas, à medida que ela o explica, tudo fica claro. Se conseguimos perfurar poços de 6 mil metros nos oceanos para extrair petróleo, por que não buscar formas de aproveitar outro material das profundezas da terra?

Créditos: Arnhildur Pálmadóttir/ Divulgação

As pesquisas da arquiteta culminaram em um projeto chamado Lavaforming, que recentemente fez parte de uma exposição em Reykjavík, capital da Islândia. Segundo ela, a ideia surgiu como uma resposta à crise climática.

A construção civil é responsável por 11% das emissões de CO2 de todo o planeta. Isso resultou em um movimento de arquitetos e desenvolvedores para estimular o uso de materiais de origem local mais sustentáveis, como as casas de adobe em grande parte da África, bambu na China e até resíduos de agave no México.

Na Islândia, a lava era uma candidata tão óbvia que Pálmadóttir ficou genuinamente surpresa por ninguém ter pensado nisso antes. “Não temos muitos recursos naturais, temos pedra e lava”, diz.

A arquiteta revelou três ideias de como a lava poderia ser aproveitada: cavar trincheiras para guiá-la quando um vulcão entrar em erupção, perfurar o solo até atingir o magma (antes de se transformar em lava) e fazer impressões 3D de tijolos a partir dela. O projeto foi criado com foco na Islândia, mas poderia se aplicar aos outros 1,5 mil vulcões ativos espalhados por todo o mundo.

Seu conceito é centrado na erupção natural, que, na Islândia, ocorre a cada cinco anos, em média. A última ocorreu em março de 2021, 40 quilômetros a sudoeste da capital Reykjavík, mas, segundo a National Geographic, pode ter dado início a décadas de erupções vulcânicas frequentes).

Quando um vulcão entrasse em erupção, a lava escorreria para uma rede de trincheiras previamente cavadas, que seriam usadas para redirecioná-la e proteger as estruturas das proximidades. Elas também podem servir como base estrutural para uma nova cidade, já que, ao se resfriar, a lava se transforma em rocha sólida. Cavar ao redor faria ainda com que a lava já solidificada desse forma às paredes de novos prédios ou construções.

Para isso, os arquitetos se baseariam em modelos de previsão que estão sendo desenvolvidos atualmente – uma espécie de previsão do tempo, mas para vulcões. Prevendo onde e quando a próxima erupção ocorrerá, esses modelos podem indicar “onde construir uma cidade”, explica Arnar Skarphéðinsson, arquiteto da SAP (e filho de Pálmadóttir).

Enquanto não há erupções vulcânicas no horizonte, arquitetos querem pegar carona nas pesquisas científicas sobre energia geotérmica. A Islândia é atravessada por uma fenda que divide o país de leste a oeste. Nas profundeza existem bolsões de magma que transferem calor para o manto rochoso da Terra acima dela. Esse “calor geotérmico” poderia, futuramente, ser usado para produzir enormes quantidades de energia.

Uma pesquisa nesse sentido está sendo conduzida perto do vulcão Krafla, no norte do país. Se os arquitetos tivessem acesso a equipamentos semelhantes, poderiam perfurar o solo e atingir os bolsões de magma para extrair material, que seria transformado em tijolos ou usado em impressão 3D.

Pode até parecer o enredo de um filme de ficção científica, mas Pálmadóttir ressalta que o Instituto de Tecnologia de Massachusetts já está fazendo impressões 3D com vidro fundido. Então, por que não funcionaria com lava?

Apesar de tudo, os arquitetos se mantêm realistas. “Concordamos que é uma ótima ideia, mas sabemos que não é algo que veremos se tornar realidade tão cedo”, diz Skarphéðinsson. Para ele, o conceito do projeto ilustra o quão devastadora foi a crise dos materiais de construção e como os arquitetos estão desesperados para encontrar uma solução mais sustentável.

Em 2012, a Islândia realizou um referendo constitucional. Uma das seis perguntas era para saber se os cidadãos queriam que os recursos naturais da ilha que ainda não eram de propriedade privada fossem declarados como propriedade nacional. A resposta foi sim, mas Skarphéðinsson relata que “nada foi feito” desde então.

“Se pudéssemos construir uma cidade a partir da lava, ela seria de propriedade pública. Acreditamos que esse seria um passo importante para amenizar a crise climática”, diz ele. “Com os cidadãos no controle dos recursos naturais do país, podemos ajudar a promover a equidade climática para todo o mundo.”


SOBRE A AUTORA

Elissaveta Brandon é colaboradora da Fast Company. saiba mais