Livro desvenda as mentiras que nos contaram sobre o plástico

Alice Mah analisa o papel das corporações na criação e perpetuação da crise global do plástico – e o que podemos fazer a respeito

Crédito: David Malan/ GettyImages/ Polity Press

Alice Mah 5 minutos de leitura

Nos últimos anos, o paradoxo do plástico como um milagre e uma ameaça para a sociedade tornou-se banal. Existem inúmeras críticas sobre nossa relação com o material, com foco em nosso vício e dependência.

No entanto, essa forma de abordar o problema serve apenas para perpetuá-lo. Há vários tipos de plásticos. Cada um com propriedades diferentes, não somente quanto à flexibilidade e durabilidade, mas também ao nível de toxicidade.

Ao tratar os diferentes plásticos como uma entidade única, com características tanto benéficas quanto prejudiciais, cria-se uma narrativa de que esses atributos são inseparáveis. Culpar igualmente a todos por nossa dependência do plástico redime as corporações de sua responsabilidade e impede discussões sobre os diferentes níveis de riscos.

Let’s talk realistically about plastic” (“Vamos falar de forma realista sobre o plástico”) é o nome de uma campanha lançada em outubro de 2020 pela Federação Dinamarquesa de Plásticos, que produziu vídeos curtos com mensagens sobre a realidade do uso de plástico: “Sem plástico… carros usariam mais combustível”; “Sem plástico… não teríamos capacetes para andar de bicicleta.” A conclusão: “Sinceramente, o plástico pode ser necessário em alguns casos. Mas, se eliminarmos de vez seu uso, acabaríamos criando mais problemas do que resolvendo.”

A linha argumentativa usada pela indústria é “extremamente simplista”, mas está certa em alguns aspectos. O plástico não pode ser dividido em diferentes categorias, como essencial ou descartável, desejável ou tóxico.

Muitos plásticos são, de fato, fundamentais para a saúde, segurança, transporte e conectividade. Porém, são tóxicos e geram resíduos. Não há soluções fáceis para um problema tão complexo. Mas podemos impedir que a crise do plástico fique ainda mais fora de controle.

Muitos produtos podem e devem ser banidos ou substituídos para proteger a saúde, o meio ambiente e o clima. Embora existam muitas barreiras e dilemas envolvidos em tais propostas, reduzir a produção de plásticos nocivos é possível e necessário. Um ponto de partida é confrontar as meias verdades e as mentiras contadas pelas corporações.

A narrativa criada pela indústria trata o tema como uma questão dicotômica sobre o que é “realista versus impraticável”, uma reviravolta pragmática de outra antiga narrativa popular: “realidade versus ficção”. Ela é usada para difundir os benefícios do plástico e contestar seu risco tóxico.

Muitos produtos podem e devem ser banidos ou substituídos para proteger a saúde, o meio ambiente e o clima.

Desde o início da era do plástico, a indústria promove incansavelmente as características essenciais e desejáveis de seus produtos, negando seus efeitos nocivos. A descoberta de plásticos sintéticos há mais de um século foi vista como milagrosa, capaz de proteger animais, abandonado o uso de marfim e cascos de tartaruga, e recursos naturais, substituindo madeira, seda e vidro.

Mas, o mais importante para o sistema capitalista era o fato de ser um material barato. Após a Segunda Guerra Mundial, novos produtos domésticos entraram no mercado, fomentando o crescimento da sociedade de consumo de massa.

Rapidamente, a indústria avançou para outros mercados, como materiais de construção, sacolas de compras, equipamentos médicos, brinquedos, eletrônicos, garrafas de água e embalagens de alimentos. Nos venderam a praticidade do plástico e também a ideia de descartabilidade.

No entanto, o público nunca esteve totalmente convencido. Desde o início, grupos trabalhistas, consumidores e ambientalistas questionaram sua produção e uso. De fato, as indústrias petroquímica e de plástico têm sido frequentemente acusadas de fabricar suspeitas e incertezas sobre os perigos de seus produtos.

Nos anos 1960 e início dos anos 1970, as indústrias petroquímicas norte-americanas e europeias conspiraram para ocultar descobertas científicas que relacionavam o cloreto de vinila ao câncer e outras doenças para proteger seus mercados. Levou décadas até que pesquisadores e advogados expusessem suas mentiras.

Além das disputas sobre a verdade, as corporações muitas vezes ignoram completamente os riscos de seus produtos, especialmente porque o ônus da prova recai sobre as comunidades, não sobre a indústria. Os riscos tóxicos dos plásticos afetam desproporcionalmente comunidades minoritárias, de baixa renda e da classe trabalhadora.

as indústrias petroquímica e de plástico têm sido acusadas de fabricar suspeitas e incertezas sobre os perigos de seus produtos.

No Canadá, meu país natal, a Primeira Nação Indígena Aamjiwnaang está localizada ao lado de várias usinas petroquímicas poluentes e tóxicas no chamado “Chemical Valley”, em Sarnia, na província de Ontário. Os moradores relatam uma série de doenças.

Em todo o mundo, existem centenas de “aldeias de câncer”, regiões onde há incidência maior da doença relaciona à produção, incineração e descarte de plásticos. Apesar dos riscos e dos impactos sociais e ambientais negativos, as corporações continuam usando todas as táticas que podem para criar, proteger e expandir seus mercados.

Sem surpresa, se recusam a assumir a culpa pela crise do plástico. Em vez disso, a atribuem a outros agentes. Por fim, a responsabilidade recai sobre o consumidor. Como disse um executivo da indústria: “acho que ainda temos muito trabalho pela frente para conscientizar as pessoas de que, se há sacolas plásticas nas estradas, é porque alguém as deixou lá”.

Ainda assim, eles insistem na narrativa de salvar o mundo com plástico, o que ajuda a justificar a existência da indústria, mesmo que tóxica e poluente. No geral, argumentam que os benefícios superam os problemas.

A reciclagem continua sendo o grande redentor da culpa, baseado em mitos sociais perpetuados pela indústria. Existe até uma palavra em inglês para a prática de descartar objetos em lixeiras de coleta seletiva, apesar de saber que provavelmente acabarão incinerados ou em aterros sanitários: o termo “wishcycling” (uma junção das palavras em inglês para desejo e reciclagem).

Não estou sugerindo que as corporações têm como propósito poluir o meio ambiente ou envenenar as pessoas. Elas buscam maximizar seu lucro criando, protegendo e expandindo mercados, independentemente das consequências nocivas. Mas, ao separar os objetivos das consequências, estão apenas reforçando uma narrativa fantasiosa. Então, como diz a Federação Dinamarquesa de Plásticos, precisamos falar de forma realista sobre o plástico.

Extraído, com permissão, de Plastic Unlimited por Alice Mah, publicado pela Polity Press.


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