“Luxo discreto” não é só uma tendência, mas também um ótimo negócio

Este é o segredo para um negócio verdadeiramente sustentável e duradouro

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Elizabeth Segran 4 minutos de leitura

Em 2023, o mundo chegou a um consenso: logotipos chamativos viraram coisa do passado. Em vez disso, os consumidores passaram a buscar produtos de alta qualidade, cuidadosamente confeccionados, porém muito mais discretos em termos de aparência e marketing.

Várias razões contribuíram para que este conceito – agora conhecido como “luxo discreto” – se tornasse tão popular. Em parte, teve a ver com questões econômicas. Após a pandemia, com o fim do auxílio emergencial e com o aumento nos gastos com entretenimento, sobrou menos dinheiro para produtos caros da moda.

As pessoas passaram a querer investir em bens clássicos de alta qualidade. Essa tendência foi reforçada pela série “Succession”, na qual personagens ricos usam roupas e acessórios elegantes, porém discretos, dispensando os logotipos chamativos que estavam em alta até o ano passado.

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No entanto, como acontece com todas as tendências, o luxo discreto não está livre de sair de moda. Após meses de cores sóbrias e produtos sem logotipos em evidência, marcas e designers provavelmente mudarão o conceito de suas coleções como forma de criar um apelo de novidade.

Mas para Shilpa Shah, cofundadora da marca de moda minimalista Cuyana, e John Meadow, fundador do grupo de restaurantes Scarpetta, da LVD Hospitality, as empresas deveriam resistir à tentação de retornar ao luxo extravagante. Como especialistas em produtos e experiências de alta qualidade, eles defendem que o luxo discreto é melhor para os negócios.

CENTRADO NO CLIENTE

O foco nas necessidades do cliente é o ponto central do luxo discreto. Segundo Shah, “o verdadeiro luxo é ter um produto ou experiência que pareça ser feito especialmente para você”.

Na Cuyana, por exemplo, a equipe de design de Shah dedica muito tempo à pesquisa sobre o estilo de vida e as perspectivas de suas clientes. Eles descobriram que as mulheres que compram os produtos da marca buscam soluções que economizem tempo e resolvam problemas. Isso os levou a desenvolver uma abordagem sistemática para suas ofertas.

Luxo discreto da série Succession (Crédito: Divulgação)

Bolsas usadas no trabalho podem facilmente se transformar em sacolas para fraldas no fim de semana ou uma clutch para um jantar. Um casaco pode se adaptar a diferentes condições climáticas, de um simples colete a uma capa de chuva. “Estamos pensando em como facilitar a vida de nossas consumidoras”, diz ela.

Na Scarpetta, Meadow também se concentra na experiência dos clientes. Enquanto muitos restaurantes projetam ambientes para dar destaque a obras de arte caras ou a uma parede “instagramável”, seu foco é na criação de momentos de conexão.

Ele se preocupa com o conforto das cadeiras e em criar espaços aconchegantes para casais, além de mesas que proporcionam um clima intimista, mesmo para grupos maiores. “Dedicamos muito tempo para tentar criar momentos de conexão e intimidade porque sabemos que isso tornará a experiência memorável”, afirma Meadow.

SUSTENTÁVEL

O luxo discreto é projetado para permanecer relevante o máximo de tempo possível. É por isso que um de seus principais símbolos é a icônica bolsa Birkin, da Hermès, passada de geração em geração. Shah destaca que muitas clientes da Cuyana se sentem atraídas pela marca porque desejam produtos conscientes e responsáveis.

O foco nas necessidades do cliente é o ponto central do luxo discreto.

A empresa criou o slogan “fewer, better things” (algo como “menos coisas, porém melhores”). Seu objetivo é criar produtos clássicos que as clientes desejem manter por anos. “Estamos determinados a não seguir tendências. Focamos na qualidade dos materiais, para que durem por gerações.”

Meadow aponta que também existem tendências no mundo da alta gastronomia. No entanto, ele se concentra em criar pratos simples e amados, levando ingredientes da fazenda à mesa. Um de seus pratos favoritos é uma simples massa. “A origem dos ingredientes é muito importante para nós”, diz ele. “É uma forma de impactar o meio ambiente.”

FIDELIZA CLIENTES

À primeira vista, pode parecer que o luxo discreto não é bom para os negócios. Afinal, criar produtos clássicos e duradouros, bem como experiências discretas, não parece ser a fórmula para fazer com que os clientes voltem em busca de mais. Mas é o exato oposto.

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Muitas marcas renomadas – como Loro Piana, Bottega Veneta e Hermès – prosperaram enquanto seus concorrentes surgiram e desapareceram. Meadow acredita que isso acontece porque os clientes podem se empolgar com as tendências, mas continuam voltando a experiências consistentes, de alta qualidade e adaptadas às suas necessidades.

“As pessoas costumam voltar a um restaurante onde os funcionários sabem o nome delas e se lembram de seu vinho favorito. Elas não retornam a lugares que apenas oferecem sobremesas ‘instagramáveis’.”

Shah diz que o mesmo se aplica à Cuyana. Embora suas peças sejam projetadas para durar, a marca oferece uma ampla variedade de produtos. Quando as clientes precisam de um novo blazer ou carteira, elas recorrem à loja, porque sabem que encontrarão algo bem projetado e duradouro.

“Ao contrário do que se possa pensar, o luxo discreto é bom para os negócios”, ressalta Shah.


SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, Ph.D., é colunista na Fast Company. Ela mora em Cambridge, Massachusetts. saiba mais