POR ARI MATTES

A história do cinema como arte e como tecnologia caminham paralelamente. Já se perguntou por que as cores de O Mágico de Oz são tão saturadas? Bom, esse não foi o primeiro filme em tecnicolor, mas foi o primeiro a promover, de maneira eficaz, o então novo processo de cores da MGM, o 3-strip, para uma audiência global. Por que divulgar algo a meio-mastro?

 

Esse tipo de inovação tecnológica no cinema é, claro, estimulada por motivos econômicos. Por exemplo, o 3D prosperou em três ondas em resposta direta às ameaças econômicas provocadas por novas tecnologias: nos anos 1950, em resposta à televisão, nos anos 1980, em resposta ao VHS, e no século 21, diante da ascensão do streaming.

“Em 2018, a Netflix foi esnobada pelo Festival de Cannes com a justificativa de que suas produções originais não são cinema de verdade”

Nesta era do cinema digital, com a substituição do celuloide pela tecnologia de vídeo, a última batalha tecnológica diz respeito à resolução da imagem.

Uma imagem digital é feita de pixels – pequenas formas (geralmente caixas) que são o menor elemento controlável da imagem. A resolução se refere ao número de pixels que aparecem em uma imagem, e geralmente é medido em pixels por polegada. Como regra, quanto mais pixels, melhor a imagem.

Nas guerras do cinema digital pela resolução, você ouvirá com frequência as pessoas falarem sobre resolução de 4K – 4 mil – 8K, ou até mesmo 12K. Esse número se refere ao número de pixels horizontais. Uma típica imagem 4K, por exemplo, tem resolução de 4.096 (horizontal) x 2.160 (vertical) pixels.

A resolução da imagem é somente um fator sobre a aparência de uma imagem – o alcance dinâmico, que é a diferença entre as partes mais escuras e mais claras da imagem, é outra. Mas a maioria dos profissionais de cinema e de tecnologia concordam que a resolução da câmera é crucial para a qualidade da imagem.

Em 2018, a Netflix foi esnobada pelo Festival de Cannes com a justificativa de que suas produções originais não são cinema de verdade. Neste ano, mais uma vez, não há filmes feitos pelo serviço de streaming no evento, devido a uma regra de que, para competir, os filmes devem ter sido lançados nos cinemas.

Cannes está certo. A maior parte das produções feitas-para-Netflix não se parecem com cinema ao qual estamos acostumados. Por quê? Existe uma resposta técnica. A empresa, embora exiba por streaming alguns filmes que não sejam “originais da Netflix”, exige que suas produções sejam filmadas com um sensor UHD de 4K.

Em outras palavras, o sensor – que detecta e comunica a informação exigida para fazer uma imagem – deve ter pelo menos 3.840 pixels, ou “ultra high definition.”

SEM PROFUNDIDADE

Essa especificação fica evidente em Mank, produção original da Netflix em preto e branco: em vez da textura granulada dos filmes P&B filmados em celuloide, o longa dirigido por David Fincher conta com imagens flat, sem profundidade, limpas e claras demais.
https://www.youtube.com/watch?v=aSfX-nrg-lI&feature=emb_title

“Ao estipular o uso das câmeras 4K, a Netflix reduz radicalmente a autonomia estética dos produtores e diretores de filme”

No cinema isso não é um grande problema, mas, quando essas cenas filmadas com câmera digital são comprimidas para TVs domésticas e telas de computador ou celular, as bordas ficam muito evidentes e as sombras, muito delineadas.

O absurdo é que empresas como a CineGrain vendem filtros digitais para que o vídeo fique com aquele efeito granulado (o mote da companhia é “torne o digital mais cinematográfico com o CineGrain”).

A Netflix faz algumas exceções à regra. De acordo com a Y.M. Cinema, 30% dos melhores filmes do serviço de streaming em 2020 foram feitos com câmeras não-aprovadas. Ainda assim, ao estipular o uso das câmeras 4K, a empresa reduz radicalmente a autonomia estética dos produtores e diretores de filme.

Se encararmos o serviço de streaming como um estúdio de produção, então não é surpresa alguma, já que todos os estúdios ditam a natureza de seus produtos, inclusive a estética.

GLANURALIDADE GLORIOSA

Ao estipular o uso de sensores 4K, a Netflix reproduz a crença de que a alta resolução é necessariamente melhor para a maioria dos filmes.

 

Mas os filmes noir americanos – e até produções dos anos 1960 e 1970, como Easy Rider e Bonnie & Clyde – ainda são tão bonitos, em parte, por causa da tecnologia celuloide, em toda sua granularidade gloriosa. A beleza dessas imagens nada têm a ver com a nitidez das dos contornos.

Assim como ocorre com toda inovação tecnológica no contexto capitalista, essa noção vem do impulso competitivo em fazer algo melhor do que todo mundo – quanto maior e mais caro, melhor. Mas quando se trata de estética, esse é um pensamento redundante.

SOBRE O AUTOR

Ari Mattes é professor de Comunicação e Mídia da Universidade de Notre Dame na Austrália. Esse artigo foi republicado do The Conversation sob a licença do Creative Commons. O artigo original está aqui.