Todo mundo na bilionária indústria dos tênis quer trabalhar com Salehe Bembury

Salehe Bembury é um notável designer que emergiu da cultura do tênis. E está deixando a sua marca na indústria de calçados e da moda

Crédito: Obidigbo Nzeribe/ Kiwihug/ Unsplash

Mark Wilson 8 minutos de leitura

É impossível andar com Salehe Bembury, um dos designers de calçados mais famosos do mundo, sem ficar olhando para os pés de todos ao redor.

O asfalto está quente quando Bembury passeia pelas barracas do lendário Rose Bowl Flea Market, na Califórnia, onde, uma vez por mês nos últimos 50 anos, designers como Christian Louboutin garimpam peças únicas ao lado de outros frequentadores. Enquanto caminhamos, um rápido olhar revela um mundo totalmente novo, uma linguagem articulada e expressiva através dos calçados.

Tênis inspirado no trabalho do artista japonês Takashi Murakami, criado em 2018 para uma instalação artística (Crédito: Obidigbo Nzeribe)

Os góticos da geração Z e os entusiastas de consertos em casa da geração X usam os mesmos Vans Old Skools pretos. Millennials calçam Air Max 90s ou Yeezy 350s. Já aqueles que gostam de ostentar optam por algo mais peculiar para impressionar os outros com seu bom gosto.

Os fãs de Bembury sabem exatamente quem é o designer por trás dos novos New Balances. Também sabem que é a segunda combinação de cores mais procurada, o que significa que pode chegar a custar cerca de US$ 300 em um site de revenda.

MARAVILHAS DA BIOMECÂNICA

Sapatos são a única peça de vestuário que mantém seu formato depois que você os tira – fazendo deles tanto uma escultura quanto peças de vestuário. No que diz respeito à arte, são relativamente acessíveis. Por isso os tênis se tornaram uma força cultural tão democratizadora da nossa era, criando um mercado global de US$ 127 bilhões.

os tênis se tornaram uma força cultural democratizadora, criando um mercado global de US$ 127 bilhões.

Feitos de materiais anatômicos com alto desempenho que suportam várias partes do pé com precisão, os tênis também são maravilhas da física biomecânica. Designers hoje aspiram ver seu nome estampado neles. Bembury é a personificação perfeita desse novo tipo de celebridade do design industrial, tão fluente em moda quanto em sua área.

Para entender a importância de suas contribuições para a indústria de calçados, precisamos entender como os tênis são feitos. A parte inferior geralmente é feita com espuma moldada, para amortecimento, enquanto a parte superior é trabalhada com algum dos inúmeros tipos de tecidos.

Mudar uma cor – alterando o tom do tecido – é uma tarefa simples para a maioria das empresas de calçados. Mas mudar um perfil requer modificações na parte superior, além de desenvolver novos moldes para a sola.

Este é um grande esforço para a produção industrial, porque exige reequipar toda a linha de montagem, construir moldes de injeção e fazer um investimento de quatro a cinco dígitos para cada tamanho.

Por dentro do estúdio do designer (Crédito: Obidigbo Nzeribe)

Do ponto de vista financeiro, quanto mais “preguiçosa” for a colaboração de uma nova linha de tênis, melhor para a empresa. Especialmente porque a maioria dos colaboradores são designers de moda ou celebridades, ou seja, pessoas que desconhecem o processo de fabricação de um sapato.

Bembury criou novos moldes para o Crocs e o New Balance nos últimos anos. A lista de suas colaborações recentes inclui outras marcas icônicas, como Vans e Brandblack. Mas sua ambição vai muito além de desenvolver novos perfis para a indústria.

A maioria dos designers industriais não entende o mundo da moda, mas Bembury sim, e isso lhe permite brincar com o conceito de sucesso do setor. Os tênis não surgiram na sua vida depois da fama. Na verdade, sempre foram seu fascínio, sua fonte de inspiração. E cada vez mais o têm levado a se dedicar a outros segmentos, como equipamentos para atividades ao ar livre, artigos para o lar e alta costura.

Os tênis não surgiram na vida do designer depois da fama. Sempre foram seu fascínio, sua fonte de inspiração.

Calçar um Crocs Pollex criado por Bembury é uma sensação estranha. Seu design ondulado e estriado, que ele desenvolveu para a marca de calçados avaliada em mais de US$ 2 bilhões, foi lançado inicialmente em dezembro de 2021, e parece vindo de outro planeta.

Só quando você caminha por uma superfície mais maleável – areia, água ou tapete alto – percebe a assinatura que o designer colocou no sapato. A marca deixada em seu rastro se assemelha claramente a uma impressão digital. A dele mesmo, para ser mais preciso.

Desde sua fundação, em 2002, o Crocs usa o mesmo molde de tamancos dinamarquês – e Bembury foi o primeiro designer externo a propor trocá-lo. Mas o que poucas pessoas sabem é que o Crocs é um sapato feito de forma peculiar: são criados a partir de espuma de EVA moldada que dispensa costuras para uma produção barata e fácil.

Apenas quando seu ex-empregador, Yeezy, lançou o aclamado Foam Runner – três anos após Bembury deixá-lo e quase 20 anos após o lançamento do primeiro Crocs – alguém usou essa mesma tecnologia para criar um novo perfil, que seria impossível de produzir a partir de outros métodos.

Algumas das criações mais inusitadas de Bemburry, incluindo modelos para Crocs, New Balance e Yeezy (Crédito: Obidigbo Nzeribe)

Depois que a indústria passou a utilizar espuma, os designers puderam explorar mais formatos. Mas ninguém aproveitou mais a oportunidade criada por essa revolução do que Bembury. Nenhum calçado incorporou o conceito melhor do que o Pollex, que seguiu o design aerodinâmico e futurista de Yeezy, adicionando ondulações, inspiradas em suas impressões digitais.

O Foam Runner popularizou de forma contraintuitiva o Crocs, dobrando a receita da empresa desde 2019. O Pollex, por sua vez, popularizou uma nova onda de calçados “orgânicos”, em 2022.

DE FACAS A ALMOFADAS

Com a aspiração de um dia criar produtos para a Nike, Bembury se formou em design industrial na Syracuse University, onde aprendeu a desenvolver objetos para produção em massa. O primeiro que criou foi para sua tese: as “U-shi Sushi knives”, um conjunto de facas para culinária japonesa. Ele forjou as lâminas à mão e desenvolveu uma estrutura para o cabo que permitia ao chef mudar sua textura, peso e cor.

Bembury ficou em êxtase quando conseguiu seu primeiro emprego como designer de calçados na Payless, em 2009. Trabalhou também para Greats e Yeezy, antes de passar três anos criando do zero a linha de tênis da Versace.

“se eu não gostasse tanto de fazer caminhadas, não sei qual seria minha inspiração para o design.”

Durante o início da pandemia, como muitos outros, ele teve tempo de reavaliar sua vida. Perdeu mais de 20 quilos, começou a postar sobre sua rotina de trabalho no Instagram e lançou seu próprio projeto paralelo em dezembro de 2020, chamado Spunge, no qual produz roupas, acessórios e até almofadas.

Suas mudanças de estilo de vida contribuíram para uma nova perspectiva como designer. Apesar de continuar a criar para as maiores marcas de calçados, desenvolveu um estilo que logo se tornaria instantaneamente reconhecível por seus designs robustos e orgânicos, ideias para atividades ao ar livre. “Costumo brincar que, se eu não gostasse tanto de fazer caminhadas, não sei qual seria minha inspiração para o design!” diz.

Quando se encontrou pela primeira vez com Joe Grondin, gerente sênior de colaborações globais da New Balance, o designer o impressionou com sua abordagem distinta. “Ele trabalhava fazendo o caminho inverso”, conta Grondin, lembrando o projeto que viria a se tornar o Peace Be the Journey, lançado em 2020. “Ele tinha toda a ideia da narrativa, merchandising na loja e paleta de cores – cada detalhe de como imaginou o projeto. Mas não tinha um tênis.”

O tênis no alto da bancada era mesmo de Shaquille O’Neal (Crédito: Obidigbo Nzeribe)

Bembury passou a atuar como diretor criativo do Yurt e até desenvolveu a embalagem, combinando o estilo de suas colaborações anteriores com o New Balance. Ele toma muitas de suas decisões criativas rapidamente, escolhendo as cores em minutos. Mas o Yurt demorou para ser desenvolvido porque exigia um novo molde.

Em geral, nos acordos de colaboração, os designers recebem um pagamento único. Bembury negociou parcelas de receita contínuas em vários de seus lançamentos. “Seria de mau gosto compartilhar números”, diz ele. “Mas o fato de agora receber royalties de várias empresas mostra como o setor evoluiu.”

INFLUÊNCIA CULTURAL

Se há algo que o enche de orgulho são os novos comportamentos que suas criações inspiram. “Garanto que os produtos que criei afetaram positivamente a vida das pessoas no que diz respeito à sua relação com a natureza e incentivando-as a explorar seu bairro”, diz ele. Essa conexão direta com o público faz com que continue apostando em suas criações individuais, em vez de trabalhar em tempo integral para outros.

Apesar das parcerias com Versace e Moncler, Bembury sente que não recebe a atenção que merece da moda com “M” maiúsculo.

Spunge, marca que fundou para lançar o que quisesse, significa “a coisa mais valiosa que podemos ser… uma esponja sempre absorvendo.” Silenciosamente, tornou-se um negócio de US$ 4 milhões por ano em 2021, praticamente sem propaganda.

Como planeja uma grande expansão de sua marca para este ano, Bembury abrirá um segundo estúdio a apenas dois quarteirões do atual. Também pretende, pela primeira vez, contratar uma equipe (de cinco pessoas).

Bembury costuma caminhar sozinho para manter-se saudável e criativo, mas não dispensa companhia. Neste momento, tem duas parcerias, com a Versace e a Moncler. Mas ainda sente que não recebe a atenção que merece da moda com “M” maiúsculo.

“Não sou o tipo de pessoa que usa o racismo para justificar tudo ou [que diz que] se me negarem uma oportunidade, o motivo é automaticamente racismo. Mas essa tem sido uma questão muito interessante para mim. Conheço outras pessoas que criaram um calçado insignificante e, de repente, estão na Balenciaga! Mas eu [na Versace] literalmente criei um negócio do zero para uma marca de moda de luxo. Criei momentos culturais para eles. E não receber nenhuma ligação ou oportunidade [depois]? É algo que me espanta.”


SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos. saiba mais