“Viés racista” de oxímetros pode ter prejudicado pacientes com Covid-19

Crédito: Sergey Melnichuk/ iStock/ GettyImages Plus

Mark Wilson 4 minutos de leitura

Quando um paciente chega a um hospital com suspeita de Covid-19 ou qualquer outra doença, o oxímetro é o aparelho ideal para medir e monitorar a saturação de oxigênio no sangue. Depois de encaixado no dedo, ele emite uma luz e rapidamente informa ao médico se os níveis de oxigênio são suficientes para atender às necessidades do corpo.

Mas as leituras do oxímetro, aparentemente, têm um viés racista, superestimando rotineiramente a saturação de oxigênio em pessoas negras e hispânicas. Um estudo realizado em 2020 descobriu que, em pacientes negros, frequentemente eram aferidos níveis de oxigênio mais altos do que realmente apresentavam – três vezes maior do que em pacientes brancos.

Agora, uma nova pesquisa publicada no JAMA (Journal of the American Medical Association) descobriu que essas imprecisões afetaram de forma substancial o tratamento da Covid-19 nos hospitais.

Pessoas negras, em particular, esperaram em média uma hora a mais pelo tratamento do que pessoas brancas devido a essas leituras superestimadas, enquanto muitas outras foram erroneamente informadas de que não eram elegíveis para tratamento.

O que aconteceu com esses pacientes, os pesquisadores não sabem. Mas acreditam que é provável que seja uma das várias razões pelas quais pessoas não brancas eram mais propensas a morrer de Covid-19, mesmo considerando fatores socioeconômicos.

as leituras do oxímetro superestimam a saturação de oxigênio em pessoas negras e hispânicas.

O estudo foi conduzido por Ashraf Fawzy e Tianshi David Wu, ambos especialistas em medicina pulmonar e cuidados intensivos, além de professores assistentes na Johns Hopkins e na Baylor College of Medicine, respectivamente. Para o estudo, a equipe de pesquisa coletou dados de mais de 7 mil pacientes que foram internados no Sistema de Saúde Johns Hopkins.

MEDIÇÃO DETERMINA O TRATAMENTO

Cerca de mil desses pacientes receberam leituras de oxímetro e medição de níveis de gases no sangue. Os dados permitiram que os pesquisadores comprovassem o quão imprecisos eram os resultados apresentadose construíssem um modelo para estimar os erros nas medições dos outros 6 mil pacientes.

Foi constatado que os resultados eram mais precisos para pacientes brancos. Negros, latinos e asiáticos apresentavam, de maneira consistente, erros que variavam de 1% a 2%. Uma superestimação tão pequena pode não parecer muito em uma escala de porcentagem, mas Wu alerta que é extremamente relevante.

A diferença entre o diagnóstico de Covid e “Covid grave” – cujos pacientes recebem tratamento com medicamentos como o antiviral Remdesivir – pode ser definida a partir de um único ponto percentual de saturação de oxigênio no sangue.

“Quando nossas recomendações de tratamento são baseadas nesses limites e o número total de pessoas que tiveram a doença é tão alto, pode resultar em uma grande quantidade de casos com diagnósticos imprecisos”, diz Wu. “Estimamos um número enorme de afetados.”

A diferença entre o diagnóstico de Covid e “Covid grave” pode ser definida a partir de um único ponto percentual de saturação de oxigênio no sangue.

Verificou-se que 451 dos 7.126 pacientes eram elegíveis para tratamento, mas não receberam o diagnóstico correto na época. A maioria (55%) negros, seguidos por hispânicos (27%). Mais de um terço sofreu atraso no tratamento devido ao diagnóstico tardio, enquanto só um quinto dos pacientes brancos teve o mesmo problema.

IMPRECISO BY DESIGN

Os números são chocantes, mas a verdade é que os oxímetros têm um design ruim. Eles funcionam emitindo uma luz sobre a pele para avaliar os níveis de oxigênio no sangue, mas há muitas variáveis nesse tipo de abordagem. “A pigmentação da pele, a cor do esmalte ou qualquer coisa que possa alterar a absorção dos comprimentos de onda da luz parece afetar sua precisão”, explica Wu.

“Não acho que seja amplamente divulgado ao público em geral, ou mesmo aos médicos, que há essa imprecisão. Sobretudo a imprecisão específica que vem do preconceito – na qual sistematicamente são aferidos níveis menos preocupantes para pessoas não brancas, minorias étnicas e raciais. Portanto, mascara a gravidade da doença nessas situações”, alerta.

“Deixaremos para as empresas que produzem esses aparelhos descobrir como desenvolver a solução.”

Para os pesquisadores, a verdadeira solução vem com a tecnologia. “Deixaremos para as empresas que produzem esses aparelhos descobrir como desenvolver a solução. Mas o problema é a medição em si.”

Em resposta a esse viés racial, a Fast Company entrou em contato com várias grandes fabricantes de oxímetros (Masimo, Nonin, ICU Medical e Medtronic) perguntando sobre as metodologias de teste para esses dispositivos e se são validados em igualdade de condições entre raças e etnias.

Apenas a Medtronic respondeu até o momento da publicação, observando que a FDA (agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos) exige que apenas 15% dos participantes tenham pele escura para validar os testes, mas que, para produtos futuros, a empresa está reconsiderando sua abordagem.


SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos. saiba mais