A brasilidade é uma tecnologia. O carnaval é a prova
A brasilidade não é só cultura, é tecnologia de sobrevivência. E nossas festas são a maior demonstração pública dessa engenharia

O escritor Luiz Antônio Simas tem uma citação que você provavelmente viu circulando este mês: "o carnaval é o Brasil que deu errado."
Espera aí. Errado?
É o seguinte. Nas palavras dele: "porque o Brasil, como Estado-nação, foi projetado para excluir, foi projetado para concentrar renda, desarticular sentidos coletivos de vida e aniquilar as culturas não brancas. Esse Brasil, como Estado-nação, deu certo, mas a brasilidade é o que pode fazer esse Brasil dar errado. E o carnaval é a vitória da brasilidade sobre o Brasil."
Lê de novo. Deixa assentar.
O Brasil-projeto funcionou. Funcionou exatamente como foi desenhado: para poucos, contra muitos. Mas a brasilidade é outra coisa. A brasilidade é o que escapa. É o que transborda. É o que não cabe no projeto.
E aí que entra o carnaval.
Quando milhões de pessoas saem às ruas pra sambar, pular, se fantasiar, se encontrar, o que tá rolando não é só diversão. É o que o Simas chama de "reconstrução do sentido coletivo de vida". É a vitória do corpo sobre a morte. É reencantamento diante de um sistema que quer a gente desencantado, desarticulado, sozinho.
A gente foi educado pra achar que tecnologia é coisa de silício e algoritmo. Mas tecnologia é qualquer conhecimento aplicado pra resolver um problema. E qual o problema que a brasilidade resolve? O desencanto. A aniquilação. A solidão programada de um sistema que quer a gente separado, competindo, desconfiando um do outro.
O carnaval hackeia isso. Mas não só ele.

Olha pro calendário brasileiro e você vai ver: a gente inventou dezenas de tecnologias de reencantamento espalhadas pelo ano inteiro.
A Marujada de Bragança, no Pará, onde a comunidade negra transforma dezembro em celebração de fé, dança e resistência.
O Congo do Espírito Santo, com suas cortes reais africanas recriadas em solo brasileiro.
O Boi-Bumbá de Parintins, que paralisa uma cidade inteira pra contar uma história de morte e ressurreição, do boi e de quem dança.
O São João do Nordeste, que faz milhões atravessarem o país pra voltar pra casa, pra fogueira, pro forró, pra família.
Cada uma dessas festas é um sistema operacional diferente rodando o mesmo programa: juntar gente, criar pertencimento, produzir alegria coletiva sem pedir permissão pra ninguém.

Um bloco de rua é tecnologia social. O samba de roda é uma tecnologia ancestral de cura comunitária. A fantasia é tecnologia de libertação temporária. Por algumas horas, você pode ser quem quiser, e ninguém vai te julgar por isso. O maracatu, a congada, o tambor de crioula, o carimbó. Tudo isso são invenções. Soluções. Ferramentas de sobrevivência disfarçadas de festa.
E o mais bonito: essa tecnologia foi desenvolvida justamente por quem o sistema tentou destruir. Negros, indígenas, pobres, periféricos. Os mesmos corpos que o Brasil-projeto quis aniquilar são os que inventaram as ferramentas para sobreviver a ele. A brasilidade é engenharia reversa da exclusão.
A brasilidade é engenharia reversa da exclusão.
Por isso que essas festas incomodam tanto certa gente. Não é bagunça. É ordem, só que outra ordem. Uma ordem que valoriza o encontro acima do isolamento, o corpo acima da produtividade, o encanto acima do cinismo.
Quando o Simas fala que "o carnaval é o Brasil que deu errado", ele tá dizendo: graças a Deus que deu errado. Porque o projeto original era nos matar. Física, cultural, espiritualmente. E a gente tá aqui. Sambando. Cantando. Dançando boi. Pulando fogueira. Existindo em comunidade.
A brasilidade não é só cultura. É tecnologia de sobrevivência. E nossas festas são a maior demonstração pública dessa engenharia que a gente tem.
