Eu me lembro quando meu irmão Fred, então na quarta série, voltou da escola e disse ter descoberto o X. Sendo eu uma estudante da sexta série muito competitiva, me senti muito frustrada e traída pelo sistema educacional. Como meu irmão caçula poderia ter aprendido equações com letras e símbolos antes de mim? “É 4.5”, declarou ele, orgulhoso.

Levou anos para eu perceber o quão pouco aquilo realmente significava  – “X”, como qualquer estudante do ensino médio sabe, é o resultado da resolução de problemas, e não um valor constante. Para saber o “X”, é preciso saber resolver cada problema, de novo e de novo, de equação em equação. A solução é meramente um indicador de que você sabe resolver cada problema, e o “resolver” vale mais do que a solução em si. 

Na maioria das indústrias fora do mundo digital, o X é um produto físico. Alguém tem uma ideia, essa ideia é construída em alguma fábrica, e a maior parte do esforço vai pro marketing daquele produto finalizado. 

“Hoje, ideias são tratadas como commodities por venture capitalists e aceleradores: é possível encontrar listas com ideias de startups em que eles adorariam investir porque a execução é tudo”

Mas no mundo digital, o produto nunca está realmente finalizado. A mágica está em aprender a resolver o X repetidas vezes, dia após dia. Grandes startups não focam em soluções, e sim na resolução de problemas: tanto do “Problema” que a empresa visa solucionar, quanto os enigmas que emergem a cada dia. Sempre me perguntam qual é o segredo do sucesso do Duolingo, eu nunca responderia que foi “a ideia de criar um app gratuito de ensino de idiomas.” Qualquer um pode pensar isso, mas poucos podem se ater a isso dia após dia, problema depois de problema, trabalhando para resolver equações em vez de pegar o X, colocá-lo dentro de uma metafórica caixa bonita e vendê-lo. 

Uma das últimas tendências do Vale do Silício é o “building in public”, algo como tocar a operação com o máximo de transparência possível. Em vez de querer mostrar perfeição, startups estão compartilhando o que acontece nos bastidores, como se fossem peixes em um aquário (ou personagens do Big Brother). Isso virou piada na Latitud, porque nossas calls gravadas pelo Zoom às vezes parecem um episódio do The Office. 

Este conceito faz parte de uma tendência maior. O crescente apetite por transparência e vulnerabilidade foram gerados por milhões de fotos perfeitamente editadas no Instagram, a perda de confiança na grande mídia e nos políticos, e ao vivermos num mundo em que “deep fakes” são uma representação cômica do nosso entendimento superficial da realidade. Mas também se trata de algo estratégico: constrói a confiança do consumidor e o valor da marca. 

É uma evolução maluca sendo que, apenas 10 anos atrás, discutíamos ideias de startups em segredo. Havia esse medo de que se conversássemos sobre elas no meu escritório (o café Santo Grão da Oscar Freire), espiões à espreita poderiam roubá-las. Hoje, ideias são tratadas como commodities por venture capitalists e aceleradores: é possível encontrar listas com ideias de startups em que eles adorariam investir porque a execução é tudo. 

Mas se a execução realmente é tudo, por que tantas startups estão operando às claras, “building in public”? Ao compartilharem o processo e a execução, não estariam elas entregando tudo de bandeja? O legal é que a luta para resolver o X não pode ser compartilhada, dada, vendida ou roubada. Você pode roubar a resposta da equação em uma prova ou ver alguém resolvê-la e imitar o passo a passo. Mas se você não consegue voltar amanhã e fazer aquilo de novo com uma equação ligeiramente diferente, você só é tão bom quanto a mão que o alimenta, enquanto sua concorrência se alimenta sozinha. 

Como afirmou Peter Thiel em sua bíblia do empreendedorismo em tecnologia, o From 0 to 1, “as ‘melhores práticas’ de hoje levam a becos sem saída; os melhores caminhos são os novos e nunca trilhados.” Copie tudo o que quiser, mas se você não sabe fazer a matemática sozinho, você fracassará. 

Na verdade, essa foi uma das principais razões pela qual o Duolingo conseguiu superar seus concorrentes, como Rosetta Stone ou Babbel. Enquanto a concorrência tratou o produto de ensino de idiomas como um “X” finalizado e investiu muito em recursos de marketing e vendas, a equipe do Duolingo investiu a maior parte de seus recursos em resolver o X todos os dias, aplicando aprendizados e melhorando tudo milimetricamente. É por isso que os plagiadores não conseguiram derrubar o Duolingo mesmo ao copiarem de tudo, até os elementos de design: eles estavam pegando o X sem saber aprender com a equação, que é o mesmo que saber uma conclusão sem saber argumentar. 

Sinto que isso se aplica às nossas carreiras também, que antes eram muito mais lineares e estáticas. Sinto que tenho pouca sabedoria profunda, sendo uma “generalista”, mas confio que contanto que eu me empenhe para resolver cada X, dia após dia, as coisas darão certo. Como o estudo da filosofia me ensinou, embora boas perguntas levem a respostas, grandes perguntas revelam novas questões. 

Semana passada, fiz um post no LinkedIn que, para minha surpresa, obteve um engajamento muito alto, já que a plataforma é normalmente um lugar para gabar-se do sucesso. “Oi gente! Mais um dia de não saber o que estou fazendo e ficar fingindo até o happy hour!” 

Para todas as mais de 100 pessoas que curtiram o post: tamo junto. Continue resolvendo a matemática que tudo dará certo.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Gina Gotthilf é empreendedora e cofundadora da Latitud.com