A gente cria pra vida: o desabafo de um cientista empreendedor


Fabricio Pamplona 4 minutos de leitura

Muitas startups são geradas em um rompante de motivação quase impulsivo, assim que a gente enxerga uma oportunidade nova. Uma ideia com grande potencial abre um horizonte tão grande que parece que existe um certo “antes e depois” na nossa vida desde que a gente decide empreender.

Para quem gosta da coisa, isso gera uma identificação enorme com o processo e com seus resultados: o produto, a marca, a empresa… e por aí vai. Quando a gente veste a camisa do empreendedor e “assume a bronca”, é algo que se confunde com a nossa própria identidade. Criatura e criador se unem numa coisa só e o empreendedor se torna a própria empresa. E vice-versa.

Nesse texto, quero falar um pouco do contrário disso tudo. Quero falar de desapego.

Em tecnologia, muitas ideias morrem na praia, ou são rapidamente engolidas. Mas a criação às vezes dá certo e gera um produto que ganha vida própria. A gente se surpreende como os usuários vão surgindo, eventualmente se tornando clientes e gerando um relacionamento contínuo. Subitamente, esse produto lançado já não é mais “seu”. Ele é um pouco dos clientes também. Dizem, o caminho do sucesso é justamente esse: conseguir enxergar seu produto pelos olhos de quem o consome.

Tenho uma carreira que mescla aspectos de ciência e de empreendedorismo. Ao longo do tempo, fui me especializando em conseguir:

1) colocar ideias no papel, transformando-as em bons projetos; e

2) dar vida aos projetos, fazê-los literalmente sair do papel e ganhar o mundo.

A principal diferença entre fazer isso como cientista e como empreendedor é que, no primeiro caso, a gente cria um projeto para satisfazer uma curiosidade e avançar o campo do conhecimento, eventualmente encontrando uma utilidade (ou não).

Subitamente, o produto já não é mais seu, é dos clientes também.

Já no segundo, como empreendedor, a utilidade é o cerne da questão. Precisamos realizar um processo criativo tentando se colocar no lugar do outro, de quem vai usar aquela “coisa”, encontrando uma necessidade tão profunda que as pessoas queiram pagar para satisfazê-la.

DIFÍCIL DESAPEGO

Mais recentemente, tive que me acostumar com a ideia de os projetos ganharem vida própria ao atingir a maturidade e realizei meu primeiro “exit“. No nosso caso, assim como na maioria das vendas, o fundador continua ligado à empresa por algum tempo, mas já não é mais quem apita o jogo.

O desapego necessário é ainda maior, talvez semelhante ao pai que observa um filho adolescente saindo de casa, mudando de cidade para ir para a faculdade. Você ainda está lá, participa, mas não tem total controle e sabe que, inevitavelmente, haverá desdobramentos que podem fugir da sua “concepção original”.

Vivi esse distanciamento de diferentes formas. Já participei de empresa que não conseguiu encontrar mercado, empresa que não parou de pé financeiramente e quebrou, e até minha própria empresa, que deixei “on hold” por um tempo, para me dedicar a outro projeto.

Empreendedorismo, quando dá certo, é um parto. Quando dá errado, é um luto.

Sempre é difícil, rola uma choradeira, parece que um pedaço nosso é arrancado do corpo e no outro dia gera uma ressaca braba. A gente sempre pensa no que poderia ter feito de diferente. Mas o tempo nunca volta atrás, então, arrependimentos não adiantam de nada, a não ser para fazer de outra forma no futuro.

Empreendedorismo, quando dá certo, é um parto. Quando dá errado, é um luto. Em ambos os casos, é necessário praticar o desapego, deixar rolar, para que a gente possa aprender e crescer com as experiências. Na alegria e na tristeza, o segredo de empreender é saber que a gente não cria para satisfazer a si mesmo, a gente cria para a vida.

EMPREENDEDORISMO COMO CARREIRA

Sou um incorrigível apaixonado pelo processo de criar. Descobri no empreendedorismo uma forma de conciliar o ímpeto “investigativo” com a necessidade da realização de fazer algo mais palpável. Para os colegas cientistas, me tornei uma espécie de referência por ter decidido não realizar um concurso “dos sonhos” (12 anos atrás) e enveredar pela iniciativa privada.

Agora, ganhando um pouquinho mais de experiência, com os altos e baixos da carreira, uma das minhas bandeiras é ajudar outros cientistas a despertarem para o potencial do empreendedorismo como carreira. O maior exercício é trocar a satisfação do ego gerada pela curiosidade científica pela realização de algo maior, que transcende a nós mesmos.

Exige empatia e desapego para criar com os outros e para os outros. Uma empresa bem estruturada se apoia na visão do empreendedor, mas toma forma em mãos alheias (o time) e, se tudo der certo, ganha vida própria. Aí é que o bicho pega e a gente descobre se o negócio foi construído sobre bases realmente sólidas.

No meu caso, é tudo muito recente, então, logo mais saberemos a verdade. Minha primeira filhota acabou de sair de casa para ganhar o mundo e ainda dá um frio danado na espinha pensar qual será o meu papel depois de virar essa página.


SOBRE O AUTOR

Cientista e empreendedor brasileiro, Doutor em Farmacologia e referência brasileira no uso medicinal de derivados da Cannabis. É funda... saiba mais