A partir deste mês começarei a trazer convidadas para co-criar essa coluna comigo. Quero que vocês conheçam alguns nomes que são referência para mim e ampliar esse networking. Nesta primeira edição, convidei minha referência em controles internos, riscos e gestão de crises, uma gestora experiente, membro da primeira turma do Conselheira 101 e a pessoa que eu vou ligar no dia que eu for cancelada (esse dia sempre chega!): Viviane Elias Moreira. Fizemos uma mescla de três temas que parecem não se encaixar, mas sob uma ótica de governança corporativa, vocês verão que tudo acaba fazendo sentido. Bora lá?

Viviane Elias e Lisiane Lemos (Crédito: Paulo Barros)

 

Começando pelas três letras que são o “must to have” de 99% das empresas no Brasil, o ESG, que ocupa em maior ou menor destaque em todas as lives corporativas desde o ano de 2020. Prometemos que não falaremos mais do mesmo neste texto, afinal, o nosso destaque será somente sobre uma dessas letrinhas-mágicas-que-prometem-mudar-o-mundo atual. Vamos falar sobre a Governança sob uma ótica de praticidade, dia a dia, pautado nas nossas experiências executivas. Sim meus caros, a famosa G que em muitas situações é tratada com um assunto de segundo plano e é aí que moram os riscos e seus impactos. 

Governança está em tudo, confie em nós. Pode parecer que não encaixa, mas prometemos que ao final vai fazer sentido. Exemplo prático:

Variável 1 – A inflação impactando o custo de vida da população mais vulnerável do Brasil em 2021 (segundo o IPEA no mês de Agosto de 2021, a inflação dos mais pobres ficou acima dos mais ricos pelo 4º mês seguido), porém a oferta de crédito também aumentou neste mesmo  período, com juros mais altos. 

Variável 2 – Agora visualize a seguinte cena: uma pessoa que neste momento se encontra sem condições financeiras para o básico (alimentação, água, luz e moradia), recebe um contato de uma empresa oferecendo um crédito adicional para sanar suas dívidas. Quais são as reais chances desta pessoa aceitar este crédito proposto?

Variável 3 – Em julho deste ano, entrou em vigor a Lei Federal nº 14.181/2021, conhecida como Lei do Superendividamento, oferecendo uma solução para consumidores que estão com a sua renda total ou em grande parte comprometidas com pagamentos de empréstimos, financiamentos, limites de créditos e cartões de crédito.

Gran finale! –  Finalize a cena imaginando o quanto de problemas sua empresa poderia ter em oferecer um simples produto para essa cliente, sem antes dar uma olhada nos detalhes desta nova Lei?

A linguagem complicada, a falta de transparência e a insistência do atendente (que tem uma meta super agressiva) podem ser fatores chaves para estimular o aceite do seu produto e, sim, você pode até estar pensando: “Não brigue com o jogador e sim com o jogo!”. Mas até os jogos mais agressivos precisam de limites relacionados à ética. E neste ponto do jogo em que a governança aparece como diferencial, seguindo a analogia anterior, eu diria que funciona mais ou menos como o Lebron James naquela última final da NBA: diretiva, certeira, justa, ética e comprometida para o sucesso do grupo.

Nesse contexto, a governança corporativa é base para uma correta implantação de todos os pilares de ESG em qualquer organização. Não há sucesso em implantar pilares para o social e para o ambiental se a sua governança não estiver estruturada. Ter uma governança que pensa a organização como um todo, a partir de um conselho cognitivamente diverso, construindo políticas que permeiam todas as camadas da operação, permite ter um destino diferente do comum em situações como as que apresentamos.

Governança não tem que ser opcional, mas sim parte da conjugação das rotinas diárias de todas as áreas da sua empresa, não importa o tamanho ou o seu segmento de atuação. Uma correta governança permite, por exemplo, que você conheça os riscos (incluindo os riscos emergentes) que poderão impactar os seus negócios em curto, médio e longo prazo. 

Um outro exemplo voltado para as startups que acreditam que não precisam implantar estruturas de governança viáveis para o seu negócio e que governança é assunto somente para grandes empresas: lembram-se da onda de alguns anos atrás dos patinetes como solução de mobilidade nos grandes centros? Porque será que não existem mais? Será que os riscos financeiros, legais, operacionais e de pessoas foram corretamente tratados? A ausência de estrutura da governança de forma transparente, amplamente divulgada e ética pode ter afetado esse segmento? Não seria um belo exemplo para refletir de startup atuante como ESG, mas que aplicou somente o E e o S e não teve qualquer ação para o G?

No final das contas, vemos muitas startups se jogando, criando coisas absurdamente legais, mas não vemos essas jovens empresas falando de riscos, sobre ter uma estrutura que seja sustentável.

Segundo o IBGC os princípios da governança corporativa são transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa. Ora, ora se não é o que estamos reforçando em nossas visões, valores e indicadores quando falamos sobre a importância do ESG em nome das nossas empresas. Viu, outra visão sobre o tema, como prometemos no início.

Não espere um momento especial para se atualizar sobre os temas que trouxemos neste artigo. A governança corporativa é aliada para desenvolver processos éticos em todas as camadas da empresa e evitar riscos, independente se a companhia em questão é pequena ou grande. É, de fato, um trabalho de formiguinha, mas contamos com vocês para que a Governança se torne o alicerce  de toda a revolução que está em andamento com o Social e o Ambiental. E quem sabe no futuro, mais uma letrinha se junte a elas para a continuidade deste mundo BANI que está sendo desenhado a partir de 2022 e já está aí… logo aí.

SOBRE A AUTORA

Lisiane Lemos é advogada, cofundadora do Conselheira 101 e gerente de novos negócios para agências no Google.