A neurociência do voto

O perigo de se explicar uma eleição dizendo que milhões de pessoas são simplesmente burras, más ou ignorantes

a neurociência do voto
Créditos: Adobe Stock/ Magnific

Aida Leal 3 minutos de leitura
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Como é que, depois de TUDO o que aconteceu no Brasil nos últimos anos, o bolsonarismo continua conseguindo mobilizar milhões de pessoas?

“Ah, Aida, é porque esse povo é burro.”

Não.

E se você acha que a explicação é essa… tenho uma notícia desagradável:

seu cérebro provavelmente é muito mais manipulável do que você imagina também. 

Porque política não entra no cérebro só pela razão.

Ela entra pela identidade, pelo medo, pela memória, pelo pertencimento e pela previsão.

E é aí que a coisa fica interessante.

AMEAÇA E INCERTEZA

Nosso cérebro é uma máquina de previsão.

Ele está o tempo inteiro tentando responder:

“o que está acontecendo?”

“o que vai acontecer depois?”

“e o que eu faço para continuar seguro?”

Quanto maior a incerteza percebida, maior pode ser nossa necessidade de encontrar explicações que organizem o caos.

Aí chega uma narrativa política e diz:

“Eu sei qual é o problema.”

“É esse grupo.”

“É essa ideologia.”

“É esse partido.”

“É esse inimigo.”

Pronto.

Você pegou um mundo absurdamente complexo e transformou em uma história com começo, meio e culpado.

O cérebro:

FINALMENTE UM PDF DE UMA PÁGINA. 

Só que reduzir incerteza não significa necessariamente compreender a realidade.

Às vezes significa apenas encontrar uma explicação emocionalmente satisfatória.

IDENTIDADE

Agora vem a parte mais importante.

Depois de certo ponto, política deixa de ser somente:

“eu concordo com esse candidato.”

E vira:

“essas são as pessoas como eu.”

Isso é identidade social.

Nós organizamos o mundo em grupos.

Nós.

Eles.

Meu grupo.

O outro grupo.

E quando uma crença passa a fazer parte da identidade, apresentar um fato contrário a ela nem sempre produz:

“Hmm… interessante. Vou reconsiderar.”

Às vezes produz:

“VOCÊ ESTÁ ME ATACANDO.”

Porque você não está mais questionando uma informação.

Na experiência daquela pessoa, você está questionando quem ela é, a família dela, a religião dela, os amigos dela, o grupo ao qual ela pertence.

E isso não é exclusividade da direita.

Seu cérebro de esquerda também veio com esse aplicativo instalado de fábrica, meu amor.

AVERSÃO À PERDA

E existe outra coisa importantíssima: aversão à perda.

Nós somos extremamente sensíveis à possibilidade de perder aquilo que consideramos importante.

Então uma campanha não precisa convencer alguém:

“minha proposta é maravilhosa.”

Ela pode convencer:

“se o outro ganhar, você vai perder alguma coisa.”

Sua segurança.

Seus valores.

Sua família.

Sua liberdade.

Seus direitos.

Seu dinheiro.

Seu país.

Percebe a mudança?

A eleição deixa de ser:

“quem eu quero?”

e vira:

“quem eu preciso impedir?”

Medo é um excelente sequestrador de atenção.

Isso não significa que a pessoa perdeu completamente a capacidade racional.

Significa que ameaça percebida passa a pesar muito naquilo que ela considera relevante.

FAMILIARIDADE

E ainda existe a familiaridade.

Um sobrenome, um slogan, uma bandeira, uma música, uma frase repetida 10 mil vezes…

Tudo isso cria memória.

E familiaridade importa.

O cérebro não pergunta apenas:

“isso é verdade?”

Ele também responde a:

“eu já vi isso antes?”

E cuidado: familiaridade não transforma mentira em verdade.

Mas repetição pode aumentar a sensação subjetiva de verdade de determinadas afirmações – um fenômeno estudado na psicologia cognitiva como illusory truth effect (efeito da verdade ilusória).

Basicamente:

“já ouvi isso tantas vezes que parece certo.”

O algoritmo:

excelente. Mais 47 vídeos iguais. 

SÉRIO

Por isso eu acho perigoso explicar uma eleição dizendo que milhões de pessoas são simplesmente burras, más ou ignorantes.

Primeiro porque não é ciência.

Segundo porque impede a gente de entender o fenômeno.

E terceiro porque cria exatamente aquilo que alimenta a polarização:

“nós somos os inteligentes. Eles são os idiotas.”

Parabéns.

Você acabou de demonstrar identidade de grupo enquanto tentava explicar identidade de grupo. 

Democracia exige uma coisa neurologicamente difícil:

conseguir sentir pertencimento sem entregar o pensamento crítico ao grupo.

Perguntar:

“Eu acredito nisso porque existem boas evidências…

ou porque acreditar nisso mantém meu lugar entre as pessoas que considero minhas?”

Porque propaganda política funciona melhor quando você consegue enxergar a manipulação do outro…

e nunca percebe a sua.


SOBRE A AUTORA

Aida Leal é neurocientista comportamental, neuroterapeuta, palestrante e criadora de conteúdo. Estuda como experiências moldam o céreb... saiba mais