A profecia autocumprida do YouTube sobre as tendências no jornalismo

Como confiar em um ranking de confiança no qual um ator do mercado cria o critério, compara os concorrentes e ao final ganha a melhor avaliação?

YouTube e as tendências do jornalismo
Créditos:: Collabstr/ Hojojenks V/ Getty Images

Rose Marie Santini e Marcio Borges 6 minutos de leitura

Na coluna anterior tratamos da queda de confiança no jornalismo a partir dos dados do Reuters Oxford Digital News Report 2026. Conforme prometido, chegou a hora da segunda parte da análise.

Desta vez, o foco é outro fenômeno ao qual o relatório dedica um espaço importante: a transformação radical na forma como as pessoas consomem jornalismo.

Segundo o estudo, o jornalismo na televisão aberta está perdendo audiência a passos largos, enquanto o YouTube se consolida como o principal espaço onde grande parte do público passa a buscar notícias em formato audiovisual.

Mas como esses dados foram produzidos? E o que esse fenômeno significa para o futuro do jornalismo? Isso é o que vamos discutir a seguir. 

A conclusão do estudo sobre notícias em formato de vídeo online merece discussão. O relatório argumenta que, pela primeira vez, mais da metade dos entrevistados consome notícias em formato de vídeo online em todos os 48 mercados pesquisados (77% em média), superando a TV aberta em 45 países.

Esse crescimento, no entanto, acontece quase todo em plataformas que reproduzem conteúdo de terceiros – como YouTube, TikTok e Instagram – e chama atenção o destaque dado especificamente ao YouTube.

O relatório dedica um capítulo inteiro a esse tipo de consumo para concluir que o YouTube passa a ser a grande tendência emergente de consumo noticioso, descrevendo-o como um destino "intencional" de busca por notícias – ao contrário de TikTok e Instagram, onde o consumo seria majoritariamente "incidental".

o YouTube decide, por meio de seu algoritmo opaco, quais canais terão mais audiência e visibilidade.

O relatório também ressalta o apetite do público, inclusive jovem, por vídeos mais longos, típicos do YouTube, em contraste com o formato curto predominante nas demais redes.

Esse destaque não pode ser lido sem qualificação. Entre os patrocinadores que financiam o Digital News Report estão o próprio YouTube e o Google News Initiative (ambos da Alphabet/ Google), o que configura um conflito de interesse relevante quando o estudo elege justamente essa plataforma como a "nova grande tendência" do jornalismo digital.

O problema já havia sido sinalizado em 2023 pela jornalista filipina Maria Ressa, vencedora do Prêmio Nobel da Paz, que integrou o conselho consultivo do Reuters Institute. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Ressa revelou ter renunciado ao conselho no ano anterior por diferentes motivos, e entre eles estava justamente o fato de o relatório ser financiado pelo Google sem que isso fosse devidamente ponderado na análise.

Passados três anos, o episódio segue como um alerta: ao posicionar o YouTube como o grande vencedor da era do vídeo digital –justamente uma das empresas que financiam a pesquisa –, é importante que leitores, jornalistas e agentes do mercado leiam esses achados também com olhar crítico.

É preciso ter claro quem está financiando a produção do conhecimento sobre a confiança e o futuro do jornalismo, influenciando estratégias editoriais e publicitárias no mundo todo.

JORNALISMO, AUDIÊNCIA E CONFIANÇA

Por fim, vale destacar o caso concreto do Brasil, que ilustra bem essa tensão entre os achados do relatório e os interesses de quem o financia. O Digital News Report 2026 entrevistou cerca de 2000 brasileiros online, usando uma amostra por conveniência sem representatividade estatística.

O resultado aponta a CNN Brasil como a marca jornalística que passa a ter o maior nível de confiança entre os brasileiros – um dado que, à primeira vista, soa como reconhecimento do trabalho editorial do canal.

Mas um estudo do NetLab, da UFRJ, publicado em setembro de 2025, oferece uma informação importante para a leitura desse resultado. Pesquisadores do NetLab monitoraram a recomendação de notícias na aba "Principais Notícias" do YouTube Brasil, que não é personalizada e direciona os usuários às mesmas notícias em todo o país. Fizemos coletas automatizadas e analisamos 597 mil recomendações de conteúdo na plataforma por mais de um mês.

Reuters Digital News Report 2026

O resultado mostra um padrão assimétrico de recomendação, com critérios pouco transparentes, que privilegiava sistematicamente alguns canais em detrimento de outros, no qual a CNN Brasil aparece repetidamente no topo da lista dos canais mais recomendados.

É importante deixar claro que a CNN Brasil integra o Google News Initiative – o mesmo programa de parcerias comerciais e editoriais que o Google mantém ao redor do mundo, e que financia o relatório da Reuters/ Oxford.

Portanto, o YouTube decide, por meio de seu algoritmo opaco, quais canais terão mais audiência e visibilidade, e paralelamente financia pesquisa e relatórios que registram esse sucesso como se fosse fruto exclusivo da qualidade editorial ou da confiança conquistada pela marca frente ao público. 

Também chama atenção o fato de que o canal apontado pelo Digital News Report como o mais confiável do Brasil é, na prática, um dos menos assistidos na TV linear do país.

QUEM DEFINE OS CRITÉRIOS?

Segundo o Levantamento da Kantar Ibope Media de 2025, dentre os cinco canais de notícias 24 horas do país – GloboNews, CNN Brasil, Record News, BandNews e Jovem Pan News –, a GloboNews lidera com folga, com uma audiência pelo menos quatro vezes maior que a do segundo lugar, onde se encontram empatadas CNN Brasil, Record News e Jovem Pan News, com uma audiência residual de 0,03 ponto cada. 

Como explicar que tão poucos espectadores na TV se traduzam em tanta confiança declarada nas pesquisas? Duas hipóteses emergem, porém não são excludentes.

É preciso ter claro quem está financiando a produção do conhecimento sobre a confiança e o futuro do jornalismo.

A primeira é que essa confiança reflete sobretudo o consumo do conteúdo da CNN Brasil fora da TV linear – primordialmente no YouTube, onde o canal é privilegiado pelo algoritmo de forma desproporcional, como mostra o estudo do Netlab mencionado.

A segunda hipótese é mais esdrúxula e teria que considerar que a confiança não é mais um critério de escolha para o consumo de notícias, como indagamos no artigo anterior, mas corresponde a um argumento que precisa ser melhor estudado. Ou seja, é preciso explicar por que as pessoas consumiriam menos os canais de TV com mais credibilidade e vice-versa. 

Juntando as duas hipóteses, o descompasso entre audiência e ranking de credibilidade sugere que o que chamamos de "confiança do público" pode estar sendo moldado por decisões de recomendação estrategicamente definidas pelo algoritmo do YouTube, porém impossíveis de serem auditadas por qualquer agente externo à plataforma.

Leia também: Consumimos mais jornalismo sem confiar ou perdemos a capacidade de medir confiança?

Por fim, fica a pergunta que todo leitor, mas também jornalistas, publicitários e diferentes atores do mercado de comunicação deveriam se fazer diante desse tipo de dado: como confiar em um ranking de confiança no qual um ator do mercado cria o critério, compara os concorrentes e ao final ganha a melhor avaliação?

Será que estamos diante de uma profecia autocumprida sobre o jornalismo?


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Rose Marie Santini é fundadora e diretora do Laboratório de Estudos da Internet e Redes Sociais da UFRJ (NetLab) e Marcio Borges é pes... saiba mais