Completamos 1 ano de pandemia no Brasil. Nem em nossos piores pesadelos imaginávamos passar tanto tempo vivendo uma realidade que mais parece distopia de um filme de ficção científica digno de Oscar.

A pandemia alterou as regras do jogo no mundo dos negócios, o movimento Black Lives Matters deu um choque de realidade para muitos brasileiros e surgiram cada vez mais discursos de que pessoas que ficaram desempregadas são empreendedoras.

Eu sei que afirmar que a próxima geração não vai ser de líderes parece trágico. Mas podemos mudar essa perspectiva começando agora, e isso só é possível coletivamente.

Trago duas observações para co-criarmos soluções:

PESSOAS NÃO SÃO RECURSOS, CONSUMIDORES SÃO PESSOAS E INTERNET É UM DIREITO HUMANO

As empresas utilizam um termo bélico chamado “público-alvo” ao se referirem às pessoas que gostariam de “atingir”. Essa linguagem mostra exatamente a mentalidade de enxergar pessoas exclusivamente como recursos e consumidores que devem ser alvejados.

Porém, na pandemia as pessoas estão morrendo, sobretudo as maiorias silenciadas, que são mulheres e negros.

Quando a gente enxerga que o consumidor é uma pessoa que tem sentimentos, dores, anseios, posicionamento político, empatia, apatia, a gente entende que na pandemia essa complexidade foi elevada ao quadrado. E se continuarmos reduzindo as complexidades do mundo a 30 segundos de campanha publicitária, isso nos mostra como paramos no tempo.

Além disso, em 2011 a Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou que acesso a internet é um direito humano. Passamos 9 anos ignorando este fato, até que o acesso à internet e às tecnologias digitais promoveram inclusão financeira. O que quero dizer é que o acesso ao Auxílio Emergencial do Governo Federal, os R$ 600,  só foi possível para quem tinha um celular ou computador com acesso à internet para dar entrada no pedido do auxílio.

Sem contar que o direito humano à internet é também o direito à educação. Não à toa, estudantes de escolas públicas, com a ausência da internet, perderam o direito a educação.

Pensando em entretenimento, as lives de grandes artistas não chegaram para todo mundo. Afinal, os clientes com plano de pré-pago ganham um pacote de dados que diz exatamente o que eles podem utilizar sem gastar seus dados. Geralmente são redes sociais como Facebook e WhatsApp — e não YouTube e Instagram onde as lives acontecem.

Esse olhar atento para a internet como direito humano é essencial para termos caminhos e diferentes ações para tomadas de decisões das grandes empresas.

EMPRESAS QUEREM OS MELHORES TALENTOS, MAS NÃO SE RESPONSABILIZAM POR DESENVOLVÊ-LOS

Após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, muitas empresas assumiram compromissos públicos relacionados à luta antirracista. Grandes metas foram divulgadas.

Porém, sinto informar que, de acordo com a avaliação da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia, as consequências do fechamento de escolas durante a pandemia pode durar 15 anos,  impactar diretamente o Produto Interno Bruto (PIB) e no aumento das desigualdades. Sabemos que as desigualdades afetam diretamente pessoas negras, mulheres, periféricas e suas múltiplas intersecções.

Quando olhamos para o Ensino Superior, em outubro de 2020 foi realizada uma pesquisa pela Semesp (Associação Profissional das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo) destacando que 608 mil alunos desistiram ou trancaram matrícula no ensino superior durante o 1º semestre 2020, o que significa uma taxa de evasão de 10,1%. E esse número só aumenta.

Estamos falando que não teremos a próxima geração de líderes quando o assunto é conseguirmos alcançar metas de mais mulheres e mais negros em cargos de liderança nas empresas. Ainda assim, insistindo numa visão míope de não responsabilidade pelo desenvolvimento profissional de milhares de pessoas.

CAMINHOS POSSÍVEIS

Diante desse cenário, é possível:

● Garantir que as áreas de RH e responsabilidade social tenham o mesmo dinheiro que as áreas de marketing e branding.

● Investir e apoiar iniciativas e negócios de impacto social para acelerar o desenvolvimento pessoal e profissional desses estudantes;

● Garantir que as ações estratégicas das empresas sejam alinhadas com a realidade dos territórios onde atuam.

● Sair da lógica de que empresas do mesmo segmento são unicamente concorrentes e exercer a cooperação.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Monique Evelle é empresária, ativista, criadora do Desabafo Social e sócia da Sharp.