A transição climática não vai esperar o setor público sozinho

Na primeira São Paulo Climate Week o setor privado mostrou que está disposto a se colocar no centro da conversa climática com métricas

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Créditos: Nuttapong Punna/ Svitlini/ Adobe Stock/ Mark Stuckey/ Unsplash

Luana Ozemela 4 minutos de leitura
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São Paulo acabou de sediar sua primeira Climate Week e isso, por si só, já é notícia. Por anos, a cidade que concentra a maior economia da América Latina assistiu de fora a um formato que Nova York, Londres e Cingapura já haviam consolidado. O dado mais relevante, no entanto, é quem liderou a conversa quando ela finalmente chegou.

O centro do palco não ficou com ministérios e organismos multilaterais, mas com o setor privado, empresas de tecnologia, logística, energia e varejo assumindo, com desconforto declarado, que não é possível terceirizar a transição climática para quem não tem a escala, a velocidade ou os dados para executá-la. Essa inversão importa e é sobre ela que quero falar.

Durante muito tempo discutimos clima, inclusão social e tecnologia como itens concorrentes de uma mesma lista de prioridades corporativas. Resolva um, depois passe para o próximo. A experiência de operar uma plataforma que conecta milhões de pessoas todos os dias me ensinou o contrário.

As transições social, climática e tecnológica não competem entre si porque não são independentes. Uma empresa de tecnologia que mexe com mobilidade urbana é impactada simultaneamente pelas mudanças climáticas, pela pressão por inclusão produtiva e pela velocidade da própria inovação que ela ajuda a criar.

Resolver as três junto deixou de ser opção e passou a ser a única forma de resolver alguma delas bem.

É esse o ponto que a São Paulo Climate Week tornou impossível de ignorar. O setor privado deixou de ocupar a posição de espectador que financia a pauta climática de fora. Passou a fazer parte da engrenagem, porque é quem desenha as rotas, os incentivos, os produtos e cada vez mais os próprios limites do que é aceitável fazer em nome do crescimento.

Essa mudança de posição levanta uma pergunta prática, sobre por que essa responsabilidade recai sobre empresas e não apenas sobre governos.

Reguladores definem o teto. Quem decide no dia a dia se uma frota vai ser eletrificada, se uma rota vai evitar áreas de risco, se um pequeno negócio vai ter acesso a crédito para crescer de forma sustentável são as empresas que operam a infraestrutura invisível da vida urbana contemporânea. É nelas que a transição climática deixa de ser intenção e vira operação.

Montagem mostra a Ponte Estaiada e prédios de São Paulo cobertos por folhas, em referência à agenda climática da cidade.
Crédito: Divulgação/ SP Climate Week

Isso exige um deslocamento de mentalidade que a maioria das lideranças ainda não fez. Sustentabilidade precisa deixar de ser tratada como departamento e passar a funcionar como forma de governar.

Na prática, isso significa guardrails, limites explícitos, monitorados, com mecanismos de correção, para decisões de negócio que hoje ainda dependem da boa vontade de quem está na sala.

Significa também reconhecer que investir em infraestrutura pré-competitiva, como fundos que estruturam toda uma cadeia de mobilidade elétrica em vez de proteger vantagem individual, é decisão estratégica.

As transições social, climática e tecnológica não competem entre si porque não são independentes.

E significa medir. Uma frota de entrega carbono zero só é conquista quando vem acompanhada do número de quilômetros evitados, do investimento mobilizado, dos empregos formalizados. Sem mensuração, impacto vira boa intenção com boa imprensa.

Medir, porém, resolve apenas parte do problema. A outra parte é garantir que os resultados dessa transição não recaiam de forma desigual sobre quem já tem menos margem para absorver o custo da mudança.

O termo "transição justa" tem sido repetido com uma facilidade que às vezes esvazia seu significado. Ele descreve algo concreto, a certeza de que a urgência climática não pode ser resolvida às custas de quem já está mais exposto à precariedade econômica.

Uma transição justa precisa ser desenhada nos incentivos, nos dados, na governança e no produto, para proteger renda, segurança e oportunidade ao mesmo tempo em que reduz emissões.

O setor privado tem uma vantagem que raramente é discutida nesses termos. Tem acesso a dados de comportamento em tempo real, capacidade de testar mecanismos em escala e velocidade de iteração que nenhuma política pública consegue igualar.

Essa vantagem carrega uma responsabilidade proporcional. Se as empresas que movem milhões de pessoas todos os dias não usarem essa capacidade para redesenhar como o crescimento acontece, ninguém mais vai fazer isso no ritmo que o problema exige.

A primeira São Paulo Climate Week vai ser lembrada menos pelo que foi dito nos painéis e mais pelo precedente que estabeleceu, o de que o setor privado brasileiro está disposto a se colocar no centro da conversa climática com métricas. E o risco de sempre é o entusiasmo do lançamento virar mais um ciclo de comunicação institucional sem mecanismo de cobrança.

A diferença entre essa semana ter sido um evento ou um ponto de inflexão está no que as empresas que passaram pelo palco decidirem fazer nos próximos 12 meses, se vão transformar compromissos em decisão de orçamento ou deixar que a urgência esfrie assim que as luzes do evento se apagarem.

Por isso, a pergunta que fica não é se o setor privado brasileiro quer liderar essa pauta. Essa semana respondeu isso. A pergunta é quantas dessas empresas vão transformar o que disseram no palco em guardrail antes do próximo ciclo de resultados.


SOBRE A AUTORA

Luana Ozemela é diretora de sustentabilidade do iFood. saiba mais