A vida presta, mas não basta

Em tempos de relações sintéticas, como a arte e a cultura podem nos ajudar a “acabar com o Brasil”

cultura brasileira representada por um instrumento de percussão
Crédito: Marcio Pannunzio/ Getty Images

Mariana Ribeiro 2 minutos de leitura

O historiador, professor, escritor e compositor Luiz Antônio Simas – de quem tive a sorte de ser aluna – articulou há alguns anos uma ideia impossível de ignorar: o Brasil já deu certo. 

Longe de nostalgia por tempos gloriosos (via de regra baseada em um "passado passado a limpo"), Simas propõe que o projeto de Brasil foi, sim, bem-sucedido naquilo que se propôs desde que as primeiras caravelas aqui ancoraram.

Ele fala de um Estado-nação alicerçado na exclusão, exploração, privilégio, opressão e violência. Um projeto de quase 526 anos que funcionou – e segue funcionando. 

Mas às margens deste projeto surge o que ele chama de "brasilidade": a vida cultural forjada neste território a partir de remixagens múltiplas, que inventa sentidos e modos de vida através de festas, crenças, artes, corporeidades e sabedoria popular.

Essa força vital reage ao projeto institucional e produz pertencimento, possibilidade e comunidade justamente onde o "Brasil oficial" exclui e oprime. 

Neste sentido, Simas defende que "só o que pode nos salvar do Brasil é a brasilidade". A cultura popular, nas suas diversas expressões, funciona como tecnologia de "segurar a vida", instrumento de subversão e exercício de cidadania.

É através dela que se abre a possibilidade de ensaiar e produzir novos imaginários de um "Brasil possível", ancorado por outros sistemas simbólicos e de valores, capaz de produzir uma sociedade mais igualitária, justa, solidária e diversa. 

Imbuída da força dessa provocação, fui mergulhar na brasilidade. Me inscrevi em aulas de percussão que desembocaram em um bloco de carnaval. Passei os últimos anos estudando congo de roda, jongo, cavalo marinho, bossa, coco, ijexá, maracatu, samba. Pelas minhas mãos passaram timbal, agogô, ganzá, djembe, tamborim, xekerê e alfaia.

soft power brasileiro no mundo
Créditos: Jupiter Images/ dabldy/ Elen11/ via Getty Images/ Telescópio Espacial Hubble/ NASA/ Unsplash

Através da música, me aproximei das religiões de matriz africana. Aprendi sobre o tambor enquanto elo entre os mundos material (ayê) e espiritual (orum). A música me apaixonou pelo Brasil – digo, pela brasilidade e pela possibilidade de usá-la para não apenas revelar, mas reinventar esse país. 

Vivemos tempos de relações cada vez mais mediadas por algoritmos, de interações sintetizadas por inteligências artificiais, de bolhas polarizantes que nos afastam uns dos outros. “A arte existe porque a vida não basta”, dizia Ferreira Gullar, e é justamente na encruzilhada entre o pensamento dele e de Simas que vejo surgirem respostas. 

A cultura popular, nas suas diversas expressões, funciona como instrumento de subversão e exercício de cidadania.

A brasilidade – com sua insistência no encontro, na roda, no corpo presente, na festa como tecnologia de convivência – é insurgência.

Enquanto o projeto de Brasil segue apostando na segregação e no individualismo como motores de “progresso” e "desenvolvimento", a cultura popular nos lembra que existe outro caminho possível: um que passa pelo terreiro, pelo bloco, pela roda de samba, pelos saberes ancestrais que nos ensinam que nenhum de nós se salva sozinho. 

A brasilidade não é matéria de museu. É método. E talvez seja a única força capaz de nos reconectar com o que realmente importa quando até nossas relações correm o risco de virar produto, código, dado. Para a vida prestar, ela não pode bastar. E a cultura nos mostra exatamente onde procurar.


SOBRE A AUTORA

Mariana Ribeiro é executiva, estrategista de impacto e comunicadora com mais de 10 anos de experiência na liderança de projetos e camp... saiba mais