Atendendo indiretamente mais de 10 mil clientes de indústrias plurais – de siderúrgicas a bancos, de empresas familiares a multinacionais, vi mais vezes do que posso imaginar empresas acreditando que a criação de um app, ou a implementação de um sistema seriam a salvação para seus números. Delegavam aos parceiros a habilidade criativa, não reservavam orçamento para mudanças culturais necessárias e ficavam reféns de um entendimento do que sempre discordei, de que empresas de tecnologias são somente os grandes players.

Lisiane, mas por que você discorda?

Porque a tecnologia é um meio. Ela libera o potencial humano, ou, de uma maneira mais popular, automatiza as partes chatas da nossa vida e libera tempo para que possamos cuidar do que nos interessa, seja oferecer soluções personalizadas para o cliente dando aquele toque humano, seja para desenvolver um relatório e apresentar soluções de forma consultiva.

Toda empresa será uma empresa de tecnologia. Pode ser pelo uso de dados como patrimônio estratégico, pode ser por meio do atendimento ao cliente, ou mesmo através da automação da capacidade fabril.

Na introdução de um dos meus livros favoritos, The Technology Fallacy – How People Are the Real Key to Digital Transformation, mesmo sem saber, os autores falam do momento que estamos vivendo, um ciclone de transformação digital, ou aumento da maturidade digital. O ponto é: estamos em um momento em que o digital ganhou muita relevância. De um dia para o outro nos vimos trabalhando 12-14h em frente a uma tela, a representatividade dos e-commerces para algumas empresas saltou de 6% para 70%. Entretanto, não criamos um comportamento novo adequado ao digital, apenas transformamos em online comportamentos off-line.

Quanto a esse último ponto, te incito a refletir sobre: você manteve suas reuniões com a mesma periodicidade e duração das presenciais? Retirou os almoços que eram boas opções de networking porque agora tem de cozinhar? As reuniões de feedback deixaram de ser espontâneas e se tornaram um comportamento forçado próximo à análise de performance? Quantas reuniões você já teve de remarcar porque seu filho ficou doente, a sua faxineira faltou, um vazamento aconteceu, o que só mostrou que você não tem intervalo ou espaço para essas novas atividades?

A meu ver, as empresas que se diferenciarão serão aquelas que colocarão a tecnologia em todos os pontos da cadeia, construirão momentos propensos a colaboração (e não ambientes, porque estamos sobrecarregados).

Ok Lisi problematizadora, como eu saio desse lugar?

Tecnologia sempre será sobre aliar análises de dados ao que você ouviu do cliente, interno, externo ou consumidor. O quanto você tem investido não para pagar pesquisas, mas para realmente ouvir seu cliente sobre os problemas que os afligem? Focus group, consultoria, ou mesmo uma experiência pessoal de usabilidade? In god we trust, all the rest bring me data é um norte pra mim, mas dado sem curadoria e interpretação adequada ao seu mercado não tem serventia.

Tecnologia sempre será sobre arriscar. E antes que você ache que arriscar é ruim, atravessar a rua oferece risco. Como diz minha amiga e especialista em gestão de riscos Viviane Moreira, o que você não deve é ignorar a existência dos riscos. Tudo começa com entender quais os caminhos possíveis se essa possibilidade se realizar. Você tem tempo reservado para desenvolver novas soluções? Sua equipe tem tempo de respiro? Lembro da época em que fazíamos hackathons toda semana. Saudades. Como podemos viver novas experiências?

A tecnologia sempre será sobre colaboração entre pessoas. Essa semana li um artigo interessantíssimo sobre os danos mentais por estarmos em frente a uma tela – e numa próxima vamos conversar sobre isso. O quanto você tem se preocupado sobre o número de horas investidas em reuniões online, em oferecer ergonomia para os seus funcionários, em horários assíncronos, respeito a rotinas domésticas que aumentaram – para mulheres houve um acréscimo de DEZ horas mensais nas rotinas. Algumas opções a serem pensadas: contratação de consultorias especializadas para desenvolver trabalhos de conexão entre o time (tem um curso gratuito – ótimo – sobre liderança remota que eu amo aqui), liberar horários de reuniões. Refletir se: essa reunião pode ser resolvida com uma mensagem no chat? Por e-mail? Para você que é lider: você tem investido tempo em perguntar como seus colaboradores estão… de verdade, não o “oi, tudo bem?”. Auxílio internet, workshop de gestão de agenda, vouchers de seminários da indústria ou inovação… Te enchi de opções, não tem como reclamar.

Além disso, como diferentes áreas estão conversando e co-criando? Sendo eu uma pessoa que vivia antes para entender a rotina de CIOs e agora estou aqui falando majoritariamente com CEOs e CMOs, em que momento paramos para testar sinergias entre conhecimentos?

Tecnologia sempre será sobre questionar. Questionar o status quo, questionar o que fazemos bem e podemos melhorar, o que fazemos mal e podemos incrementar. Ela é o meio para sermos cada vez melhores atendendo ao nosso propósito, seja ele simples ou complexo.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Lisiane Lemos é advogada, cofundadora do Conselheira 101 e gerente de novos negócios para agências no Google.