Existe uma maneira de ler a cidade que está diante dos nossos olhos, mas que nem sempre enxergamos: a arte urbana. Sim, os grafites e murais estão na moda, são temas de reportagens de TV e bombam no Instagram, mas muitas vezes o destaque é o colorido que trazem para a paisagem urbana, a beleza visual que dilui a aridez e o cinza do concreto. Isso não é pouco e deve mesmo ser motivo de exaltação, se pensarmos que há até pouco tempo uma cidade como São Paulo era simplesmente um mar cinza e os grafiteiros eram perseguidos pela polícia. Mas, para além dessa primeira camada, a arte urbana nos releva muito sobre nossas urgências – e também nossas potências. Por isso, quem leva os olhos para passear e abre a mente para as provocações que vêm do alto dos edifícios tem à disposição um report de tendências vivo e pulsante, além de gratuito, com informações riquíssimas sobre o zeitgeist nas cidades. 

São Paulo é hoje uma imensa galeria de arte a céu aberto

Na era das telas e da digitalização, as empenas de São Paulo se transformaram em suportes de mídia, ou plataformas de criação e inovação que expressam de tudo, de poesia a mensagens sociais embaladas em desenhos, lançando olhares sobre a ancestralidade, a presença dos povos originários, valorização das religiões de matriz africana, preservação ambiental, diversidade, equidade de gêneros, defesa da educação e a riqueza cultural das periferias. 

São Paulo é hoje uma imensa galeria de arte a céu aberto. Isso já é evidente em algumas regiões, como no Beco do Batman, na Vila Madalena, e no Minhocão, no Centro. Esses dois pontos têm verdadeiras exposições permanentes, atualizadas organicamente, que atraem turistas de outros estados e países e reforçam a imagem de São Paulo como a capital mundial da arte urbana.

Galeria Minhocão

Por seu tamanho e pela quantidade de painéis, o Minhocão é sem dúvida a mais completa tradução dessa ideia. Em seus cerca de 3 km de extensão se espalham obras que exibem um mosaico cultural, estético e social da realidade urbana. A começar pelo mural que está logo na entrada no elevado, de frente para a Praça Roosevelt. Para mim um dos mais belos e provocativos, “Nina” foi criado por Apolo Torres, em 2016, para a campanha mundial “Education is not a crime”. 

O desenho mostra uma garotinha na ponta dos pés, tentando alcançar uma nuvem de livros, enquanto uma aranha, uma cobra e um escorpião rodeiam suas pernas. Em uma reportagem, o artista disse que “Nina” nasceu na época da ocupação das escolas públicas e se insere no contexto de luta por educação de qualidade no país. O poder das mulheres aparece em diferentes obras, como as de Hanna Lucatelli, assim como a cultura negra, presente em murais de Robinho Santana ou Aline Bispo. 

Já a questão da diversidade é abordada em “#JuntosComOrgulho”, projeto do Estúdio Guto Requena em parceria com a Mutato, o Studio Curva e o Facebook. Esse trabalho diz muito sobre o futuro híbrido da arte e do ativismo no pós-pandemia. Criado como parte das comemorações pelo mês do orgulho LGBTQIA+, em junho de 2021, a intervenção traz as cores do arco-íris numa obra de 40 metros de altura no Minhocão. 

Híbrido, o projeto aliou analógico e digital. No dia 5 de junho, houve uma live no Facebook em que os espectadores foram convidados a compartilhar suas histórias e a se engajar por meio da hashtag #JuntosComOrgulho. Através de um software conectado à API do Facebook, as hashtags enviadas pelo público eram registradas em tempo real, o que podia ser acompanhado na tela por meio do “orgulhômetro”, um termômetro especial criado para o evento. Com a interação do público, as tintas eram disparadas, pintando em efeito cascata a fachada do prédio à beira do Minhocão. A ativação contou ainda com lives de Pabllo Vittar, Majur e Gloria Groove, transmitidas pelo Facebook. 

Artivistas e provocadores

Outro exemplo é a Mostra Brasileires. Lançado em janeiro de 2021 por ocasião do aniversário de São Paulo, o projeto quer despertar a reflexão nas pessoas sobre o direito à cidade e a relação com o espaço público. Com curadoria dos artistas e produtores Fernanda Bueno e Kleber Pagú, a iniciativa conta com obras, espalhadas em empenas ao longo do Minhocão, de nomes como o do compositor Carlinhos Brown, do ativista e ex-deputado federal Jean Wyllys, da filósofa Márcia Tiburi e da cartunista Laerte, entre outros. 

Fernanda e Pagú também são os líderes do coletivo Nós Artivistas, que faz ativismo por meio da arte urbana. A primeira ação do grupo aconteceu no dia 20 de novembro de 2020. Naquele dia, eles pintaram a frase #vidaspretasimportam na Avenida Paulista, uma imagem que rodou o mundo na esteira dos protestos contra o racismo. “A gente provoca e se autoprovoca. Como produtores, como artistas, eu e a Fernanda não temos condições de fazer basicamente nada a não ser provocar”, disse Pagú numa entrevista a este colunista. “E a provocação também pode ser uma profecia. A profecia é uma ideia de falar que não está bom e que poderia ser diferente.” 

Sobre o Minhocão, Pagú calcula que no início de 2021 havia 12 painéis no local, número que hoje beira os 50. “E impossível a pessoa andar no Minhocão e não perceber que ali é uma galeria de arte. Não precisa dizer, as pessoas percebem”. 

Não precisa dizer, mas o sucesso do local como cartão de visitas poético pode ajudar a criar um marco legal para arte urbana em São Paulo. Fernanda e Pagú estão à frente do projeto de lei 379/2020, que pretende “reconhecer a cidade de São Paulo como uma Galeria de Arte a Céu Aberto, com Polos Artísticos, Culturais, Históricos e de Economia Criativa em larga escala e de livre acesso”, diz o texto, que por enquanto está parado na Câmara Municipal.   

O projeto prevê 30 pontos da cidade, da periferia ao centro, como galerias a céu aberto, o que facilitaria, entre outras coisas, o acesso e a comunicação com síndicos e administradores de prédios, assim como ajudaria os edifícios no processo de limpeza periódica das fachadas, como estabelece a legislação já existente. O poder público também estaria proibido de apagar obras, como aconteceu na 23 de Maio, uma importante via de São Paulo, em 2017.  

Discussões desse tipo demonstram o amadurecimento da arte urbana como expressão da urbanidade e da cultura dos lugares. Revelam também, numa leitura mais profunda, que o presente e o futuro das cidades passam por substituir um projeto de urbanização que privilegia carros, grandes obras viárias e a desigualdade social por um modelo mais humano e inclusivo. No fundo, é essa cidade que grita por meio de muros e empenas. Grita como quem planta poesias no concreto e semeia gentilezas na paisagem.  

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Clayton Melo é jornalista, cofundador da plataforma A Vida no Centro e desenvolve projetos de conteúdo digital em áreas como inovação, tecnologia, negócios sociais e cenários futuros. Foi curador do Festival Path, de inovação e criatividade, e atuou em redações como Istoé Dinheiro, Gazeta Mercantil e Meio e Mensagem.