As mulheres vão ficar mais ricas do que nunca – e isso pode mudar tudo (ou nada)
Mulheres estão prestes a herdar US$ 124 trilhões de dólares. Mas transferência de recursos não é, automaticamente, transferência de poder

Nas próximas décadas, mulheres vão herdar aproximadamente US$ 124 trilhões em todo o mundo. Quase 70% da maior transferência intergeracional de riqueza da história vai passar por mãos femininas, impulsionada por maior expectativa de vida e pela transformação nos padrões de herança entre gerações.
Só nos Estados Unidos, estima-se que US$ 47 trilhões migrem para mulheres jovens nos próximos 20 anos. A McKinsey projeta uma oportunidade de US$ 30 trilhões no mercado de gestão de patrimônio até 2030.
São números que deveriam mudar tudo. Mas há uma pergunta que eles não respondem: transferência de recursos é o mesmo que transferência de poder?
A resposta honesta é: não necessariamente.
Mesmo enquanto o poder econômico das mulheres cresce, as narrativas que definem quem lidera (e como) podem continuar surpreendentemente estáveis. Poder ainda é imaginado como controle, hierarquia, dominação.
Mulheres que chegam a posições de liderança enfrentam o que especialistas chamam de “double bind dilemma”. A ideia é simples: a mulher que lidera está presa entre dois conjuntos de expectativas contraditórias.
Se ela age de forma assertiva e direta (como o arquétipo masculino de poder exige), é lida como agressiva ou "difícil". Se age de forma colaborativa e cuidadosa (como o arquétipo feminino espera), é tratada como pouco séria ou fraca. Qualquer caminho tem custo. É um labirinto sem saída.
A pesquisa Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras, que ouviu mais de duas mil pessoas em todo Brasil e realizou 60 entrevistas qualitativas com lideranças femininas, revelou que quatro em cada 10 pessoas não conseguem nomear uma única mulher em posição de poder. Entre jovens de 18 a 24 anos, essa proporção sobe para quase metade.
Poder ainda é imaginado como controle, hierarquia, dominação.
É aqui que a filantropia e o venture capital têm um papel crítico a cumprir, e um gap igualmente crítico a reconhecer. O capital continua investindo em momentos de visibilidade, não na infraestrutura narrativa sustentada capaz de mudar o imaginário coletivo sobre poder.
Enquanto narrativas antigênero se tornam mais coordenadas, mais financiadas e mais visíveis, o financiamento para organizações lideradas por mulheres e para mudança sistêmica de gênero segue fragmentado.
Poder econômico sem poder cultural é recurso sem ancoragem. Para que a maior transferência de riqueza da história se converta também em transferência de modelos de poder, é preciso investir de maneira orquestrada nas histórias, nas narrativas, nas pesquisas, nos símbolos e nas comunidades que tornam isso possível. Fazer isso é condição da mudança.
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A transferência de riqueza já está em curso. Já a transferência de imaginários ainda depende de escolhas deliberadas sobre o que financiar, o que pesquisar, o que narrar. Essas escolhas, feitas agora, determinam de que forma essa transferência de recursos vai entrar para a história.
Temos uma oportunidade rara: a chance de construir, junto com esses recursos, a infraestrutura cultural que faz o poder mudar de forma, não só de mãos.
