Em todas as conversas que tenho sobre a necessidade de se chegar a uma coexistência pacífica, e mais que pacífica, produtiva, das diversas gerações face ao envelhecimento da população mundial e, mais rapidamente, da brasileira, as propostas quase sempre falam da necessidade de se qualificar o segmento com mais idade no uso da tecnologia.

Na verdade, a tecnologia, para a base desse segmento gigante chamado 60+, não chega a ser um problema. Na década de 90 quando computadores, e na sequência a internet se tornaram ubíquos, essas pessoas, hoje na faixa dos 60 anos, estavam em sua maioria no mercado de trabalho e foram letrados de maneira natural, como continuação das diversas inovações anteriores como o pager e o fax, por exemplo, que olhados daqui, de 2021, parecem primários em termos de tecnologia, mas que foram marcantes a seu tempo e responsáveis por mudanças significativas de comportamento. 

Verdade que essas ferramentas eram muito mais restritas ao espaço de trabalho. Diferente do que viriam a ser as redes sociais e o celular que foram incorporados, ou incorporaram a todos nós definitivamente e vem ampliando espaço na nossa existência, para o bem e para o mal. 

Para o topo do segmento macro, aqueles acima de 80 anos, uma combinação de falta de letramento básico com até um certo laissez faire, ou “vou continuar do meu jeito mesmo e tudo certo”, tecnologia pode ser um ponto crítico que a pandemia ou acentuou ou mitigou de maneira significativa. Afinal, o sapo pula por necessidade e não por boniteza.

O fato é que precisamos, para além da tecnologia, descobrir as pontes que nos unem. Ou como fazer com que aqueles que estão nas pontas busquem um espaço intermediário que minimize os esforços de ambos os lados. 

Pensando nas diferenças, parei nas semelhanças. Semelhanças de sentimentos, de comportamento, de desejos. Ou se quisermos, nas paixões, pequenas ou grandes, passageiras ou definitivas, que transcendem com sua força toda e qualquer barreira existente.
Quais momentos, locais ou eventos abrem espaço na rotina do dia a dia para que o encontro de diversas gerações seja algo fluido, sem atrito, natural?

O primeiro que me vem à cabeça é o estádio de futebol. 

No momento do gol, abraçamos quem está por perto, não importa a idade, nem se conhecemos. Esse outro que como a gente sofre, grita, vibra com seu time, não tem rótulo. 

E isso acontece em qualquer esporte. 

O torcedor é passional. E a paixão é o que nos une. 

Mas além dos esportes, onde mais as gerações parecem se render à força do contexto? 

Na música temos dois universos: estilos que se fecham mais em silos por idade, localização ou cultura e estilos que são atemporais, como o samba. 

As manifestações culturais, como a literatura, a arte, a dança seguem mais ou menos a mesma lógica da música. Os silos existem, mas em muitos momentos são para todos.

O que isso nos deixa como possibilidade na nossa busca pela coexistência entre gerações? 

Antes de mais nada, que ela já existe. É real e faz parte das nossas vidas em diversos momentos.

Como trazer para o ambiente corporativo, do trabalho, onde as especificidades técnicas podem continuar sendo barreiras de entrada e indicadores de competência excludente?

Daí eu me lembrei dos encontros pós-trabalho, no bar, em pé, sem cargos, sem idades distintas, jogando conversa fora, falando de futebol, do filme, da novela.
Ali se formavam alianças emocionais, parcerias sem compromissos explícitos, amizades, companheirismo. Fundamentais para ambientes de troca e colaboração.

Precisamos trazer de volta essas conversas para além do trabalho, para além da última tecnologia, do último termo que define uma nova fronteira. 

Essas conversas, como as paixões, nos unem, sem percebermos.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Marco Antonio Souto é head de estratégia do Grupo Dreamers e ativista da causa do Idadismo.