Autorreflexão
Consciência de si, buraco até o Japão, sonho, maravilhamento, poemas, serendipidade e futuros

Maravilhamento. Essa palavra pode parecer apenas a descrição de uma forma de sentir, mas na Grécia Antiga era conhecida como thaumazein, um termo que descreve o estado de perplexidade e assombro diante da beleza das coisas e dos mistérios da vida.
Ela traduz a nossa capacidade de sentir admiração por algo, mesmo que simples, aparentemente insignificante, mas que por algum motivo nos captura, parece nos preencher de sentido.
Para pensadores como Platão e Aristóteles, esse sentimento dá origem à filosofia porque nos faz observar de maneira mais intencional a realidade à nossa volta.
Faz sentido. Afinal, como questionar algo a ponto de agir de maneira efetiva sobre ele se nem percebemos que ele existe? O maravilhamento nos dá então algumas pistas.
Morei até meus oito anos em uma fazenda de cacau onde meu avô paterno era trabalhador. Ainda posso sentir o gosto e o cheiro do cacau. As aventuras pelo quintal observando as emas, os pássaros, as cigarras.
Tinha uma árvore que cheirava a alho; era estranho, porém fascinante. A gente bebia o mel que escoava da semente do cacau.
São tantas as histórias e as lembranças dessa infância pobre de dinheiro, mas rica de contemplação e deslumbramento, que até hoje elas são como uma bússola para mim – uma espécie de sinal sobre o que seria uma vida repleta de maravilhamento.
Em 2019, a pandemia de Covid-19 impôs mudanças significativas para o mundo. Tudo ficou para depois, só que um depois absolutamente incerto. Ficamos presos dentro de um apartamento consumindo as devastadoras notícias que chegavam pelas mais diferentes mídias.
O trabalho migrou para um modelo remoto e, cá entre nós, nada foi mais estranho e aterrorizante do que engajar em discussões sobre o layout de uma apresentação diante da incerteza sobre se estaríamos vivos no dia seguinte.
Foi imerso nesse turbilhão de sensações que comecei a questionar o sentido do que eu estava fazendo. Será que a forma como estava usando meu tempo, que agora me parecia tão precioso, fazia sentido?
Não é difícil observar como estamos profundamente desconectados de nós mesmos.
Apenas em 2023 consegui elaborar melhor todos essas reflexões. Aconteceu em um sábado de outono, numa manhã de céu azul e ar fresco. Meu filho mais novo me chamou para ir à pracinha. Aceitei o convite e fomos brincar juntos.
Com uma pazinha, ele começou a cavar um buraco no chão de terra da praça para chegar até o Japão. Enchia a pá, lançava a terra para o lado e repetia, entusiasmado: “Japão papai, Japão!”.
Eu também achava, quando era criança, que se cavasse um buraco bem fundo chegaria até o Japão. Me embalei do entusiasmo dele e, à medida que ajudava a cavar a terra, percebi que cavava algo mais profundo dentro de mim. Uma felicidade de perceber que meu filho vivia essa sensação de que o impossível pode acontecer.
O “se permitir” sonhar, no estado mais puro! Um sentimento sem amarras, que toda criança deveria experimentar, e que todo adulto poderia constantemente aproveitar um pouco mais desse lugar.
Enquanto trabalhávamos construindo nosso túnel para o outro lado do mundo, outra criança que estava no parquinho fazia bolinhas de sabão. Logo aquelas bolas transparentes e leves atraíram a atenção do meu filho.

Enquanto ele tentava agarrar as bolinhas que voavam para todos os lados, outro menino prestou atenção no buraco que tínhamos feito. Com uma retroescavadeira infantil, começou a cavar um buraco ainda maior, mas seu enredo era totalmente diferente, ainda que da mesma forma improvável – menos na sua cabeça de menino.
Foi quando um dos adultos presentes perguntou para um dos meninos: “o que você quer ser quando crescer?”. Não sei se alguma criança respondeu, mas fui eu quem saiu da pracinha com a pergunta na cabeça.
Me entendam. No fundo, essa não é uma pergunta tão simples quanto parece. Não tenho lembranças do que eu pensava à minha época, mas provavelmente quis ser muitas coisas.
Será que queria ser jogador de futebol? Adorava jogar futebol na rua, onde eu era o goleiro – um menino franzino, todo sujo de terra, fazendo defesas no chão duro de uma rua de pedra do interior da Bahia. Para mim, era como se estivesse em um estádio lotado de pessoas gritando meu nome a cada “linda” defesa.
Certamente quis ser baterista. Uma vez, fiz uma bateria de lata no quintal. Elásticos, prego, madeira velha, tampas de panela. Não era perfeita, mas tinha banquinho e tudo. Fazia vários shows com ela no quintal para uma plateia de galinhas.
Ou astronauta, um de meus devaneios favoritos. Ir ao espaço e ver a Terra lá de cima, “nadar” na gravidade. Aliás, essa de me sentir no espaço eu resolvia com um lençol estendido entre dois sofás, e embaixo do lençol me imaginava levitando no espaço.
Leia mais: Existe valor no que é vivido mesmo quando não é postado
Claro que uma criança nunca pensa nos obstáculos ou mesmo na impossibilidade de ser o que ela imagina. Quando uma criança diz “quero ser astronauta”, ela não está pensando nos treinamentos que precisará fazer, nos idiomas que precisará aprender ou em como chegará até a NASA.
Ela nem sabe que a NASA existe. Talvez só queira ver o mundo de uma maneira diferente, mágica. Ela quer se maravilhar. E quem quer se maravilhar não pode pensar no impossível.
Repare nos verbos que usamos quando crianças para imaginar o futuro:
Explorar. Descobrir. Criar. Ajudar. Transformar. Voar. Salvar. Cantar. Construir. Inventar. Tocar. Cuidar. Ensinar. Proteger...
São verbos de ação, de movimento, de vida.
Agora comparem com os verbos que usamos quando nos tornamos adultos:
Trabalhar. Produzir. Entregar. Cumprir. Atender. Executar. Reportar. Justificar. Aguardar. Alinhar. Otimizar. Performar...
São verbos de função, de obrigação.

A criança que queria ser astronauta vira analista de dados. Ela não vê o mundo de ângulos impossíveis, ela agora vê planilhas. O menino que queria ser bombeiro se torna gerente de projetos. Ele não corre em direção ao perigo, só evita riscos e erros, a todo custo. A menina que queria ser cantora agora é advogada.
Não estou dizendo que essas profissões são ruins. Não é esse juízo de valor que nos interessa aqui, mas sim a distância entre o desejo que tínhamos e a função que exercemos hoje.
Rapidamente me dei conta de que eu não me maravilhava mais com as coisas como antes. Claro, eu cresci, mas quando foi que deixei de ver o mundo dessa forma?
O mundo moderno nos educa para sermos funcionais, produtivos, eficientes. Estudamos em escolas organizadas em filas, em que ficamos olhando para as costas do outro – uma remissão direta ao processo de industrialização. A mensagem que fica é: aprender para produzir.
Formatam-se sujeitos bem preparados para a vida no trabalho, mas não para a vida. Somos resolvedores de problemas, pessoas que batem metas e entregam resultados. Precisamos ser resilientes, trabalhar dia e noite; fingimos ser incansáveis.
Será que a gente começou a perceber que somos treinados para uma vida funcional, organizada, em certa medida planejada, mas sempre útil? E por outro lado, que não para sermos inteiros, autênticos e seguros de si?
Não é difícil observar como estamos profundamente desconectados de nós mesmos. Produtivos, mas perdidos numa constante busca por significado.
Nos tornamos mestres em dominar planilhas, mas não dominamos o nosso próprio tempo e atenção. Resolvemos problemas complexos, mas não conseguimos resolver as inquietações que nos abalam quando botamos a cabeça no travesseiro.
Crescemos e nos tornamos tudo o que o mundo pediu, menos aquilo que a gente disse, na infância, que ‘queria ser quando crescer’.
MARAVILHAMENTO
Isso tudo aconteceu comigo. Observei que estava entrando numa espécie de melancolia, mas não a romântica, do século 19, que continha uma tristeza poética e dramática, mas a melancolia da modernidade — de ordem prática, funcional, factual e, por que não dizer, existencial.
E parece que não estou sozinho. Tenho me encontrado com pessoas brilhantes. Currículos impecáveis, experiências diversas. Pessoas que dominam suas áreas com maestria, que são referência no que fazem, mas que dizem estar fragmentadas, cansadas, buscando a si mesmas sem saber onde procurar.
Esse é um dos paradoxos do nosso tempo. Descobrimos que podemos ser excelentes no que fazemos e, ao mesmo tempo, não nos conhecermos.
Serendipidade. De tanto refletir sobre a pergunta que ouvi na pracinha, cheguei a um lugar que não esperava, mas que agora faz todo sentido. Pensei: se perguntamos para uma criança o que ela quer ser quando crescer, porque não perguntar a uma pessoa adulta o que ela “deixou de ser quando cresceu?”.
uma criança nunca pensa nos obstáculos ou mesmo na impossibilidade de ser o que ela imagina.
Outro universo de questões se abriu. O que deixei de ser quando cresci? Como aquela criança que se maravilhava com o mundo que a cercava pode estar presente nas coisas que faço hoje, em como me relaciono com elas, além de tantas outras que ainda posso me maravilhar?
À medida em que crescemos, as obrigações vão exigindo mudanças de comportamento, mas também mudanças na maneira como observamos o mundo. Tentamos nos equilibrar em um constante ‘ajustar para caber’ para encaixar naquilo que a sociedade, a família e o trabalho esperam que a gente seja.
É justamente nesse processo que acabamos nos tornando o que somos hoje. O maravilhamento, então, cede espaço para as necessidades da vida, e qual é a principal delas? Ganhar dinheiro para sobreviver. O famoso “novo boleto emitido no seu CPF”.
Lembrei de uma história que ilustra muito bem esse processo. Estava em uma semana intensa de um novo trabalho, imerso em relatórios, estruturação de projetos, apresentações, visitas de campo.
Aquele era meu primeiro trabalho em uma multinacional, então eu estava cheio de sonhos e animado para contribuir. Para mim, não existia maneira melhor de aliviar a tensão dos meus colegas de trabalho, e o meu, se não pela arte.
Então, na sexta-feira, enquanto nos preparávamos para sair, propus: “e se a gente trouxesse um poema para ser lido no café da manhã da segunda-feira?”.

Senti que pessoas foram ficando desconfortáveis; era como se eu tivesse proposto algo da ordem do absurdo. Como assim, ler um poema? Em que mundo você está vivendo?
Bom, eles não disseram nada, mas foi o que eu ouvi. A diretora até curtiu, mas foi vencida. Constrangido, na segunda-feira cheguei na empresa antes de todo mundo, botei meu fone de ouvido e comecei a trabalhar. Fiz de conta que aquela história de ler poemas na segunda-feira pela manhã nunca havia saído da minha boca.
Fui aprendendo na marra que “aqui é business” e o resto fica de fora. Só que, se os números não mentem, eles também não sentem. Então algo acaba ficando de fora dessa “equação”.
Olhando de fora, a vida parece boa. Você tem um bom emprego, as contas pagas, uma casa confortável, comida de qualidade e uma família. Você deu certo! Mas por dentro, pouco a pouco, tudo vai desmoronando.
Aí você tenta falar sobre isso e as pessoas dizem: “ah, mas você deveria ser grato. Olha o tanto que conquistou”. E então a gente se cala. “Eu deveria estar feliz. Tenho tudo o que sempre quis, mas me sinto vazio. E mais, me sinto culpado por isso.” Ouvi essa frase durante uma conversa com uma executiva bem sucedida.
Leia mais: O que vem primeiro: felicidade ou sucesso?
Suspeitei que o que deixamos para trás parecem ser algo que, de alguma maneira, nos aparece em forma de falta de sentido. Não é um sentido sobre a ideia de criança, mas sim sobre a ideia de sentir.
Tem um conto que diz que, um certo dia, o rei pediu para chamarem o melhor cozinheiro de todo o reino pois ele queria muito resgatar uma memória de infância. Quando o homem chegou, o rei lhe contou: “minha avó fazia a melhor geleia de morango que já comi na vida. Você poderia preparar uma igual, para que eu possa reviver aquela sensação?”. O cozinheiro respondeu. “Sua majestade, eu até posso fazer a melhor geleia do reino, e ela é sem dúvida muito saborosa, o problema é que o senhor não é mais aquela criança.”
Como podemos resgatar a sensação da geleia de morango da nossa avó, mesmo sabendo que nunca iremos sentir seu exato gosto novamente? E como podemos empreender esse resgate sem abrir mão de continuar sendo bem-sucedidos e eficientes em nosso trabalho?
Ou melhor dizendo: será que esse resgate não vai nos conectar de tal forma a nós mesmos que teremos, como uma espécie de efeito colateral, uma melhor performance no trabalho, na prática da liderança, na gestão de pessoas e negócios? E como essa jornada de resgate impactará as nossas relações familiares, amorosas, de amizade e filiais?
porque não perguntar a uma pessoa adulta o que ela “deixou de ser quando cresceu?”
Nelson Rodrigues disse certa vez que “fantasia é o que a gente veste entre um carnaval e outro”. Bem, temos vestido a fantasia da performance. Vivemos o equívoco de querer ser o “homem da casa”, a mãe perfeita, a funcionária do mês, e tudo isso ao mesmo tempo e em ritmo acelerado.
Nossa relação com o trabalho tem nos definido como sujeitos. Nos apresentamos com o cargo que ocupamos e o nome da empresa em que trabalhamos. O trabalho não se traduz apenas em uma relação financeira, ele é também um formador de subjetividade e até uma definição de existência.
Porém, as pesquisas parecem indicar que essa relação não está indo tão bem. Começamos a substituir a capacidade de imaginar do nosso eu criança pelo pragmatismo racional do mundo adulto acelerado, que olha mais para a eficiência do que para o processo, mais para o resultado do que como chegar a esse resultado com saúde e felicidade.
A verdade é que fingimos que está tudo bem, que adoecer é para os fracos, mas a insônia não está nos permitindo dormir, e quem não dorme não sonha. Inclusive com outras possibilidades de existir.
Por que temos de buscar uma resposta para essa pergunta? O que ganhamos se soubermos o que deixamos de ser quando crescemos?
Ainda não sei, mas não conheço quem não queira se sentir conectado à própria vida, seja lá o que isso signifique. De todo modo, ter uma vida repleta de sentido e momentos felizes pode ser um bom motivo para resgatar o que ficou para trás. Reconexão, propósito, sentido e a busca de si mesmo em tempos tão “artificiais” não parece uma má ideia.
“O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.”
Fernando Pessoa (Autopsicografia, 1932)
Até a próxima.
