Uma das grandes preocupações trazidas pela pandemia é com as cidades que vão emergir quando tudo isso passar. A Covid-19 escancarou ainda mais as desigualdades no Brasil, expondo os mais pobres a riscos de todos os tipos, da saúde ao desemprego. Isso quer dizer que os desafios sociais serão ainda maiores daqui para frente. 

Mas o que isso tem a ver com a questão das cidades inteligentes que aparece no título do artigo? Afinal, as smart cities não são aqueles lugares hiper conectados, com aplicativos e semáforos inteligentes para gerenciar o trânsito? O que tudo isso tem a ver com a qualidade da vida urbana pós-pandemia? 

Tem muito a ver. Para conectar um assunto ao outro e ficar mais evidente, um dos caminhos é ter um outro olhar para as cidades inteligentes – e, para isso, o primeiro passo é refletir sobre o que estamos falando. É fato que existem diversas visões a respeito do tema. Trata-se de um conceito em construção, aberto, que abriga vários pontos de vista. 

Um deles (o mais comum na imprensa e no mercado) é o que enxerga a tecnologia como algo central nas cidades inteligentes. Sem dúvida ela tem um papel importantíssimo no mundo de hoje e tem de ser utilizada no contexto das cidades. Mas é preciso entendê-la como um meio – e não um fim – para melhorar a vida das pessoas. O semáforo inteligente é importante? Sim, mas isso não pode funcionar como um fetiche tecnológico, um símbolo de como somos conectados. Ele tem de estar a serviço de uma visão de planejamento urbano que privilegia o conjunto da sociedade, e não apenas os carros. 

Mas também existem outras abordagens que, sem ignorar os aspectos tecnológicos, trazem um olhar ampliado. Muitos urbanistas, pesquisadores e gestores públicos, por exemplo, preferem voltar as lentes para a função social das cidades inteligentes e para aquilo que seria de fato a fonte da inteligência de uma cidade: as pessoas. Porque é no ambiente urbano que a gente se encontra, conversa, cria redes e conexões capazes de gerar ideias inovadoras que transformam os negócios, a vida pessoal e a realidade social. 

“Eu diria que smart city é uma cidade que utiliza inteligentemente seus recursos. Mas o verdadeiro recurso ‘smart’ das cidades não são os computadores, nem as equipes de software que vendem as grandes empresas, e sim as pessoas”, disse em entrevista ao Cadernos FGV Projetos Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá (1998-2001 e 2016-2019). “A cidade realmente smart é aquela que atrai e retém pessoas bem qualificadas em qualquer que seja o campo de atuação, ou seja, não significa, necessariamente, ter um PhD do MIT; é algo que se aplica igualmente a um bombeiro ou a um assistente de enfermaria”, reforçou Peñalosa, que liderou o processo de transformação da capital colombiana, hoje reconhecida internacionalmente como um case de inovação em mobilidade urbana e justiça social. 

“Muitos urbanistas, pesquisadores e gestores públicos, por exemplo, preferem voltar as lentes para a função social das cidades inteligentes e para aquilo que seria de fato a fonte da inteligência de uma cidade: as pessoas”

E as cidades, por si só, já são resultado da inteligência humana. “As grandes revoluções pelas quais o mundo passou nos últimos 200 anos foram muito mais aceleradas do que nos dois mil anos anteriores. Seguramente existe uma conexão entre a velocidade e a intensidade dessas transformações e a urbanização”, diz Wilson Levy, diretor do mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da Uninove. 

Se a inteligência está nas pessoas, uma cidade inteligente seria aquela que procura eliminar barreiras, desigualdades, estimular o aprendizado mútuo e a cooperação, recorrendo à tecnologia sempre que necessário. E na qual o poder público é capaz de formular políticas com base em evidências e dados e com a participação dos cidadãos. “Esse novo modelo precisa ter uma abordagem conectada com os desafios reais dos municípios brasileiros e entender que a tecnologia não é um fim em si mesmo. Ela é um dos meios que podemos utilizar para tornar nossas cidades mais inteligentes, inclusivas, democráticas e sustentáveis”, afirma Levy, que é mestre pela USP e doutor em Direito Urbanístico pela PUC-SP. 

O urbanista Renato Cymbalista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e do mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da Uninove, por sua vez, destaca o papel das inovações que nascem da sociedade. “Entender a cidade inteligente como algo amalgamado com a tecnologia significa não considerar outras tecnologias, como as tecnologias sociais, que podem preencher o significado de cidades inteligentes”, diz. De forma bem simples, podemos entender tecnologia social como metodologias criadas pelas pessoas para se organizar e gerar algum tipo de inovação ou solução para a sociedade. 

Pensando no universo da inovação, a cidade inteligente é aquela que se preocupa em fomentar o ecossistema de startups com programas e iniciativas que conectem empreendedores, poder público, universidades, comunidades e empresas na busca por soluções para os problemas urbanos. Ou que aposta em ações que aproveitem a força do coletivo, como faz o projeto City Câmeras, que utiliza os “olhos” da sociedade para aumentar a segurança nas ruas de São Paulo.  

Lançada em 2017 em parceria pelas secretarias de Segurança Urbana e de Inovação e Tecnologia da capital paulista, a iniciativa consiste em câmeras instaladas pela prefeitura em diferentes pontos. A novidade é que os equipamentos de condomínios, lojas e residências também podem ser integrados ao sistema.  “Com as informações coletadas, o poder público pode direcionar os esforços e os recursos humanos, que são finitos, para onde realmente precisa”, diz Levy. “O City Câmeras é um sistema de cidades inteligentes que contribui com as ações de segurança.”  

Esse é apenas um exemplo de como a tecnologia pode ser usada para possibilitar a colaboração entre as pessoas e o poder público na melhoria da vida numa cidade. O essencial é refletirmos sobre quais ações e políticas públicas podem estimular as conexões criativas e o ecossistema de inovação nas cidades, valendo-se para isso da inteligência que está dentro do próprio território para resolver, entre outras coisas, os diversos problemas sociais agravados pela pandemia. 

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Clayton Melo é jornalista, cofundador da plataforma A Vida no Centro e desenvolve projetos de conteúdo digital em áreas como inovação, tecnologia, negócios sociais e cenários futuros. Foi curador do Festival Path, de inovação e criatividade, e atuou em redações como Istoé Dinheiro, Gazeta Mercantil e Meio e Mensagem.