Cidades de 15 minutos pra quem?


Denize Bacoccina 4 minutos de leitura

Há pouco mais de dois anos, quando o colombiano radicado na França Carlos Moreno criou o conceito de cidade de 15 minutos e o tema virou assunto da campanha eleitoral (e depois política pública em Paris), urbanistas imediatamente começaram a discutir o assunto por aqui.

O que ele propõe, em linhas gerais, é que a cidade (Paris) seja organizada de forma a que todo cidadão possa realizar suas atividades diárias de trabalho, estudo, compras e lazer a no máximo 15 minutos de distância da moradia, a pé ou de bicicleta. Como já escrevi aqui no ano passado, Paris está se tornando uma cidade mais moderna, sustentável, uma cidade que usa a arquitetura grandiosa do passado para se inserir no mundo contemporâneo.

Mas, e São Paulo? Para além do momento atual, em que a violência disparou e a percepção generalizada é de abandono por parte do poder público, com problemas sociais, de zeladoria e de segurança que se misturam e se acumulam, precisamos nos questionar se o conceito faz sentido por aqui. 

E antes, nos perguntar: de que cidade estamos falando?

Daquela cidade dentro dos limites do centro expandido, entre as marginais dos rios Pinheiros e Tietê, que tem cerca de dois milhões de habitantes e onde já existe uma boa infraestrutura tanto viária, inclusive com ciclovias, muitos serviços públicos e áreas de lazer? Para essas pessoas, a cidade de 15 minutos já existe.

Já faz tempo que o conceito vem sendo usado pelo mercado imobiliário para vender imóveis em regiões com boa infraestrutura urbana, comércio variado e perto dos empregos. Antes do termo cunhado por Carlos Moreno, esse conceito era chamado de boa localização.

 O centro de São Paulo, onde moram menos de 500 mil pessoas e por onde passam 3 milhões todos os dias, é um desses locais. Mas não só. Pinheiros, a atual meca das construções, também é um bairro que mistura residências, boa infraestrutura de serviços e está próximo de muitas empresas. O mesmo vale para a região da avenida Paulista ou Faria Lima.

A proposta é que a cidade seja organizada de forma a que todo cidadão possa realizar suas atividades diárias a no máximo 15 minutos de distância de casa.

Mas, e a outra cidade, onde vivem os outros 10 milhões de habitantes? Isso falando só da capital. Considerando a região metropolitana – o que é pertinente, já que em muitos casos o limite entre os municípios é urbano – o número sobe para 20 milhões de pessoas.

Qual a possibilidade de implantar uma cidade de 15 minutos em locais onde faltam não apenas empregos, mas também equipamentos de saúde, de educação e praticamente inexistem cultura e lazer?

Não é exagero.

Uma pesquisa do Ipec para a Rede Nossa São Paulo, de janeiro de 2021, mostra que, para 61% dos paulistanos, não há nenhuma oportunidade de emprego a 15 minutos a pé da residência.

O Mapa da Desigualdade, também da Rede Nossa São Paulo, mostra que existem, em média, cinco empregos para cada 10 pessoas em idade economicamente ativa em São Paulo. No distrito da Sé, centro da cidade, são 112 ofertas de emprego para cada 10 moradores. Na Barra Funda, segundo lugar no ranking, são 65. Em compensação, existem 59 distritos (de um total de 96) onde a oferta é menor do que a média, e 16 nas franjas da cidade onde a oferta de emprego para cada 10 moradores é menor do que um.

Outra pesquisa, da Universidade de São Paulo, aponta que apenas 16% das famílias que moram na cidade têm acesso a metade dos empregos localizados a até 60 minutos de casa por transporte público. Pessoas com renda mais alta também têm mais oportunidades de trabalho perto de casa. Isso sem contar o home office, que se consolidou como uma alternativa, mas apenas para uma parcela da população.

Quem mora na periferia ou nas cidades vizinhas a São Paulo não tem escolha, precisa se deslocar para a capital para trabalhar ou estudar.

Dados compilados pelo pesquisador Carlos Paiva, em um estudo sobre mobilidade urbana, mostram que o centro expandido de São Paulo representa apenas 2% da área total e 9% da população, mas concentra 32% dos empregos e 15% das matrículas escolares. Ou seja, quem mora na periferia ou nas cidades vizinhas a São Paulo não tem escolha: precisa se deslocar para a capital para trabalhar ou estudar.

O Mapa da Desigualdade também mostra a concentração de equipamentos de cultura, lazer, esportes e áreas livres.

Para a urbanista Raquel Rolnik, a desigualdade em São Paulo não é fruto do crescimento desordenado e da falta de planejamento, como se costuma dizer para justificar a concentração da infraestrutura pública nas áreas centrais. No livro “São Paulo: o Planejamento da Desigualdade”, ela defende que é justamente o contrário: a cidade foi planejada para segregar e expulsar os pobres para a periferia.

“A cidade que temos hoje é produto de milhões de ações individuais e coletivas das gerações que nela investiram seus projetos de vida. Longe de ser caótico, esse processo foi diretamente influenciado por opções de política urbana”, escreve Rolnik. 

Para além de slogans do mercado imobiliário, estamos muito longe de ter uma cidade de 15 minutos de verdade. Nos bairros nobres, ela já é uma realidade. Nas áreas mais distantes, cada vez mais os moradores precisam enfrentar jornadas de até quatro horas no transporte coletivo não apenas para trabalhar, mas para ter acesso aos benefícios da vida urbana. A cidade, afinal, é feita para uma minoria.

(Este artigo é de autoria de DENIZE BACOCCINA – os autores se revezam na colaboração mensal)


SOBRE A AUTORA

Cofundadora da plataforma A Vida no Centro, Denize é jornalista, especialista em redes sociais e comunidades e tendências de vida urba... saiba mais