Até o dia 2 de junho de 2020, o empresário Carlos Wizard Martins era considerado uma referência em empreendedorismo no Brasil.

Sua história segue a cartilha dos self-made men mais bem-sucedidos do mundo. Nascido em Curitiba (PR), filho de uma costureira e de um motorista de caminhão, começou a frequentar a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (o nome oficial da Igreja Mórmon) quando tinha 12 anos. Lá teve contato com diversos missionários americanos e, por necessidade, deu as primeiras arranhadas no inglês. Aos 17, seguindo a tradição da igreja que encaminha seus seguidores para aderir a uma missão voluntária antes de completar a maioridade, foi aos Estados Unidos e à Europa pela primeira vez. Tomou gosto pela língua inglesa e começou a estudá-la. Cinco anos mais tarde, com conhecimentos básicos do idioma, entrou na universidade da igreja, a Brigham Young University (BYU), em Utah (EUA). De todos os aprendizados, um foi especial: em poucas semanas ele constatou que podia se expressar bem em inglês mesmo não sendo fluente. O que o fez concluir que as pessoas não precisam de anos para aprender uma segunda língua, mas de muito menos tempo.

“Em maio de 2020, Pazuello foi nomeado ministro da Saúde em meio à pandemia da Covid-19. No mesmo mês, convidou Wizard para auxiliá-lo como consultor. Foi aí que a reputação de Wizard (…) começou a ser questionada”

De volta ao Brasil, arrumou emprego na área de tecnologia, na qual se formou, e passou a dar aulas particulares de inglês para os amigos em casa, à noite, depois do expediente. O que nasceu como um complemento de renda se tornou, em alguns anos, uma escola de inglês. Mais alguns anos e se transformou numa rede de franquias focada no aprendizado do idioma, utilizando uma metodologia própria baseada na conversação do dia-a-dia.

Em 2013 essa escola, a Wizard Idiomas, foi vendida ao grupo multinacional Pearson PLC por cerca de R$ 2 bilhões.

Anos depois, Wizard se tornou o dono no Brasil de marcas conhecidas, como Pizza Hut, KFC, Taco Bell, Wendy’s, Topper, Rainha e Mundo Verde.

A história de sucesso fez de Wizard um dos empresários mais festejados do país. Em 2018, quando um de seus filhos estava prestes a fazer 18 anos – e, como prega a religião, deveria partir em missão voluntária –, ele decidiu se mudar com ele e a mulher para Roraima. Lá conheceu o general Eduardo Pazuello, então comandante do Exército na Operação Acolhida, que dava abrigo e promovia a interiorização de milhares de refugiados venezuelanos em Boa Vista. Ambos cultivaram um relacionamento próximo pelos dois anos seguintes.

Até que, em maio de 2020, Pazuello foi nomeado ministro da Saúde em meio à pandemia da Covid-19. No mesmo mês, convidou Wizard para auxiliá-lo como consultor.

Foi aí que a reputação de Wizard, construída arduamente ao longo de 64 anos de vida e 43 de carreira, começou a ser questionada.

No fim de semana em que aceitou o convite, Wizard causou polêmica ao afirmar, em entrevista ao jornal O Globo, que o governo iria recalcular os mortos pela Covid-19. Só que não na direção apontada pelos especialistas, que alertavam para uma subnotificação do número de casos. Wizard afirmou que os dados poderiam estar inflados. De acordo com o jornal O Globo, ele disse que “tinha muita gente morrendo por outras causas e os gestores públicos, puramente por interesse de ter um orçamento maior nos seus municípios e nos seus estados, colocavam todo mundo como Covid.”

Menos de 48 horas depois, Wizard declarou que sua meta era oferecer um kit de tratamento precoce contra a Covid-19, composto essencialmente por cloroquina e outros quatro medicamentos.  “Faz 70 anos que o mundo todo consome cloroquina. Por que nunca ninguém se opôs? Porque funciona”, disse ele.  O remédio, porém, tem eficácia comprovada no combate a doenças como malária, artrite e lúpus. Não para Covid-19.

As declarações de Wizard – e o fato de que ele atuaria sem nenhuma experiência técnica em saúde, diferentemente de seus antecessores – não pegaram bem. O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), que reúne os gestores dos 26 estados e do Distrito Federal, divulgou uma nota de repúdio às declarações de Wizard, classificando-as como “tentativa autoritária, insensível, desumana e antiética de dar invisibilidade aos mortos pela Covid-19”.

As declarações também geraram nas redes sociais movimentos de boicote às marcas ligadas ao empresário, sobretudo a rede varejista de produtos naturais Mundo Verde, a Pizza Hut e a Wizard Idiomas. Durante aquela semana, a equipe de comunicação da escola de inglês disparou e-mails para a imprensa, além de comunicados para alunos e professores, afirmando que o empresário, embora fundador da rede, havia vendido a empresa em 2014. “Como todos sabem, nossa marca tem sido destacada erroneamente. Vale ressaltar que nós somos Wizard by Pearson e não temos relação com posicionamento ou partido político”, diziam os comunicados.

Exatamente uma semana depois de ter aceitado o convite do governo federal, Wizard divulgou a seguinte declaração:

Informo que hoje (7/junho) deixo de atuar como Conselheiro do Ministério da Saúde, na condição pro bono. Além disso, recebi o convite para assumir a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos da pasta. Agradeço ao ministro Eduardo Pazuello pela confiança, porém decidi não aceitar para continuar me dedicando de forma solidária e independente aos trabalhos sociais que iniciei em 2018 em Roraima. 

Peço desculpas por qualquer ato ou declaração de minha autoria que tenha sido interpretada como desrespeito aos familiares das vítimas da Covid-19 ou profissionais de saúde que assumiram a nobre missão de salvar vidas.

Isso tudo aconteceu até a semana passada.

Depois de um sumiço, o empresário foi convocado pela CPI que investiga a atuação do governo federal na pandemia.

Primeiro ele se negou a depor. Depois, foi intimado a comparecer via condução coercitiva. E, finalmente, nesta semana subiu à bancada da CPI – para repetir 70 vezes que ficaria calado, permanecendo em silêncio após questionamentos das autoridades do Senado, um Poder constituído do Brasil.

O resto você assistiu na TV.

Carlos Wizard Martins não entendeu quanto vale uma reputação. E, num passe de mágica, caminha a passos largos para arruinar de vez a sua própria.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Eduardo Vieira é membro do Conselho Editorial da Fast Company Brasil.