Consequências das tensões no Oriente Médio para a transição energética
A transição energética já está em curso. A questão central agora é quem vai capturar valor, influência e liderança nesse processo

A geopolítica voltou ao centro da agenda global. Ao lado dos eventos climáticos extremos e da fragmentação econômica, ela figura entre os principais riscos sistêmicos do nosso tempo.
Nesse novo contexto, as temáticas em torno das mudanças climáticas deixam de ser uma agenda predominantemente voluntária para se tornar também um vetor estratégico de poder.
Essa diferença de percepção revela algo mais profundo e cada vez mais evidente: não estamos apenas vivendo um período de instabilidade. Estamos atravessando uma reorganização estrutural da geopolítica do poder
Energia, indústria e tecnologia passam a operar como instrumentos centrais dessa transformação e disputa.
Durante décadas, a agenda climática foi construída sob a lógica da coordenação multilateral, com acordos, metas compartilhadas e negociações globais. Hoje, ela é cada vez mais moldada por interesses nacionais, disputas por competitividade e estratégias de posicionamento econômico.
Essa mudança já se traduz em movimentos concretos. Diferentes economias estão mobilizando volumes significativos de capital para reconfigurar suas bases produtivas, fortalecer cadeias domésticas e reduzir vulnerabilidades externas.
Esse processo já se mostra desigual para nações em desenvolvimento e pede urgência para políticas de justiça social globais. Porém, já podemos afirmar que a transição energética deixou de ser apenas uma resposta à crise climática e passou a ser também política industrial e estratégia de segurança econômica.
A busca por segurança energética e diversificação, inclusive, tem sido um dos principais vetores da aceleração recente de investimentos em energias renováveis, que atingiram o marco histórico de US$ 2,3 trilhões em 2025. Ainda que distribuídos de forma assimétrica e cada vez mais disputados entre regiões, apontam para a direção correta para a transição.

As Conferências do Clima refletem diretamente essa transformação: a conversa se amplia e passa a incorporar não apenas compromissos políticos, mas também mecanismos concretos de implementação, financiamento e articulação entre setores, como por meio do framework da Global Action Agenda (Agenda de Ação Global) e do Eixo 1 de transição energética.
Em minha recente visita à Turquia, em uma missão pré-COP31, essa percepção se intensificou. Espaços de encontros internacionais sobre a temática se tornam mais do que espaços técnicos de negociação, mas plataformas de articulação estratégica.
Sediar uma COP passa a significar capacidade de influenciar agendas, narrativas e fluxos de investimento. Não se trata apenas de diplomacia ambiental, mas de posicionamento no novo tabuleiro global.
Leia mais: Especialistas climáticos apostam no sucesso das tecnologias “limpas”
Há, porém, um paradoxo central. Os conflitos presentes no entorno fragmentam a cooperação internacional, redirecionam recursos e aumentam a incerteza, abrindo espaço para um fortalecimento de interesses locais que pode levar ao enfraquecimento de políticas internacionais, inclusive em temas críticos como a segurança alimentar.
Ao mesmo tempo, esses mesmos fatores aceleram transformações estruturais: cadeias produtivas são reorganizadas, investimentos são redirecionados e novas hierarquias econômicas começam a emergir.
No pacote do mutirão de Belém, já foi estabelecido que dois grandes mapas de caminho serão prioritários a partir de 2026: o caminho para longe dos combustíveis fósseis e o caminho para o fim do desmatamento. Ambos não são apenas agendas ambientais, mas agendas de reorganização econômica e cada país terá também desafios próprios nessa trilha.
a agenda climática é cada vez mais moldada por interesses nacionais e estratégias de posicionamento econômico.
No caso do Brasil, essas duas agendas convergem em um ponto central: o uso do solo. Poucos países reúnem, ao mesmo tempo, capacidade de expansão de energias renováveis, base industrial relevante e protagonismo na agenda de natureza. Isso coloca o Brasil em uma posição singular nesse novo ciclo.
A questão que se coloca não é mais se a transição vai acontecer, ela já está em curso. A pergunta central passa a ser: quem vai capturar valor, influência e liderança nesse processo? E como promover um necessário compromisso com a justiça social nesse cenário?
A resposta será definida menos por discursos e mais pela capacidade de transformar estratégia em implementação.
