Pesquisas revelam que o retorno ao trabalho presencial está causando um tipo específico de ansiedade. Grande número de profissionais não quer que o trabalho remoto termine. Por medo de se contaminar? Até certo ponto, sim. Nos EUA e na Europa, trabalhadores observam os casos de Covid causados pela variante delta e estão preocupados em retornar ao escritório. Google e Facebook, por exemplo, exigirão que todos em seus escritórios sejam vacinados contra Covid.

A questão de segurança e saúde, porém, é apenas uma entre muitas. Como regra, os jovens não querem voltar para os escritórios no pós-pandemia. Também como regra, a decisão de retornar ao modelo presencial opõe gestores mais experientes, que consideram trabalhar no escritório a ordem natural das coisas, a subordinados mais jovens, que passaram a considerar o trabalho remoto como completamente normal nos 16 meses transcorridos desde que a pandemia surgiu.

A ansiedade trazida pela tentativa de retorno ao “business as usual” é um dos grandes temas do momento. Está dado, por exemplo, que os empregadores precisarão abraçar a flexibilidade para manter os trabalhadores felizes. E idealmente oferecer-lhes espaços tão aconchegantes quanto as suas casas, com ambientes para reuniões híbridas (parte do time fisicamente presente; parte participando remotamente) e outros que garantam privacidade e concentração, silêncio e foco.

“O home office veio para ficar: mesmo com o avanço da vacinação, 87,3% das empresas brasileiras dizem que manterão um sistema híbrido nos primeiros meses pós-pandemia”

Nos Estados Unidos, a variante delta do coronavírus confundiu e atrasou a formulação dessas estratégias para a retomada. Por causa da mutação, há mais trabalhadores temerosos em voltar para o escritório, já que mesmo empregados totalmente vacinados correm o risco de contrair a variante e infectar colegas de trabalho não imunizados. No Brasil, 33,8% das empresas preveem voltar ao trabalho presencial nos escritórios somente no ano que vem, enquanto 66,2% já voltaram ou esperam que isso ocorra ao longo deste ano. E o home office veio para ficar: mesmo com o avanço da vacinação, 87,3% das empresas brasileiras dizem que manterão um sistema híbrido nos primeiros meses pós-pandemia – o que está em linha com o que se vê no mundo.

Uma pesquisa global da Accenture com 9,6 mil entrevistados revelou que o trabalho híbrido será (ou já é) uma realidade para a maioria dos trabalhadores. Outro levantamento, feito pela JLL, consultoria especializada em serviços imobiliários, com dois mil profissionais, mostrou que somente 10% querem voltar ao escritório em tempo integral, enquanto 24% querem trabalhar apenas remotamente. Outros 66% querem um modelo híbrido. Com modelos de trabalho mais flexíveis, os empregadores podem diminuir suas sedes e abrigar os híbridos em coworkings – um setor animado com suas novas perspectivas. No pós-pandemia, eles vão oferecer desde o uso por hora até espaços para nichos profissionais, de direito a marcenaria.

Soluções como as da BeerOrCoffee permitem que o empregador pague pelo espaço compartilhado somente quando seus funcionários o utilizarem. E estações de trabalho compartilhadas entre colegas de profissão já são realidade aqui. A Law Works, por exemplo, criou um escritório para advogados.
Em paralelo, organizações do mundo todo detectam burnout em suas forças de trabalho (é provável que tenhamos recorde histórico de casos em âmbito global confirmado nos próximos meses) e precisam operacionalizar a frase “trabalhar de modo mais inteligente, não mais duro”.

Em certos casos, porém, o que é rotulado como burnout é na realidade resultado de uma cultura de trabalho tóxica e/ou da falta de diversidade. Pessoas marginalizadas. Assédio que pode estar ocorrendo diariamente na empresa. “A pandemia mostrou que agora – mais do que nunca – precisamos mudar para um modelo de trabalho que proteja os funcionários do estresse e do esgotamento”, afirmou recentemente Alex Soojung-Kim Pang, autor de um livro sobre a semana de trabalho de quatro dias. A Islândia ganhou manchetes ao declarar o sucesso do maior experimento já feito da semana mais curta no setor público. Segundo Pang, empresas estão descobrindo que ao mudar para a semana de quatro dias podem estimular seu pessoal a trabalhar sem distrações em troca de mais tempo para lazer. E o que é melhor: as empresas já fizeram os investimentos em tecnologia necessários para implementar a semana de quatro dias.

Da ansiedade com o medo de se contaminar na volta aos escritórios à semana de trabalho de quatro dias, estamos falando de elementos da maior mudança na cultura e na organização do trabalho desde a industrialização. Essa mudança está ligada a propósito. Tem a ver com digitalização e metodologias ágeis. Tem a ver com estilo de vida. Tem a ver com aprendizagem. Sim, tem a ver com o futuro da aprendizagem. É parte de um processo cultural. Pelo menos da minha cultura: o que eu meço, o que valorizo, a experiência do trabalho, a interação. Quanto você consegue enxergar isso na sua escolha de futuro? Porque futuros se constroem, e o modelo que utilizamos tradicionalmente para planejar as nossas carreiras precisa de personalização. Urgente. Fala-se tanto em “pôr o humano no centro”. O humano é você. O humano somos nós.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Alexandre Teixeira é jornalista, escritor e cofundador da ODDDA – O Dia Depois De Amanhã.