Da diplomacia à implementação: um novo momento para a liderança climática do Brasil

A chegada do World Climate Summit a São Paulo posiciona a cidade ao lado de outros centros globais onde se discutem os rumos da economia climática

São Paulo passa a fazer parte do circuito global da Climate Week
Crédito: Magnific

Flora Bitancourt 5 minutos de leitura
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Por muitos anos, o Brasil ocupou uma posição ambígua nas negociações climáticas globais. Éramos vistos como um país indispensável por abrigar a maior floresta tropical do planeta, mas frequentemente chamados à mesa para responder por nossos desafios ambientais.

Nossa relevância era inquestionável, mas o protagonismo ainda dependia da narrativa construída por outros.

A COP30 mudou essa lógica. Belém não será lembrada apenas por sediar a primeira Conferência do Clima da ONU na Amazônia, mas por marcar a transição da agenda climática da era das promessas para a da implementação. 

Depois de anos de compromissos ambiciosos, porém lentos em produzir resultados, a conferência consolidou uma mudança de paradigma.

O Mutirão de Implementação institucionalizou a Agenda Global de Ação Climática no processo oficial da Convenção do Clima da ONU e reconheceu o que a realidade já demonstrava: governos são essenciais, mas não conduzirão essa transformação sozinhos. Empresas, investidores, instituições financeiras e cidades passaram a ocupar o centro da implementação climática.

Essa, talvez, seja a maior herança de Belém e também apenas o começo. O sucesso de uma Conferência do Clima nunca se mede pelos aplausos ao seu encerramento, mas pelos meses seguintes, quando compromissos precisam se transformar em investimentos, políticas públicas, inovação e projetos capazes de acelerar a economia de baixo carbono.

símbolo da COP30 sobre imagem de barco descendo o rio
Crédito: Ildo Frazão/ iStock

É justamente entre a ambição e a execução que as Climate Weeks assumem protagonismo.

Esse movimento teve início com a Climate Week NYC, criada em 2009 para reunir lideranças durante a semana da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.

Embora não faça parte da estrutura formal da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (UNFCCC, na sigla em inglês), a Climate Week consolidou-se como uma das principais plataformas de mobilização do setor privado e de articulação entre diferentes atores da agenda climática.

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Seu sucesso inspirou o surgimento de outras iniciativas semelhantes pelo mundo, com destaque para a London Climate Action Week, que hoje é considerada a maior mobilização climática da Europa e desempenha papel crescente na construção de parcerias, lançamento de iniciativas e alinhamento de agendas antes das COPs.

CLIMATE WEEKS E REGIONAL CLIMATE WEEKS

É importante distinguir essas iniciativas das Regional Climate Weeks organizadas pela UNFCCC.

Enquanto as Climate Weeks independentes surgem da mobilização de organizações, empresas e governos locais e operam como plataformas abertas de colaboração, as Regional Climate Weeks integram o processo oficial da Convenção do Clima e foram concebidas para fortalecer a implementação regional das decisões das COPs, aproximando prioridades locais da agenda internacional.

É por isso que considero histórica a chegada do World Climate Summit a São Paulo, que acontece de hoje a sexta-feira (dias 3 a 7 de agosto). Pela primeira vez, a World Climate Foundation incorpora uma cidade do Sul Global ao seu calendário oficial, ao lado de Nova York e Londres.

O Centro de Inovação Verde Bruno Covas sedia a Climate House na Semana do Clima  de São Paulo
O Centro de Inovação Verde Bruno Covas sedia a Climate House (Crédito: Prefeitura de São Paulo)

Ao integrar São Paulo ao seu calendário anual, a fundação posiciona a cidade ao lado de outros grandes centros globais onde se discutem os rumos da economia climática. Mais do que um novo evento, trata-se do reconhecimento de que a geografia da liderança climática está mudando.

O centro da economia de baixo carbono se desloca para regiões que combinam recursos naturais, capacidade industrial, inovação, segurança energética e escala de implementação. Poucos países reúnem essas condições como o Brasil.

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E poucas cidades concentram tanta capacidade de transformar decisões em investimentos quanto São Paulo. Como maior centro financeiro e empresarial da América Latina, reúne governos, empresas, investidores e centros de inovação capazes de acelerar a nova economia climática.

Os quatro temas priorizados pelo World Climate Summit São Paulo – energia, cidades, economia circular e sistemas alimentares – refletem essa nova fase da ação climática global, alinhados às prioridades da Agenda Global de Ação Climática e aos setores com maior potencial de acelerar a implementação.

LABORATÓRIO DA NOVA ECONOMIA CLIMÁTICA

Mais do que promover debates, o Summit busca conectar lideranças e construir parcerias capazes de transformar compromissos em planos concretos de aceleração de soluções.

A transição energética avança em ritmo recorde. As cidades concentram boa parte das emissões e das soluções. A economia circular tornou-se uma estratégia de competitividade, enquanto os sistemas alimentares conectam segurança alimentar, biodiversidade, uso do solo e clima.

O Brasil reúne condições raras para liderar simultaneamente a expansão das energias renováveis, a bioeconomia, a agricultura sustentável, a restauração florestal e as soluções baseadas na natureza.

Pela primeira vez, a World Climate Foundation incorpora uma cidade do Sul Global ao seu calendário oficial.

Ao mesmo tempo, os dois grandes desafios globais da próxima década – acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis e eliminar o desmatamento – convergem aqui em um mesmo ponto: o uso do solo.

Isso transforma o país em um dos principais laboratórios da nova economia climática. Mas o protagonismo nunca é permanente, é uma escolha.Competitividade, geopolítica e clima passaram a caminhar juntos.

Atrair investimentos, desenvolver novas cadeias produtivas e influenciar padrões internacionais dependem, cada vez mais, da capacidade de liderar soluções climáticas em escala.

É esse o papel de iniciativas como o World Climate Summit: criar o ambiente onde confiança, parcerias e projetos ganham escala. Em um momento no qual o financiamento climático precisa acelerar, esses encontros deixaram de ser vitrines institucionais para se tornarem plataformas de implementação.

A transição já começou. A questão agora é quem ajudará a definir suas regras, direcionar investimentos e liderar sua implementação.

O Brasil deu um passo decisivo em Belém. Agora cabe a São Paulo mostrar que liderança climática não se mede apenas pela capacidade de sediar grandes encontros, mas pela habilidade de transformar ambição em ação e compromissos em resultados.


SOBRE A AUTORA

Flora Bitancourt é líder da World Climate Foundation no Brasil e co-fundadora da Impact Beyond, ecossistema de plataformas de impacto ... saiba mais